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Percival Farquhar e a Guerra do Contestado: como a ferrovia transformou o sertão em campo de guerra

Nascido na Pensilvânia, nos Estados Unidos, em 1864, Percival Farquhar formou-se em engenharia pela Universidade de Yale e chegou ao Brasil em 1904. Com capital, influência política e uma visão empresarial agressiva, construiu em menos de uma década um império que reunia ferrovias, portos, companhias de energia elétrica, exploração madeireira e centenas de milhares de hectares de terras. Considerado por muitos um símbolo da modernização econômica brasileira no início do século XX, Farquhar também deixou sua marca em um dos episódios mais sangrentos da história nacional: a Guerra do Contestado, conflito que opôs caboclos e forças governamentais entre 1912 e 1916 no Sul do país.


Percival Farquhar não costuma aparecer nos livros didáticos brasileiros. Seu nome raramente é lembrado quando se fala da modernização econômica do país no início do século XX. No entanto, poucas figuras exerceram tanta influência sobre a infraestrutura nacional quanto esse empresário norte-americano nascido na Pensilvânia em 1864.

Ao chegar ao Brasil em 1904, Farquhar rapidamente construiu um verdadeiro império. Controlava ferrovias, portos, companhias de energia elétrica, empresas de navegação, mineradoras e grandes extensões de terra. Seu projeto era simples: integrar transporte, exploração de recursos naturais e ocupação territorial sob o controle de suas empresas.

A principal peça desse sistema foi a Brazil Railway Company, responsável pelo controle da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande. Mais do que uma ferrovia, tratava-se de um projeto de reorganização territorial. Os contratos assinados com o governo garantiam à companhia o direito de explorar e colonizar extensas áreas ao longo da linha férrea. Segundo o geógrafo Nilson Cesar Fraga, durante o período republicano as concessões alcançavam até 15 quilômetros de cada lado dos trilhos, transformando profundamente a estrutura fundiária da região do Contestado.
A terra, porém, não estava vazia.

Muito antes da chegada dos investidores estrangeiros, o planalto entre Paraná e Santa Catarina era habitado por caboclos, posseiros e comunidades que mantinham formas próprias de ocupação do território. A modernização promovida pela República significou, para essas populações, a perda do espaço que ocupavam havia gerações.

Nilson Cesar Fraga observa que a chegada dos capitais estrangeiros e da ferrovia representou a ruptura de um modo de vida tradicional, substituído por um sistema de controle territorial associado aos interesses econômicos da nova ordem republicana. Quando a construção da estrada avançou, milhares de trabalhadores foram recrutados para abrir caminho em meio às matas do Sul do Brasil. Quando a obra terminou, muitos deles ficaram sem trabalho e sem perspectivas. Ao mesmo tempo, famílias inteiras passaram a ser removidas das áreas consideradas propriedade das empresas ligadas à Brazil Railway.

Segundo Fraga, a companhia tratou de retirar dos seus domínios aqueles que não possuíam títulos formais de propriedade. Para garantir o controle da região, mantinha um corpo de segurança armado encarregado de executar despejos e proteger os interesses empresariais.

Em 1911, o conglomerado de Farquhar ampliou ainda mais sua atuação com a criação da Southern Brazil Lumber and Colonization Company. A subsidiária assumiu a exploração econômica das terras recebidas ao longo da ferrovia e protagonizou profundas transformações na região contestada.

A floresta de araucária passou a ser derrubada em escala industrial. Enquanto a madeira abastecia mercados nacionais e internacionais, as comunidades locais viam desaparecer não apenas a floresta, mas também suas condições de sobrevivência. Foi nesse cenário que surgiu a Guerra do Contestado.


Durante décadas, a história oficial procurou reduzir o conflito a um movimento religioso ou messiânico liderado pelos monges João Maria e José Maria. Mas essa explicação, sozinha, é insuficiente.

Por trás da guerra existia uma disputa concreta pela terra. Havia trabalhadores dispensados após a construção da ferrovia. Havia famílias expulsas das áreas concedidas às companhias privadas. Havia uma população cabocla que assistia à privatização acelerada de um território que durante muito tempo havia sido ocupado de forma comunitária.

Entre 1912 e 1916, a reação a esse processo transformou-se em um dos conflitos mais violentos da história brasileira. Milhares de sertanejos organizaram redutos de resistência e enfrentaram sucessivas campanhas militares promovidas pelo governo federal. O saldo foi devastador: milhares de mortos, comunidades destruídas e uma cicatriz social que permanece visível até hoje.

Percival Farquhar jamais empunhou um fuzil nos campos do Contestado. Mas o modelo econômico que ajudou a implantar na região foi parte fundamental das transformações que levaram ao conflito. Seu nome está ligado à ferrovia, às concessões de terra, à exploração madeireira e ao deslocamento de populações inteiras em nome do progresso.


Texto de:

O homem por trás da guerra do contestado – página do intagram: antecedentecriminal

FRAGA, Nilson Cesar. Mudanças e permanências na rede viária do Contestado: uma abordagem acerca da formação territorial da região contestada entre Paraná e Santa Catarina. Tese de Doutorado, UFPR. Curitiba, PR. 2006.

Imagens de:

efmm 100 anos

Guerra do Contestado – Wikipédia

Conjur

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