Geociências e Formação Continuada - Subprojetos desenvolvidos nas escolas da rede pública

Construindo o conceito tempo

  Autor: Inês Henrique dos Santos

Escola: E.E. Manoel Luiz Campo Inácio

 

Apoio:

 

 

Introdução

Atividades realizadas

Idéias prévias

A construção da história...

O aprendizado pela pedra

Considerações finais

Referências bibliográficas

Introdução

        "Dentro dos conceitos científicos que os alunos devem aprender pode-se estabelecer uma distinção entre os princípios ou conceitos estruturadores e os conceitos específicos. Os princípios seriam conceitos muitos gerais de um alto nível de abstração, que costumam ser subjacentes à organização conceitual de uma área, embora nem sempre se tornem explícitos ou suficiente. Idéias tais como a de tempo histórico na história (...). São princípios que atravessam todos os conteúdos dessa matéria e cuja compreensão plena deve ser obrigatória. Dificilmente podem ser compreendidas noções mais específicas se esses princípios não forem dominados. (Pozo, 1998, p. 25-26)."

O objetivo desse trabalho é apresentar alguns dos resultados da experiência de desenvolver o conceito ‘tempo’ sob o ponto de vista da História e da Ciências na prática do conteúdo curricular da disciplina de História, tema normalmente abordado de formas diferentes por estas disciplinas, e sem qualquer tentativa de interação.

Abordei o tema buscando a junção entre os conceitos ensinados em Ciências e os ensinados em História, valorizando dois dos objetivos definidos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (P.C.Ns): "reconhecer que o conhecimento histórico é parte de um conhecimento interdisciplinar ... [e] compreender que as histórias individuais são partes integrantes de histórias coletivas". (Brasil, 1998, p. 43).

Entendendo que os diversos conceitos de tempo são apreendidos ao longo de uma variedade de estudos interdisciplinares, direcionei o planejamento no sentido de elaborar atividades que possibilitassem o iniciar do aluno no trabalho com três dimensões de tempo: o cronológico, o vivido (social) e o histórico, ou seja, despertar o aluno para a existência de outros tempos, possibilitando ao mesmo estabelecer relações entre passado/presente através do reconhecimento de transformações e permanências.

O desenvolvimento das atividades contribuem e estão em acordo com a proposta de História para o ensino público no Estado de São Paulo, quando esta busca transmitir os conceitos históricos partindo da parte para o todo e deste para as partes, realizando um constante vai e vem que possibilita a compreensão dos múltiplos acontecimentos, nos períodos históricos. "Esse movimento de tempo - entendido como contradição e não como evolução progressiva - permite a reconstrução crítica". (CENP, 1992, p. 21).

A multidimensionalidade do tema possibilitou a interlocução dos conteúdos da disciplina Ciências que tratam a concepção de tempo cíclico da natureza (ciclo do dia e da noite, das fases da lua, do movimento das estrelas, das estações do ano), com o tempo histórico quando este trata da construção dos calendários , das histórias de indivíduos, de povos, ou da humanidade (a vida e a morte, as idades ao longo da vida, a repetição dos meses de um ano a outro).

Trabalhar a construção do conceito tempo, buscando os indícios da marca do tempo na natureza, é idéia contida nos P.C.Ns. Bakhtin, ao discutir o conceito ‘tempo’, também faz referência aos indícios do tempo na natureza e na vida do homem. "O tempo se revela acima de tudo na natureza: no movimento do sol e das estrelas, ... nos indícios sensíveis e visuais das estações do ano. Tudo isso é relacionado aos movimentos que lhe correspondem na vida do homem (com seus costumes, sua atividade, seu trabalho) e que constituem o tempo cíclico. ... Por outro lado, temos os sinais visíveis, mais complexos, do tempo histórico propriamente dito, as marcas visíveis da atividade criadora do homem, as marcas impressas por sua mão e por seu espírito: cidades, ruas, casas, obras de arte e de técnica, estrutura social, etc." (Bakhtin, 1997, p. 243.)

