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Morre o sociólogo e escritor Sergio Miceli aos 80 anos em São Paulo

Informamos com pesar o falecimento de Sergio Miceli Pessoa de Barros, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, docente aposentado do Departamento de Sociologia da FFLCH e diretor da Edusp, na última sexta-feira, 12 de dezembro. O velório foi realizado no sábado, 13 de dezembro, das 13h30 às 16h30, no Cemitério Parque Morumby, Rua Deputado Laércio Corte, 468.

Sérgio é autor de livros fundamentais como A noite da madrinha (1972), Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1979), A elite eclesiástica brasileira (1988), Imagens negociadas (1996), Historia social de los intelectuales en América Latina (2008) e Cultura e sociedade: Brasil e Argentina (2014), organizado em parceria com sua companheira e esposa, a antropóloga e professora Heloisa Pontes.

A professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, socióloga e docente do Departamento de Sociologia da FFLCH e vice-reitoria da USP, escreveu homenagem ao professor:

Nesta triste data em que as ciências sociais brasileiras perdem o sociólogo Sergio Miceli Pessoa de Barros, eu perco um amigo de toda vida e parceiro de jornada. Como primeiro gesto, ofereço minhas condolências à antropóloga e professora Heloísa Pontes, com quem Sergio foi casado por décadas, aos seus filhos e demais familiares, aos amigos e interlocutores no Brasil e no exterior, assim como aos professores, pesquisadores, orientandos, alunos e funcionários da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP) que privaram da sua convivência ao longo dos anos.

Realizar um necrológio a seu respeito seria, além de exercício pessoalmente impossível neste momento crucial, um recurso que certamente levaria Sergio a inquirir os sentidos de tal gesto. Por essas razões, opto por recuperar um excerto do texto que preparei em sua homenagem, quando o mesmo foi agraciado com o Título de Professor Emérito da USP, em 2022, o qual me parece oferecer uma síntese momentânea a seu respeito, e que reproduzo a seguir:

Entre os cientistas sociais brasileiros, é consenso atribuir à obra de Sérgio Miceli Pessoa de Barros a qualidade de periodizar o campo da sociologia da cultura no Brasil. A sua vasta produção sociológica combina apuro analítico, domínio da teoria social, construção de problemas de pesquisa incomuns ao cânone assentado, visadas interpretativas inusitadas. O caráter vivaz da sua reflexão revela-se na abertura de novos temas, distingue-se por inspirar as gerações de cientistas sociais, por exercer o papel de formador, por ser liderança acadêmica e institucional, por assinalar o rumo dos debates.

Sérgio Miceli se consagrou como um escolástico que nos legou um método original para o estudo das condições sociais de emergência do trabalho artístico e intelectual entre nós; como introdutor e, possivelmente, principal veiculador do pensamento de Pierre Bourdieu na nossa sociologia, e, por fim, como um organizador de grupos de pesquisa e um orientador de teses prolífico, cujos trabalhos supervisionados formaram, no decorrer dos anos, um amplo panorama sobre a constituição do campo intelectual no Brasil. Ao mesmo tempo, tudo isso se expressa sob a forma de um pesquisador ostensivamente crítico e em permanente tensão com os traços sociais do seu próprio meio.

Entre 2022 e 2025, Sergio Miceli também presidiu, pela segunda vez, a Editora da Universidade de São Paulo. Sua atuação neste período tornou a Edusp uma das maiores editoras universitárias da América Latina, com recordes de lançamentos, expansão de lojas e acúmulo de premiações. Realizou este trabalho sem descurar-se do compromisso com a liderança do seu campo intelectual. Entre outros seminários, simpósios e debates dos quais participamos juntos nos últimos quatro anos – no Brasil e na Argentina – tive a oportunidade de com ele organizar o 6º Congresso de História Intelectual da América Latina (CHIAL, 2023), quando reunimos pesquisadores de todo o continente, e estudiosos deste objeto nas instituições do hemisfério norte, para realizar um amplo balanço sobre este campo de estudos.

Reitero meus sentimentos a todas as pessoas que, de alguma maneira, foram tocadas pela pessoa e pela obra de Sergio Miceli. Estou certa que o seu legado servirá de guia à trajetória intelectual das próximas gerações de intelectuais e cientistas sociais.

São Paulo, 12 de dezembro de 2025.

