No mesmo mês em que a revista Pesquisa Fapesp destacou o debate sobre a classificação das montanhas no Brasil, pesquisadores do Laboratório de Epistemologia e História da Geografia (LEHG) publicaram um capítulo dedicado a refletir sobre o papel desses sistemas na construção do conhecimento geomorfológico. Inseridas em contextos distintos, as duas produções convergem ao evidenciar a centralidade das montanhas nas discussões científicas contemporâneas.
No início de abril deste ano, a Editora da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte lançou a Coleção Geomorfologia do Brasil, como resultado da sistematização dos trabalhos apresentados no XV Simpósio Nacional de Geomorfologia (SINAGEO). A coleção conta com 14 volumes que representam um grande avanço nas discussões sobre o relevo no Brasil. Em um desses volumes, há a contribuição de pesquisadores do Laboratório de Epistemologia e História da Geografia (LEHG), dentro do eixo de ensino de geomorfologia. O capítulo “Um resgate histórico do sistema montanhoso como laboratório geomorfológico: uma contribuição ao ensino da geomorfologia”, elaborado pelo coordenador do laboratório, Prof. Dr. Antônio Carlos Vitte, e pelos pesquisadores Paulo Rufino e Andreia Mendonça Zambanini, tem como centralidade a reflexão sobre o papel das montanhas na construção histórica da geomorfologia.

Nesse mesmo mês, a revista Pesquisa Fapesp, em sua edição nº 362, trouxe como título principal: “O Brasil nas Alturas: picos pontiagudos e com mais de 300 metros são agora classificados oficialmente como montanhas”. A matéria intitulada “Perto das Nuvens”, escrita por Carlos Fioravanti, apresenta comentários de pesquisadores como Rosângela Botelho (IBGE), Celso Dal Ré Carneiro (UNICAMP) e Rafaela Campostrini (JBRJ) sobre a proposta de mudança na classificação geomorfológica no Brasil. De acordo com a matéria, tais mudanças são resultados diretos de questionamentos feitos durante o XVII Simpósio de Geografia Física Aplicada, ocorrido em Fortaleza (CE). A partir das discussões realizadas durante o evento, pesquisadores de diversas universidades do Brasil, junto ao IBGE e ao Serviço Geológico do Brasil, uniram esforços para propor uma nova classificação, que inclui a existência de montanhas no país, de acordo com critérios estabelecidos.

Tanto o capítulo mencionado quanto a matéria da revista, em síntese, reconhecem as montanhas como elemento indispensável para a análise da natureza e da sociedade no Brasil e no mundo. O texto desenvolvido pelos integrantes do LEHG apresenta uma perspectiva histórica sobre o entendimento dos sistemas montanhosos. Por muito tempo, as montanhas ocuparam apenas uma posição de admiração e contemplação. Para os eremitas dos séculos VI e VII, simbolizavam o lugar do sagrado; já para artistas como Goethe e Vincent Van Gogh, em sua grandiosidade, apontavam para a pequenez da própria existência humana. Apenas após o século XVII, as montanhas passam a ser abordadas sob uma perspectiva técnica e científica, inicialmente como objeto da cartografia para representar fronteiras políticas e, posteriormente, tornando-se centrais nas análises ambientais sob o olhar dos naturalistas do século XVIII.
Já a matéria publicada pela revista Fapesp apresenta perspectivas técnicas sobre o entendimento das montanhas no Brasil, abordando desde a origem dessas formações até os critérios que delimitam sua análise. Segundo o relato de Celso Dal Ré Carneiro, no Brasil de mais de 400 milhões de anos atrás havia montanhas tão altas quanto os Andes e o próprio Himalaia; entretanto, por serem formações muito mais antigas, sofreram intensos processos de erosão e movimentos de grandes blocos da crosta terrestre, resultando em relevos com altitudes inferiores a 3.000 metros. O pesquisador acrescenta que, no Brasil, as hipóteses mais aceitas sobre a origem das montanhas dizem respeito a resquícios de cadeias montanhosas resultantes da convergência de “placas antigas” ou ao soerguimento da litosfera provocado por forças que atuam no manto terrestre.
Dessa maneira, os pesquisadores envolvidos no projeto não se basearam apenas na altura como critério principal de classificação, mas também na forma. Carlos Fioravanti aponta como exemplo mais claro o Monte Roraima, que, mesmo tendo 2.810 metros de altitude, não pôde ser classificado como montanha devido ao seu topo achatado. A matéria ainda destaca que morros isolados, como o Pão de Açúcar e o Pico do Cabugi, também não foram classificados como montanhas. Diante da nova classificação, foram registrados 14 estados no Brasil com ocorrência de montanhas. A matéria destaca ainda que, no final de maio, em comemoração aos 90 anos de fundação do IBGE, o instituto provavelmente lançará um mapa geomorfológico do Brasil atualizado, com base na nova classificação que inclui a presença de montanhas.
Para Botelho (2026), a inclusão das montanhas na classificação geomorfológica do Brasil vai além do método em si, pois implica transformações substanciais na economia, na sociedade e na preservação da natureza. Reconhecer essas formações tem impacto direto no fomento ao turismo nacional, e questões ligadas ao controle de riscos tornam-se mais efetivas, devido à maior propensão a movimentos gravitacionais de massa em áreas montanhosas. Além disso, na matéria em questão, Botelho e Martinelli (2026) afirmam que esses sistemas montanhosos são essenciais para a preservação de espécies e para o regime hídrico das regiões onde ocorrem.
Nesse sentido, tanto a matéria publicada pela revista Fapesp quanto o capítulo de livro publicado pela EDUERN concordam em afirmar que as montanhas desempenham um papel fundamental na preservação de espécies. Como principal definição de montanha, os autores do capítulo discutido apresentam as ideias de Thorne e Goudie (2016), que definem montanha como “uma elevação substancial da crosta terrestre em relação ao nível do mar, capaz de promover alterações no clima local ou regional, na drenagem, nos solos, nas plantas e nos animais”. Tal definição contribui para compreender a importância das montanhas na diversidade de espécies de plantas e animais, além da preservação de espécies já extintas.
Vitte, Rufino e Zambanini (2026) destacam a importância dos estudos desenvolvidos no século XVIII por Alexander von Humboldt. Segundo os autores, Humboldt, ao tomar o Monte Chimborazo como objeto de observação, descreveu um gradiente de elevação acentuado, no qual a diversidade de zonas de vida, ao longo de cerca de 5 km de altitude, corresponderia, em outro contexto, a distâncias de milhares de quilômetros. Essa diversidade ainda pode ser observada atualmente, inclusive no Brasil. Em relato à revista Fapesp, Gustavo Martinelli afirma ter encontrado, em explorações pelas montanhas do Rio de Janeiro, touceiras de bambu cuja espécie é considerada a mais rara do mundo: “Glaziophyton mirabile”. O pesquisador afirma que, há mais de 50 anos, vem descobrindo novas espécies desde que começou a explorar as montanhas do Rio de Janeiro.