Atividades realizadas

As atividades de estudo em sala e extraclasse foram realizadas com os alunos da 5ª série C do período diurno da EMEF "Maria Pavanatti Favaro", no decorrer do ano letivo de 1999, classe formada por 35 alunos, todos na faixa etária de 11 a 13 anos, residentes em bairros periféricos nas proximidades do Distrito Industrial de Campinas.

Logo no início do ano, no decorrer das primeiras aulas presenciei resultados opostos. De um lado, demonstravam grande interesse e facilidade de assimilação de textos que narravam acontecimentos presentes e, por outro, demonstravam desinteresse e dificuldade de compreender e assimilar os textos históricos relacionados ao passado. Refletindo sobre os resultados, conclui que as dificuldades eram devidas, pelo menos parte delas, ao não domínio do conceito de temporalidade. Tentando facilitar o entendimento, falei sobre a existência de diferentes conceitos de tempo, elaborando uma explicação superficial e imediata. ‘Crianças, hoje estamos vivendo o tempo presente. Nesse momento a nossa história está sendo construída, no entanto, o tempo passado é aquele já vivido, a história que já aconteceu e já foi escrita". Percebi que o meu discurso dificultou ainda mais o aprendizado. Buscando ensinar um modo de situá-los no tempo e na história, considerei necessário desenvolver aulas introdutórias com os conceitos teóricos de tempo.

Perseguindo os objetivos, realizei as seguintes atividades na sala de aula:

Extra-classe foram realizadas:

o meu tempo de vida enquanto bebê,

o meu tempo de vida enquanto criança,

o meu tempo de vida de estudo enquanto aluno.

Desse modo, à medida que os alunos partilham suas histórias, vão se percebendo participantes do mesmo tempo e período: nasceram na mesma década, moram na mesma cidade, estudam na mesma escola, gostam das mesmas brincadeiras, se gostam ... Atuam como personagens na vida dos coleguinhas, e na história presente. Então, ‘a vida’ dos pais entra em cena. O passado dos pais determina, de certa maneira, o desfecho do presente, na vida do filho. Se estamos vinculados ao passado dos meus pais, posso trabalhar a idéia de que também estamos vinculados ao passado da História oficial.

"A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem." (Hobsbawm, 1995, p. 13).

Idéias Prévias

"...quando se sai nunca se sabe os riscos".

(James Joyce. In. Fontana – Memorial, 1999, p. 23)

O levantamento das idéias prévias baseia-se na concepção de que "... o aprendizado das crianças começa muito antes delas freqüentarem a escola, qualquer situação de aprendizado com a qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia... o aprendizado tal qual ocorre na idade pré-escolar difere nitidamente do aprendizado escolar, o qual está voltado para a assimilação de fundamentos do conhecimento científico" (Vygostky, 1999, p. 110).

Por exemplo, as crianças estudam na disciplina de Ciências os movimentos da Terra; o aparente movimento do Sol e a relação existente entre estes e o fenômeno dia e noite. Mas, todos já conheciam o movimento do sol que nasce e se põe, formando o dia claro e escuro e a seqüência de ‘um dia atrás do outro’.

Quando a ênfase do estudo está centrada na aprendizagem de um conceito específico é conveniente que as atividades realizadas para tal fim se baseiem em fatos e acontecimentos que os alunos já conheçam ou saibam de certa forma. Assim, iniciamos o desenvolvimento do tema com um diálogo sobre a concepção da formação do dia (claro escuro). No dialogar, observei as idéias prévias, buscando sintetizar as diversas primeiras compreensões sobre o conceito de tempo.

Ao apresentar o tema a ser estudado percebi que os alunos tentavam " (...) atribuir um sentido inicial ao novo conteúdo partindo de conhecimentos que supõem ou intuem que estão relacionados". (Miras, 1998, p. 69). É este o caso, por exemplo, da resposta de Daiane à questão proposta.

Com uma resposta aparentemente equivocada, Daiane demonstrou ser capaz de associar rapidamente a questão nova para ela, com os conhecimentos previamente adquiridos. Conhecendo que o Japão encontra-se do outro lado da Terra, e quando é dia claro aqui, é escuro do outro lado, logo, as estrelas estão lá, no Japão.

