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Guardiã da obra de Mario de Andrade. Telê Ancona Lopes falece aos 87 anos.

No último dia 15, Telê Ancona Lopes, professora emérita do IEB e uma das maiores especialistas em Mario de Andrade e do movimento modernista brasileiro, falece aos 87 anos. No ano de 2022, a professora esteve presente no fórum permanente sobre a semana brasileira de arte moderna à convite do LEHG e LAGERI-GRI.


A comunidade acadêmica brasileira despede-se de uma de suas mais importantes intelectuais. A professora emérita Telê Ancona Lopez, referência incontornável nos estudos sobre Mário de Andrade e o Modernismo brasileiro, deixa um legado que atravessa gerações de pesquisadores e permanece vivo na produção de conhecimento sobre a cultura, a literatura e a identidade nacional.

Em nota de pesar, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo destacou que a trajetória intelectual de Telê Ancona Lopez “se confunde com a própria história dos estudos dedicados a Mário de Andrade e ao Modernismo brasileiro”. Discípula de Antonio Candido, ela dedicou sua vida à pesquisa, ao ensino e à preservação dos arquivos literários brasileiros, compreendidos por ela como patrimônio fundamental para a formação de novas gerações e para o fortalecimento da vida cultural do país.

Reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Mário de Andrade, Telê desenvolveu estudos fundamentais, organizou edições críticas e contribuiu decisivamente para a compreensão de um dos mais importantes legados da cultura brasileira. Sua atuação ultrapassou os limites da universidade, reafirmando a importância da pesquisa acadêmica para a democratização do conhecimento e para a reflexão sobre o Brasil.

Em novembro de 2022, a professora esteve na Unicamp como convidada do Fórum Permanente “O território brasileiro no contexto da Semana de Arte Moderna de 1922: modernidades, permanências e desafios”, promovido pelo Laboratório de Epistemologia e História da Geografia e pelo Laboratório de Geografia Regional e de Geografia das Relações Internacionais . Na ocasião, apresentou a conferência “Mário de Andrade ‘desgeografica’ o Brasil”, em diálogo com pesquisadores das áreas de geografia, literatura e pensamento social brasileiro.



Ao apresentar a conferencista, o professor Antonio Carlos Vitte destacou sua relevância intelectual e sua contribuição para a compreensão do país por meio da literatura. Segundo ele, Telê Ancona Lopez era uma “referência nacional em Mário de Andrade e no movimento modernista” e uma intelectual capaz de demonstrar como “a literatura também pensa o território e a geografia brasileira”. Para Vitte, suas reflexões representavam um importante estímulo para pensar “possibilidades alternativas de um Brasil” e compreender “o inconsciente brasileiro, o simbólico e o imaginário geográfico da civilização brasileira”.

Durante sua exposição, Telê retomou uma das questões centrais do pensamento de Mário de Andrade: a ideia de um Brasil entendido como totalidade, para além das fragmentações regionais. Segundo a pesquisadora, Mário de Andrade “pensou o Brasil não regionalizado, mas sim como totalidade”. A partir dessa perspectiva, apresentou o conceito de “desgeografização”, entendido como um movimento que rompe com formas rígidas e cartesianas de organizar o território e a realidade brasileira.

Para a professora, essa “desgeografização” integrava um projeto intelectual que revolucionava o pensamento sobre produtividade e organização do espaço, abrindo caminho para uma compreensão mais ampla do país, em que “o mito, a criação e a sensibilidade têm hora e vez”. Sua leitura aproximava literatura, cultura e território, ressaltando a riqueza da diversidade natural, cultural e humana que compõe a experiência brasileira.


Texto adaptado de:

Jornal da USP

Fóruns Permanentes Unicamp

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