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Mapa holandês inédito descoberto pode revelar os mais antigos Quilombos dos Palmares em Pernambuco e Alagoas

A identificação de um mapa inédito da ocupação holandesa no Nordeste pode levar pesquisadores a localizar os mais antigos Quilombos dos Palmares, distribuídos entre o Agreste de Pernambuco e o estado de Alagoas. As primeiras escavações arqueológicas para confirmar a hipótese estão previstas para começar em janeiro de 2026.

A investigação teve início após a descoberta, em 2021, de uma versão manuscrita do mapa Brasilia Qua Parte Paret Belgis (“A parte do Brasil que pertence aos Neerlandeses”), produzido por George Marcgraf e publicado em 1647 pela editora de Johan Blaeu. O exemplar, encontrado pelo cartógrafo histórico Levy Pereira no acervo da Universidade Harvard, passou por uma análise detalhada que permitiu reconstruir, com maior precisão, o trajeto percorrido pelas expedições holandesas.

O trabalho cruzou informações do mapa com relatos do comandante Johan Blaer, que liderou uma ofensiva contra os quilombos em 1645. A comparação, associada a imagens de satélite de alta resolução, com precisão de até 30 centímetros, revelou características topográficas compatíveis com três quilombos mencionados por Blaer.

Segundo o relato holandês, o primeiro quilombo estava abandonado devido às condições insalubres, que resultaram na morte de muitos moradores. O segundo, parcialmente destruído na expedição de 1644, também havia sido deixado para trás. Apenas o terceiro permanecia ativo.

Com a nova metodologia, os pesquisadores estimam que os dois primeiros quilombos se localizavam nos atuais municípios de Correntes e Lagoa do Ouro, no Agreste pernambucano. Já o terceiro estaria na região de Chã Preta e União dos Palmares, em Alagoas.

A ocupação holandesa de grande parte do Nordeste aconteceu entre os anos de 1630 a 1654. No período, continuaram a produção de açúcar nos engenhos confiscados aos proprietários portugueses sob o mesmo regime de mão de obra de escravizados.

Área de pesquisa em Lagoa do Ouro (PE) (crédito: Divulgação)

Embora haja indícios de que comunidades quilombolas se estabeleceram nas atuais regiões do Agreste pernambucano e alagoano desde o século 16, os ataques aos engenhos, as fugas de seus proprietários e o ambiente próprio de uma zona de guerra de conquista, favoreceram o aumento da população quilombola, já que as pessoas escravizadas se aproveitavam do clima das batalhas e guerrilhas para fugir do local onde eram mantidos.

“Quando os holandeses se estabilizaram, começaram a perceber que esses quilombos representavam ameaça, porque muitos aquilombados atacavam engenhos, sobretudo os mais distantes do litoral, e levavam outros escravizados para viver com eles”, afirmou o arqueólogo Onésimo Santos, um dos coordenadores do projeto.

A equipe, além dos trabalhos de mapeamento já feitos com o uso de satélite para identificar as áreas que serviram como morada, pretende fazer varreduras na superfície e escavar o terreno em busca de estudar os sedimentos e materiais que podem aparecer. Serão usados equipamentos avançados como drones, detectores de metal e GPS de precisão.

“Nós sabemos pelos relatos como eram essas cercas que fortificavam os quilombos. Nós sabemos como eram as casas, que eram de madeira, nós sabemos que eles produziam uma cerâmica diferente da indígena, e nós sabemos, sobretudo, que diferentemente dos indígenas, eles dominavam a fundição do ferro. Esses africanos que foram trazidos para cá, eles já trouxeram na sua cultura a utilização do ferro, não somente com o trabalho do ferreiro de simplesmente martelar um pedaço de ferro que já foi feito, e sim fundir o ferro a partir do mineral”, explica o arqueólogo.

Onésimo coordena a pesquisa com o também arqueólogo Flávio Moraes, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL- Campus Sertão). A equipe inclui o cartógrafo histórico Levy Pereira, do geógrafo e arqueólogo Daniel Ferreira, dos historiadores Bruno Miranda, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Danilo Marques e Zezito Araújo, e do antropólogo Vágner Bijagó, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas – (NEABI), da UFAL-Campus Sertão. Leandro Pereira é responsável pelo registro audiovisual.

O projeto será financiado pela Fundação Cultural Palmares (FCP), através de Termo de Execução Descentralizado para a UFAL, e já tem a autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para as pesquisas no terreno.

Fonte:
Texto e imagens – Diario de Pernambuco
e TV Jornal Interior /SBT.

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