A reflexão posterior possibilitou-me compreender que o diálogo inicial permitiu o levantamento de uma pequena parcela dos conhecimentos prévios, não dando conta de ressaltar os diversos saberes dos muitos componentes da sala. No desenvolver das demais atividades, outros saberes foram revelando-se, esclarecendo pouco a pouco o que cada um realmente conhece ou se permite estar conhecendo. Meu julgamento primeiro se mostrou impreciso e inacabado, sendo ampliado ao longo do processo.

"Dada a dificuldade de poder avaliar detalhadamente o conjunto dos conhecimentos prévios necessários, pode ser conveniente e ao mesmo tempo mais útil fazer uma exploração global ..., adiando a avaliação de aspectos mais específicos ou pontuais, para o início ou durante as lições concretas" (Miras, 1998, p. 73).

O entendimento formado no dia a dia fora da escola, nesse caso em específico, criou uma compreensão parcial dos acontecimentos. A incompreensão do desenvolvimento dos fenômenos que determinam a formação do dia de 24 horas e o ano de aproximadamente 365 dias, propiciando ao homem a demarcação de tempo em uma seqüência cronológica dificultam o entendimento de que são os movimentos da Terra que viabilizam a existência dos ‘Tempos Históricos’.

Buscando verificar qual havia sido o entendimento sobre os conceitos apresentados pelos vídeos, após as exibições, apresentei as seguintes questões:

  1. Se olharmos para o céu quando levantamos, no horário do almoço, na hora do lanche da tarde e antes de irmos para cama. O que observamos?

  2. Ao olharmos o Sol, temos a impressão que ele está caminhando ao redor da Terra, da direita para a esquerda, mas na realidade o que está acontecendo?

  3. Um dia tem a duração de 24 horas (claro e escuro). Explique o que determina o fenômeno?

  4. Durante as horas escuras do dia enxergamos muitas estrelas, mas durante as horas claras só vemos o sol. Onde estão as estrelas que vemos à noite?

  5. A tele-aula que assistimos explicou um dos movimentos da Terra. Que nome esse movimento recebe e qual fenômeno de tempo esse movimento determina?

Várias manifestações interessantes foram apresentadas, muitos dos alunos conseguiram relacionar o aparente movimento do Sol com o real movimento da Terra. Carlos escreve sobre a sua grande descoberta:

Dos alunos que formam a classe em questão, praticamente todos (uns mais outros menos) interiorizaram os conceitos. Aceitando como aprendizado satisfatório, entender, mesmo superficialmente, que a Terra gira em torno de si e esse movimento cria a dia de 24 horas (noite e dia). Essa constância permite-nos delimitar o tempo. O relato escrito em reposta as questões, nesse caso específico, demonstrou a eficiência da interação com os conteúdos de Ciências. Grande parte dos alunos demonstraram ter algumas noções sobre os movimentos da Terra - conceitos previamente assimilados nos estudos anteriores, permitindo avançar na questão de que são esses fenômenos naturais que marcam o tempo.

Josiane, em resposta a questão 1, diz: "Essa observação, é que o Sol está parado e as estrelas também, e nós pensamos que eles estão girando".

A questão ‘tempo’ encontra-se fortemente marcada ‘está indo’ porque a ‘Terra está girando’ causa e efeito.

Na questão 2, a Juliana escreve: "Mas na realidade a Terra está indo para o outro lado."

Na questão 3, Fabiana: "A Terra gira em torno do Sol, fazendo o movimento de rotação. Uma parte da Terra fica escura, e a outra clara."

Willian responde a questão 4. "Na verdade estamos rodeados de estrelas mas de dia a luz do sol bloqueia a visão e elas ficam em volta da Terra. De noite a Terra gira e podemos ver as estrelas."

Na questão 5, Luíza: "... é o movimento de rotação. E ele é responsável pelo dia e a noite."

Nesse momento do trabalho, todos nós sabíamos o que estávamos procurando, o entendimento das diferentes atuações dos fenômenos terrestres (e os astros a sua volta) no tempo e na história. O perceber a relação do tempo cronológico com os fenômenos naturais e a participação da cronologia na documentação do tempo histórico auxiliou na construção da narrativa histórica. Esse pressupostos foram confirmados na construção dos trabalhos apresentados sobre a História de Vida.

