Personagens que a história se esforça em esquecer – Parte 1
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por Rodolfo Buscarini

A história oficial é uma verdadeira ingrata, pois tudo depende da visão daquele que a escreve ou a passa para frente oralmente, às vezes sobrepujando a visão daquele que a vive.

Um dos maiores esforços da história oficial é, repentinamente, esquecer-se de alguns de seus personagens, que, se não foram principais, ao menos merecem uma nota de rodapé das mais pitorescas.

Outro dia, ao ler um dos livros da trilogia do jornalista Élio Gaspari sobre a ditadura brasileira, deparei-me com um desses personagens: o senhor Jorge Medeiros Valle, ou melhor dizendo, o Bom Burguês.

Se naquela época o comunismo internacional ainda pregava a morte à burguesia, como poderia existir um bom burguês, ainda por cima numa ditadura militar que se notabilizou, como todas da época, na caça irracional dos inimigos da pátria e lacaios de Moscou.

Jorge Medeiros Valle era um funcionário obscuro do Banco do Brasil na cidade do Rio de Janeiro, numa das épocas mais conturbadas da história mundial, que foi a transição da ‘carolice’ dos anos 60 para a ‘porra-louquice’ dos anos 70. Era a época do pleno emprego, das cocotas de Copacabana, da introdução da cocaína no Brasil, do Brasil Grande e da Tropicália. Mas também foi a época do início do endividamento exponencial do erário público, do uso corriqueiro da tortura indiscriminada como forma de ação oficial de repressão, do fim da lenda da solução militar para o Brasil, ‘cristã e honesta’ e da malograda tentativa de derrubada, manu militari, do governo militar. A tudo isso damos o nome de Milagre Brasileiro, e foi nessa época que Jorge Medeiros Valle tentou fazer seus milagres.

No Banco do Brasil, Jorge Medeiros Valle. Para o pessoal da guerrilha, o Bom Burguês. Sem que ninguém percebesse, Medeiros Valle desviou, em ardilosas manobras contábeis, cerca de 2 milhões de dólares, em cotação da época, do Banco do Brasil. Com essa grana extra, começou a freqüentar a doce vida dos novos ricos do Milagre, geralmente especuladores da nascente Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, sem despertar suspeitas, ao passo que destinava parte dessa dinheirama (pelo menos 10%), para os guerrilheiros, das mais diferentes matizes, por motivos até hoje não muito bem explicados, ganhando daí o apelido de Bom Burguês.

Porém a folia começou a acabar em 1969, quando o nome do Bom Burguês é encontrado numa das listas apreendidas pelos serviços de inteligência do governo. De rastro em rastro, a comunidade de informações, eufemismo para a parafernália esquizofrênica criada pelo governo militar para se proteger e continuar no poder, chega ao nome de Medeiros Valle. Neste meio tempo, o Bom Burguês havia internacionalizado suas ações, chegando ao ponto de ir até a França encontrar-se com investidores que eram atuantes da causa da independência das colônias africanas, de modo a obter melhores rendimentos para si próprio e para a causa da guerrilha, chegando inclusive a depositar parte da grana em bancos suíços, o supra-sumo do capitalismo internacional e a comprar um belo apartamento em uma área nobre de Paris, onde instala sua família.

Durante o ano de 1970, Jorge Medeiros Valle é pego pelo Cenimar (Centro de Informações da Marinha), o mais cruel da comunidade de informações, parceiro carioca das torturas do delegado Fleury (vide o filme ‘Batismo de Sangue’) e é enviado para a ilha das Flores. Lá, após uma inusitada negociação, como toda esta história soterrada pelos meios oficiais, o Bom Burguês se rende, no qual concorda em devolver uma parte  da dinheirama do governo, indo se exilar no exterior, onde vive com parte do que sorrateiramente desviou do Banco do Brasil.

Esta história foi romanceada no filme ‘O Bom Burguês’, com José Wilker no papel principal, porém o filme, como a história contada, caiu na obscuridade, talvez felizmente para os principais envolvidos. A última vez que o nome de Medeiros Valle saiu nos noticiários foi em 2006, ao processar o jornal ‘O Globo’, famoso pela cobertura jornalística amistosa (e conseqüente crédito fácil com a Caixa Econômica Federal) com o governo militar, por tê-lo acusado de ladrão, ganhando a causa por sinal.

A história oficial pode até se esforçado para esquecê-lo, porém é com personagens assim que a história realmente acontece.

Rodolfo Buscarini é estudante de Economia na Unicamp