Maria Arminda do Nascimento Arruda
Socióloga e professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/ USP)
Vice-reitora da Universidade de São Paulo


O Departamento de Sociologia e o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FFLCH divulgaram a nota de pesar no site de departamento e reproduzida abaixo:

O Departamento e o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP comunicam, com pesar, o falecimento de Sergio Miceli, ocorrido em 12 de dezembro de 2025.

Sergio Miceli Pessoa de Barros (1945-2025) reforçava sua ascendência calabresa assinando com o sobrenome italiano. Nascido e criado no Rio de Janeiro, veio para São Paulo querendo se pós-graduar na linha de Florestan Fernandes, mas logo imprimiu sua marca muito própria e única, mestrando-se com o trabalho inaugural acerca da “Noite da madrinha”, que desde então alimenta gerações de sociólogas e sociólogos interessados nos fenômenos e nas dinâmicas culturais.
Sociólogo inquieto e incansável, apaixonado e brilhante, publicou muitos livros, ensinou e orientou por muitos anos, de sorte que sua presença fica viva em todos os que o leram e ouviram, e continuarão lendo e vendo e ouvindo (há vários vídeos no Youtube, assim como vários livros nas prateleiras).

Sua inquietude o levou a procurar Pierre Bourdieu quando este ainda era bem desconhecido por aqui, e logo o traduziu e editou. Embora seja o seu mestre, Sergio pensava por si mesmo, não por impertinência ou arrogância, mas em virtude de uma visceral inquietude intelectual.

Resultado de sua estadia com Bourdieu foi seu doutoramento sobre a elite intelectual, decerto o seu livro mais lido e referido. Entretanto, Sergio escreveu sobre muitos temas, coordenou muitos projetos de pesquisa, muitos grupos de pesquisadoras/es, e sua vivacidade contaminou — e, creio, continuará contaminando — muitas pessoas.

Sua liderança institucional fez-se sentir na FGV, no Idesp, na Unicamp, na USP, na Anpocs, na EDUSP, na editora Perspectiva, na revista Tempo Social, e em várias outras instituições. Seu impacto se fez sentir também fora do Brasil, em suas temporadas na Argentina, na França e nos EUA.

Mas, se exerceu cargos, não foi jamais como um burocrata ou mero organizador e gestor, mas como atiçador, verdadeiro agente provocador.

Fã de ópera, leitor voraz, gostava de uma série televisiva e de um bom filme, e não deixava de lado o teatro. O que via e ouvia era assunto para conversa e matéria para reflexão.

Em qualquer situação, quem estava ao seu lado saía mais inteligente do que quando chegou. Assim foi e assim continuará sendo.

Texto por Leopoldo Waizbort


A Historiadora e Antropóloga, Profa. Lilia Schwarcz, também lamentou em sua rede social e fez um lindo texto em homenagem, parcialmente reproduzido abaixo:

Introdutor de Bourdieu no Brasil, ele revolucionou a sociologia de nosso país, em especial a sociologia da cultura e do pensamento social brasileiro. Sergio era professor titular da USP e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Era um mestre contagiante, um leitor crítico, um arguidor severo e leal.
Sérgio sempre inovou o campo. Estudou Hebe Camargo e a televisão brasileira quando esse era um tema impossível na academia — pois parecia não ter importância diante de uma agenda voltada para assuntos ligados à estrutura política, social e econômica do país. Sérgio escreveu biografias coletivas e assim estudou pensadores da igreja, intelectuais e artistas, sempre de olho nas amarras sociais.
Também fez análises comparativas, com países latinoamericanos, animando novas pesquisas.
Trabalhei com Sergio no Idesp em um imenso projeto que ele liderou sobre a “História das Ciências Sociais no Brasil”, que fez total diferença na minha formação. Meu livro “O espetáculo das raças” deve muito a essa iniciativa e “Lima Barreto: triste visionário” nasceu de um projeto conjunto capitaneado por Miceli. Na Companhia ele idealizou uma coleção de história social da arte
Nos anos 1990, Sergio se tornou editor da Edusp, com a mesma energia e inovação que ele sempre mostrou. E ele estava de volta desde 2020.
Força Helô, Tereza, Joaquim, João, familiares, amigos, orientandos que hoje sentem a falta dessa pessoa única que foi Sergio Miceli.
Um intelectual arrojadas, e cheio de vida. Não é justo ele partir assim cedo, aos 80 anos, cheio de projetos e ideias para realizar.

Fonte:
Imagem – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
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Texto – Site da FFLCH; Site do Departamento de Sociologia; Jornal da USP e Instagram da Profa. Lilia Schwarcz.

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