A construção da história contribuindo para ...

            ... a construção dos diferentes conceitos de tempo. 'O meu tempo'.

"No caso específico do conhecimento escolar, o referencial privilegiado dos sistemas conceituais é o saber acumulado nas diferentes disciplinas científicas". (Oliveira comentando Vygotsky, 1997, p. 50).

A construção de conceitos é um dos grandes problemas da aprendizagem atual. Muitos professores pretendem conseguir que seus alunos aprendam conceitos, e descobrem que estes somente são capazes de repetir, mas não de compreender de forma significativa, comprometendo assim a elaboração de novos conceitos. Para que os fatos históricos adquiram significado, os alunos precisam apreender conceitos que lhe permitam interpretá-los.

"Os conceitos permitem-nos organizar a realidade ... Um conceito científico não é um conceito isolado, mas faz parte de uma hierarquia ou rede de conceitos". (Pozo, 1998, p. 21).

Na construção do conceito ‘tempo’ é necessário estabelecer uma relação entre o tempo cronológico, o tempo social (vivido) e o tempo histórico. Conhecer o conceito ‘tempo’ demarcado em seqüência linear, dia, meses e anos, é fundamental para o entendimento buscado.

São diferentes conceitos que propiciam a modificação, medição simbólica entre as pessoas e o mundo ao redor, tornando-se a passagem através do qual o indivíduo compreende os acontecimentos e pode então agir sobre eles, principalmente na história social contemporânea a qual evidencia que "... vivemos um momento prodigioso da técnica com transformações profundas das noções de espaço e tempo". (Novaes, 1992, p. 14). A cada momento se estabelecem sistemas do acontecer social que caracterizam e distinguem tempos diferentes, permitindo falar de hoje e de ontem. Para entender o formar dos períodos históricos, é necessário que seja posta muito bem a noção de periodização. É forçoso dominar a divisão do tempo em períodos. Não somente os períodos da divisão cronológica do tempo (décadas, séculos, etc.), mas também os períodos entendidos como: "... pedaços de tempo submetidos à mesma lei histórica". (Santos, 1998, p. 70). Ampliando a noção de tempo, Santos prossegue: "por tempo, vamos entender grosseiramente o transcurso, a sucessão dos eventos e sua trama" (op. cit., p. 41).

Ao construirmos o conceito de tempo, considero o pensamento de Milton Santos que nos lembra : "O tempo se dá pelos homens. O tempo concreto dos homens é a temporização prática, movimento do mundo dentro de cada qual e, por isso, interpretação particular do tempo por cada grupo" (...). (1998, p. 83)

Os trabalhos realizados pelos alunos demonstram a construção conjunta do "nosso conceito de tempo", quando estes narraram os fatos em ordem cronológica e utilizaram os verbos nos tempos corretos. Cito como exemplo o trabalho da aluna Dany, "O Meu Tempo".

"Antes de eu nascer ...

Finalmente nasci no dia 7 de fevereiro de 1988. "(...)

 

O aprendizado foi além da ordem cronológica linear do tempo. Ela descreve os acontecimentos ano a ano e, depois, interrompe o relato no terceiro ano, retomando no sétimo.

"Eu já estava com 1 ano.

Passou 1 ano e eu já fiz dois anos de idade

Meu aniversário de 3 anos ... "

 

"O tempo passou.

Eu já estava pronta para ir para a primeira série."

Ela observa que o período de tempo entre 3 e 7 anos (primeira série) é longo em comparação com os intervalos de ‘um’ ano do texto anterior. Demostrando entender a questão da ruptura e continuidade nos relatos da história, interrompe a seqüência ano a ano e reinicia com a frase "o tempo passou".

Um dos pontos marcantes, nos trabalhos, foi a utilização de fotografias como documento histórico e marcas do movimento do tempo. "A foto assume aqui não seu lugar como representação, mas seu papel mágico como re-presentificação ao nos recolocar em presença de algo já distante, no tempo ou no espaço... a imagem aguça a memória, e nosso passado passa a ter uma existência concreta a partir dos retratos tirados. Como se, sem eles, nosso passado não tivesse consistência". (Menezes, 1997, p. 36 e 39).

