Astronomia em Foco:

O professor Orlando Rodrigues Ferreira, supervisor do Observatório Municipal de Campinas Jean Nicolini (OMCJN), nos concedeu uma entrevista abrangendo as relações entre a Astronomia, a Geografia e a Humanidade, a qual foi repleta de conteúdo e dentre tantas curiosidades, selecionamos duas perguntas que sintetizam bem a vocação expansiva da Astronomia.
O professor Orlando, ainda como bacharel e licenciado em Filosofia nos envolve em reflexões acerca dessa vocação da Astronomia, e demonstra sua afinidade atuando há 27 anos com as coisas do céu, sendo também presidente do Observatório de Capricórnio e fundador do Observatório das Aterosas (Ouro Fino/MG).

CAMILA N. FÁVERO (CNF): A Astronomia é tida como uma disciplina fundamentalmente exata, ligada à física e matemática. Mas sabemos que as ciências Humanas tiveram também uma forte influência no desenvolvimento dessa ciência quando analisamos o Homem desde a pré-história. Como o senhor vê essa relação do Homem com a observação do céu?

ORLANDO RODRIGUES FERREIRA (ORF): Os registros mais antigos do firmamento remontam ao Paleolítico Superior, por volta de 50.000 anos a.p. (antes do presente), quando o Ser-humano efetuou as primeiras anotações astronômicas das quais se tem conhecimento na história, são inscrições rupestres em ossos e cavernas, principalmente na Europa, muito estudadas pelos paleoastrônomos. No período Neolítico, entre 8.000 e 12.000 a.p., o Homem começou a se estabelecer de uma forma mais gregária, desenvolvendo fortemente a agricultura (primeira Revolução Verde), principiando com domesticação de animais e aprimorando as técnicas, isto é, praticando o desenvolvimento da tecnologia, compreendendo-se esta como alterações sobre a natureza realizadas pelos Seres Humanos em favor do seu próprio benefício e sobrevivência. Dessa maneira, observar o firmamento e entender o seu comportamento era algo extremamente necessário, pois, desse modo, poderiam ser determinadas as estações do ano, se estabelecer a passagem do tempo, prever-se as enchentes e vazantes dos rios, enfim, saber o ciclo da natureza.
Portanto, podemos observar que, muito antes da matematização da Astronomia, a Humanidade já se encontrava preocupada com as coisas do Cosmos na tentativa de compreendê-lo e interpretá-lo. Pela minha própria formação em Filosofia, não consigo conceber as Ciências Exatas – ou quaisquer outros ramos do conhecimento – como estanques e limitadas às concepções matemáticas e físicas. Cada revolução científica implicou e ainda implica no estabelecimento de novos pensamentos e paradigmas que, conseqüentemente, influenciam nos fatos históricos e padrões sociais e culturais; embaso-me em Thomas Samuel Khun (1922 1996) e Gaston Bachelard (1884 1962), ambos Filósofos e Historiadores da Ciência oriundos da área de Exatas, especificamente da Física. Penso que todo curso de Exatas deveria ser realizado em nível de licenciatura, porque devemos considerar a formação das futuras mentes científicas desde o ensino fundamental. Nas grades curriculares de Exatas devem constar matérias relacionadas à área de Humanas, como História, Filosofia, Sociologia e Psicologia, dentre outras.
A relação da Humanidade com a natureza sempre foi a mais próxima possível. Estando o Universo relacionado à natureza, logo, o Ser Humano, mais que se encontrar inserido no Universo, possui este em si. Há 5 bilhões de anos pouco mais, pouco menos , uma nebulosa se transformaria por contração gravitacional numa proto-estrela que iria dar origem ao Sol e, hoje, estamos aqui; chavão entre os astrônomos: somos, literalmente, filhas e filhos das estrelas. Podemos nos considerar como descendentes da estrela Sol, porque os mesmos elementos químicos que encontramos no astro rei compõem igualmente todos os Seres na Terra, inclusive o Homem…

CNF:Como o senhor vê a ênfase dada à Astronomia atualmente? É uma ciência em expansão no meio leigo ou apenas uma disciplina para especialistas dentro de laboratórios?

ORF: (..) A constante expansão das ciências do espaço alcança as pessoas das mais diversas maneiras, destacadamente quando relacionada à facilidade de acesso à informação, mormente àquela proporcionada pela Internet.
Considerando a Astronomia de forma multi e interdisciplinar, esta pode ser associada ou inserida em vários campos do saber, por exemplo: Química, com a Astroquímica direcionada ao estudo da estrutura e evolução das estrelas; História, como História da Ciência, Paleoastronomia, Arqueoastronomia e demais áreas correlatas; Direito, com o Direito Espacial; Educação, com Ensino de Astronomia e ciências afins;
Portanto, existe um mercado abrangente a ser explorado pela Astronomia, compreendendo a pesquisa, educação, cultura e divulgação, e que necessita constantemente de profissionais que possuam não-somente conhecimento especializado em que se considere a especialização ser importante , porém que seja o mais eclético possível. Devemos resgatar um pouco ou muito do que eram os Filósofos Naturais.
O conhecimento astronômico é acessível a todos, bastando atentar para a enorme quantidade de astrônomos amadores no Brasil e associações idem. Em termos educacionais, a Astronomia encontrava-se inserida no curriculum das Escolas de instrução secundária até o início dos anos de 1930, adotando a denominação de Cosmografia ou Geografia Astronômica.
Entretanto, em 1931, houve uma reformulação no ensino no Brasil perpetrada pelo ministro Francisco Campos no início do governo do ditador Getúlio Vargas e que passou à história como Reforma Francisco Campos. Por resultado, a Astronomia foi abolida das grades curriculares e diluída em poucos tópicos dentro de outras matérias, como Ciências e Geografia, e sofreu uma estagnação em termos de ensino e divulgação no Brasil. Na atualidade a Astronomia se encontra fragmentada no ensino formal e, infelizmente, muitas vezes é exposta nos livros didáticos com descabidos erros ou conceitos ultrapassados, os professores, em sua grande maioria, não se encontram preparados para passar até as informações mais elementares relativas as coisas do Universo. Por isso, torna-se extremamente importante a atuação dos Observatórios, Planetários e Instituições de Pesquisa para a divulgação da Astronomia, assim como vem realizando o Observatório Municipal de Campinas Jean Nicolini (OMCJN). (..)