É curioso observar que a utilização das fotografias como parte do trabalho foi uma iniciativa individual. Entre os trabalhos elaborados pelos alunos, quatro continham fotografias como documento de comprovação do fato histórico relatado. Desses quatro, dois tanto fundamentaram a escrita com as fotografias como utilizaram as imagens para comprovar o movimento do tempo e da seqüência cronológica.

Dafny utiliza cinco fotografias como parte do texto, arrumando-as como marcas da movimentação do tempo. Escreve sobre os acontecimentos e depois argumenta: "Agora estou na 5ª série."

Adriana situa muito bem a narrativa no tempo, reforçando a argumentação com imagens fotográficas. Ela diz: "Quando bebê, mamãe, papai, e eu fomos à praia" e, então, acrescenta a fotografia da família na praia. Quase no final, há outra fotografia, ela com 7 anos e a irmãzinha bebê, em uma praça pública e seu texto diz: "Eu adorava passear com minha família..." Cada fato narrado é comprovado com a utilização da imagem, prova "documentada" do tempo histórico vivido, a fotografia do passeio. Nesse caso, o movimento do tempo é dado pela narrativa. Adriana afirma, "eu cresci", significando o andar do tempo, agora que o tempo passou, já cresci o suficiente para entrar na escola.

A utilização de fotos mostra-se importante, uma vez que a fotografia pode ser usada como documento na construção do conhecimento histórico. Por meio desta, é possível marcar estilos de épocas, condições sociais, história da sociedade e de cada um em particular. "A fotografia tem uma relação direta com o tempo. Por ser representação de algo ou alguém, testemunha inexoravelmente um tempo passado, um tempo paralisado ... ela embalsama o tempo" ... (Menezes, 1997, p. 38).

Na elaboração dos trabalhos ‘A História da Minha Vida’ e ‘A História de Vida dos Meus Pais’, não orientei quanto à coleta de dados e às formas de organização do texto, por tencionar a observação do domínio ou não de dois conhecimentos considerados importantes para a compreensão dos diferentes conceitos de tempo:

Devido às dificuldades de aprendizagem percebidas no início da disciplina, conclui que o estudo descontextualizado não possibilita formar significados. O estudo isolado de cada um desses aspectos não permite a interlocução, e o aluno desenvolve fragmentos de conceitos, dificultando o entendimento da movimentação do tempo, impossibilitando o "vai e vem" proposto para a compreensão das contradições históricas.

Ao buscar o "vai e vem" no tempo histórico, necessito entender que "esse é um dos grandes problemas hoje, do estudo da História ..., mas, em todos os momentos, as formas criadas no passado têm um papel ativo na elaboração do presente e do futuro." (Santos, 1998, p. 78).

Com satisfação, constatei, na escrita do trabalho e nos resultados das atividades, que nós, eu e os alunos juntos, fomos capazes de construir saberes. O tempo da história começou a fazer sentido, quando cada um se encontrou na história e se deu conta que esta é a narrativa das recordações de um tempo no qual vivemos e partilhamos as experiências com nossos contemporâneos e que o acontecer tem um tempo específico, datado e situado.

Ampliando o entendimento, pode-se concluir que quando o texto narra fatos históricos, os fatos também possuem seu lugar em um tempo passado e hoje representam a memória da humanidade, ‘A História’.

"Estudar alguma coisa historicamente significa estudá-la no processo de mudança ... Numa pesquisa, abranger o processo de desenvolvimento ... significa, fundamentalmente, descobrir, sua natureza, sua essência." (Vygotsky,1999, p. 85, grifos no original)

Caminhando na construção do conceito ‘tempo’, continuamos as atividades, desta vez, com a elaboração do trabalho que denominei ‘A História de Vida dos Meus Pais’, no qual os alunos deveriam, a partir de uma entrevista, elaborar uma narrativa histórica sobre a vida dos pais. O primeiro fato que me chamou a atenção foi que muitos entendiam os acontecimentos da vida dos pais como conseqüência e seqüência da sua própria existência. Todos enfatizam a união dos pais e se incluem na história quando relatam o nascimento dos filhos.

"Mas depois de 11 aninhos de casada minha mãe teve eu, Tânia Ap. Nalin, que estou com 12 anos.’

"Depois de dois anos de namoro

Se casaram sem fazer festinha

Os primeiros dois filhos, foram meninos

E a última uma menininha.

... depois de quatro anos veio, eu, a caçula da família, Alécia!"

Rogério organiza o trabalho, ‘A História da Nossa Família’, de forma singular. Divide a folha no meio com um risco, e de um lado escreve o tempo da sua mãe, do outro o tempo do seu pai. Na data do casamento, os lados se juntam e ele passa a escrever uma única história.

"No dia 17/01/86 meus pais se juntaram ... no dia 31/10/87 eles tiveram o seu primeiro filho, eu, Rogério Fiuza de Andrade."

*** inserir o trabalho***

 

Todos têm seu tempo determinado e único na narrativa histórica. O conceito de tempo histórico e tempo cronológico faz sentido para os alunos, eles descrevem os acontecimentos utilizando o discurso narrativo, organizando os fatos em seqüência cronológica. Nesse caso, o discurso narrativo seqüencial descreve eventos que demonstram a movimentação do tempo. E a interação dos componentes curriculares das disciplinas de Ciências e História, no que se refere à questão do tempo em suas diferentes construções, colaboram no construir com o aluno o significado do termo ‘tempo’. Essa construção contribuiu para a compreensão dos acontecimentos e dos diferentes conceitos de tempos na história humana.

Compreendendo o discurso narrativo sucessivo como a apresentação seqüencial ou cronológica das partes de um dado evento, "...onde o acontecimento é relatado no seu encadeamento temporal" (Santaella Braga, 1980, p. 47), apresento o trabalho da Adriana, valorizando mais um aspecto da elaboração dos alunos. Adriana, ao narrar ‘A História da Minha Mãe’ relata os acontecimentos formando uma cadência temporal.

"Minha mãe nasceu no dia 30/11/1962. Conheceu meu pai... 5 anos depois se casou com ele no dia 18/12/1986 e me tiveram no dia 01/10/1987 e aí começou minha vida."

A lista é construída em cadência temporal cronológica, reforçando o objetivo primeiro da narrativa, o demarcar o início da sua vida, compreendendo que o fato da mãe nascer, conhecer o pai e se casar implica o essencial, ‘o seu nascimento’. Os acontecimentos selecionados por eles são pequenas parcelas da sua história, e o que acontece no restante do tempo não tem necessidade de figurar no contexto.

O Aprendizado pela pedra

"Lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la

(João Cabral de Melo Neto. A Educação pela Pedra apud Fontana)

Quando lemos em um texto os resultados favoráveis de uma pesquisa no cotidiano escolar, um sentimento de frustração paira no ar. Porque com o pesquisador sempre dá certo e comigo, professora, nem sempre?

A minha experiência como professora pesquisadora não foi somente flores. Iniciei a participação no Projeto FAPESP Ensino Público como professora colaboradora, projeto de trabalho que valoriza a interdiciplinariedade curricular no Ensino Fundamental, buscando a interlocução dos conteúdos que de certa maneira estão ligados a Geociências, e busca a construção de uma proposta de formação continuada do professor enquanto pesquisador, sentindo-me totalmente deslocada. Ensino Fundamental, História/Ciências/Geociências. Existe relação?

Observei, li ... caminhei entre as pedras, então encontrei a trilha: ‘O tempo’. Entre livros, alunos e professores comecei a perceber que a necessária compreensão da multidimensionalidade do conceito ‘tempo’ perpassa todo o conteúdo de estudo da História e o não assimilar do mesmo é um dos grandes entraves no trabalho de ensinar/aprender os conceitos históricos.

Desenvolvendo a idéia central da pesquisa e as atividades propostas, tanto pela pesquisa quanto pelo planejamento escolar, ampliei e reforcei as minhas suspeitas e mais, aprendi muito, aprendi a aprender com os alunos. Aprendi! Na necessidade de ‘colher e analisar dados’, anotava, perguntava, lia os trabalhos realizados por eles, lia ... Coloquei-me a escuta dos dizeres dos meus alunos. Desenvolvi um diferente modo de ver e ouvir as diversas narrativas, seja falada ou escrita.

Beatriz, o número cinco, uma entre os trinta e cinco que preenchem a sala de aula. Em minha pouca experiência, desconhecendo a vitalidade dos alunos menores, sugeri a apresentação oral de alguns dos trabalhos para a última aula do período. Eu, no fim das forças, eles, trinta e cinco elétricas crianças no auge das energias. Alunos, desempenhando o papel da ‘professora’, ensinando história, a história da vida. A professora no papel de ‘bombeiro’, contendo os ânimos das chaminhas. Soa o sinal ... Um largo sorriso de alívio. Caminho pelos corredores indiferente ao formigueiro de crianças indo de um lado a outro. Alguém me segura. Beatriz, brilhante de felicidade, exclama: - professora, que aula legal, a aula foi jóia! Congelo. O meu martírio foi o delírio daquela criança que agradece a oportunidade de participar ativamente da aula. Reavalio, no instante, o contraste entre a boa aula para o professor e a boa aula para o aluno. Uma aula, uma frase ouvida em tempo oportuno, redimensionando o meu modo de ver e ouvir os acontecimentos, modificando a prática.

Outros vislumbram o mesmo horizonte. Colocar-se à escuta dos alunos, aprendendo com eles um modo de ensinar a eles.

"O calor das palavras foi nos embalando numa rede de muitas palavras... memória lembrava cabeça, lembrava tempo, lembrava vida, vida que foi vivida e registrada, lembrava fotos, escritos, objetos, teia de aranha, coisas velhas.

Memória lembrava História, história da vida. E o que era história? Era distância, distância no tempo e distância no espaço, era o Pedro Álvares Cabral, era a história dos soldados, era a história de invenção..." (Freitas, 1997, p. 35)

Vivi o privilégio de desempenhar o papel da professora de história. Ao ler os muitos relatos de vidas e tramas, mudanças...permanências...rupturas e sobrevivência, encontrei a história não documentada. "A escola tem uma história documentada...coexistindo..., contudo, com esta história e existência documentada, outra história e existência, não documentada, através da qual a escola toma forma material, ganha vida. ... Nesta história não-documentada, nesta dimensão cotidiana, os trabalhadores, os alunos e os pais se apropriam dos subsídios e das prescrições estatais e constroem a escola." (Rockwell e Ezpeleta, 1989, p. 13).

Rockwell e Ezpeleta falam da construção da escola real vivida, e eu, na escola encontro a construção da História, da vida. Juntos (professora, pais e alunos) escrevemos uma parcela de história, a nossa História, e não é um chavão formal. É construção, é fato.

"Roda o tempo de criança.

Roda o jeito de mudança

Campo Mourão 17/07/57

Esse dia ele nasceu,

Paraná, com certeza recebe

Mais um paranaense

Que sou eu:

"José Batista de Oliveira".

 

Cresceu na roça

Talvez foi feliz

Começou a trabalhar

Com 10 anos

Com os outros menorzinhos

 

Brinquedos e brincadeiras

Talvez de vez em quando;

Carrinho de madeira,

Pinhé – pinhé e,

Bola de plástico

Talvez estes brinquedos

Lhe fazia algum agrado

 

Teve um acontecimento,

No tempo, lembra-se

Como se fosse hoje

Ia prá missas

Para ver as meninas

E comer doces.

 

 

As escolas talvez

Não fossem as melhores

Não eram particular

Nem estadual, era a

Escola dos colonos

Mais uma das municipais.

 

A cidade foi a mesma

De amigo porém foi

Os irmãos que de 13

Eram todos super amigões

Os passeios naquele tempo

Era só nos rios,

Para brincar de pescar

Os peixes pequenos.

 

O casamento não foi

Na igreja e sim no civil.

Casaram no centro de Campinas,

E até hoje estamos aqui.

 

Os filhos foram brotos deste amor,

Brotaram em minha mulher

Um jardim e uma flor

 

Trabalho no

Atlas Vilares

Entre os 14 anos que se passou,

E agora trabalho lá

Como montador de elevador.

(Em "O Tempo dos Meus Pais", apresentado por Regiane, série 5C, mas escrito por seu pai)

Esses agentes da história não se dão conta do papel que desempenham e não sabem que estão vivendo acontecimentos históricos, a própria História, a qual não se separada da história própria.

Ana Paula entrevista seus pais:

Vejo a reprodução das minhas palavras na pergunta da Ana, entretanto, as palavras não fazem nem um sentido para os pais.

" A própria história, uma história não oficial, sem heróis, sem lugar nos livros, sem lugar na escola, escondida pelo desejo? A história não escrita das gerações de migrantes que desde a década de 40 deslocam-se por este país, e que hoje ocupam os bairros periféricos dos grandes centros urbanos. Uma história a que são compelidos, em função de um quadro geral de transformações associado à industrialização e à urbanização. Uma história não escolhida, que se inscreve profundamente nos corpos e na vida de seus participantes." (Fontana, 1999, p. 30).

Caminhar entre as pedras, difícil caminhar. Tomar conhecimento das dificuldades que as pessoas têm de compreender a construção da histórica na qual estão inseridas e não se dão conta, deixando a impressão de existirem duas histórias presentes em um mesmo tempo, a história formalmente escrita e as histórias que não têm lugar na escola, nos livros e na vida, perdendo assim a beleza de reconhecer-se como ser histórico, autor da História.

Considerações Finais

Pude verificar o papel que as narrativas desempenham como forma de pensar e como estrutura para organizar o nosso conhecimento e o quanto que a elaboração dessa narrativa pode auxiliar na apreensão dos conceitos essenciais para a elaboração de saberes específicos. "... A sala de aula [é] um local privilegiado para investigar as relações entre visões científicas e cotidianas e entre discursos científicos e narrativas." (Compiani, 1998, p.164).

Percebi que as atividades desenvolvidas na disciplina de História da 5ª série na construção do conceito ‘tempo’ utilizando alguns conteúdos ditos da disciplina de Ciências, mesmo que apresentando bons resultados, significou somente o começo para a construção do conceito em questão.

Os muitos imprevistos do cotidiano escolar não possibilitam a realização integral de todo o plano de trabalho proposto. No caso da pesquisa em questão, entre outros, os trinta dias de greve e os muitos eventos retardaram algumas atividades e impediram a realização de outras. No entanto, os mesmos entraves que exigiram posturas não planejadas, produziram resultados inesperados e a produção de saberes totalmente novos.

A construção do conceito tempo ou de outros conceitos estruturantes, que atuam como auxiliares na compreensão dos conceitos específicos do conhecimento histórico, precisa fazer parte das preocupações dos professores e especialistas. Ao mesmo tempo deve-se compreender que os significados não são estáticos, "... são construídos ao longo da história dos grupos humanos, com base nas relações dos homens com o mundo físico e social em que vivem, eles estão em constante transformação". (Oliveira, 1997, p. 48).

Referências Bibliográficas

"Escrever é em boa medida, um ir e vir incessante e, ... (Larrosa.1998, p.246.) muitas vezes se assemelha ao ensinar/aprender/ensinando história; em certas ocasiões um ir e vir agitado entre a sala de aula e as estantes da biblioteca.

BAKHTIN, Mikail. Estética da Criação Verbal. Trad. A partir do francês por Maria Ermantina

Galvão G. Pereira. Matins Fontes, São Paulo, 1997.

BARRETTO, Elba Siqueira de Sá (Org.). Os Currículos da Ensino Fundamental para as Escolas Brasileiras. Autores Associados e fundação Carlos Chagas, Campinas, SP,1998.

Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: História. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRUNER, Jerome. Realidade Mental, Mundo Possíveis. Artes Mèdicas, Porto Alegre, 1998.

Carvalho, Odair e Fernandes, Napoleão. Ciências em Nova Dimensão, 6ª série, FTD, São Paulo. SP, 1996.

Coelho, Araci Rodrigues. Brincadeiras de Outros Tempos. Presença Pedagógica, nº 24 nov./dez.1998. UFMG.

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