{"id":1353,"date":"2023-10-06T10:00:13","date_gmt":"2023-10-06T13:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=1353"},"modified":"2023-10-06T10:00:13","modified_gmt":"2023-10-06T13:00:13","slug":"o-que-significa-elaborar-o-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/o-que-significa-elaborar-o-passado\/","title":{"rendered":"O que significa elaborar o passado?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\">Por <strong>MICHEL AIRES DE SOUZA DIAS*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A Alemanha n\u00e3o foi capaz de elaborar o seu passado. O que se viu foi uma tentativa de encerrar o passado, apagando-o da mem\u00f3ria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A Alemanha n\u00e3o foi capaz de elaborar seu passado, refletindo sobre as causas que levaram seis milh\u00f5es de judeus ao holocausto (Shoa). Quando analisamos aqueles anos do p\u00f3s-guerra (1945), o que se viu foi uma tentativa de encerrar o passado, apagando-o da mem\u00f3ria. O que os alem\u00e3es buscavam era esquecer a barb\u00e1rie. O lema em toda a Alemanha era: \u201cO passado deve descansar em paz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Assim pensava toda a administra\u00e7\u00e3o do primeiro chanceler Konrad Adenauer (1949-1963). Aquela \u00e9poca foi marcada pela desnazifica\u00e7\u00e3o, onde se tornou tabu falar sobre o passado. O que o Estado e os \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d queriam era apagar os fantasmas de sua mem\u00f3ria, ou seja, todos aqueles mortos em c\u00e2meras de g\u00e1s, que os assombravam todos os dias. Esse esquecimento tinha uma raz\u00e3o de ser. Por tr\u00e1s havia uma m\u00e1-consci\u00eancia, um sentimento de culpa que deveria desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como bem apontou o fil\u00f3sofo Theodor Adorno (1995, p. 29): \u201cO gesto de tudo esquecer e perdoar, privativo de quem sofreu a injusti\u00e7a acaba advindo dos partid\u00e1rios daqueles que praticaram a injusti\u00e7a\u201d. Devemos lembrar que, com a cria\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federal da Alemanha (RFA), em 1949, muitos funcion\u00e1rios do regime nazista foram incorporados \u00e0 nova Rep\u00fablica. Como relatou a fil\u00f3sofa Hannah Arendt (1999), em seus escritos sobre o julgamento de Eichmann, Konrad Adenauer foi for\u00e7ado a fazer uma limpeza no judici\u00e1rio, expulsando mais de 140 ju\u00edzes e promotores, al\u00e9m de v\u00e1rios oficiais da pol\u00edcia que tiveram participa\u00e7\u00e3o direta na barb\u00e1rie nazista. O caso mais emblem\u00e1tico foi o do promotor chefe da Suprema Corte Federal, Wolfgang Immerwahr Fr\u00e4nkel, que tentou esconder seu passado trocando seu sobrenome. Estima-se que dos 11.500 ju\u00edzes da Alemanha naquela \u00e9poca, 500 estavam ativos no regime de Hitler.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Outro estudo surgiu em 2012 e durou quatro anos, denominado Dossi\u00ea Rosenburg. Esse estudo juntou uma comiss\u00e3o de historiadores independentes para investigar os arquivos do Minist\u00e9rio Alem\u00e3o de Justi\u00e7a. A equipe teve acesso a todos os arquivos confidenciais de funcion\u00e1rios da institui\u00e7\u00e3o entre 1949 e 1973. A pesquisa constatou a participa\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca do pessoal que trabalhou na justi\u00e7a nazista, no novo \u00f3rg\u00e3o de justi\u00e7a da RFA, criado em 1949.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os historiadores descobriram que, dos 170 juristas em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a no minist\u00e9rio, ap\u00f3s a guerra, 90 haviam sido formalmente associados ao partido Nazista, 34 deles foram integrantes das tropas de assalto paramilitar da SA (Sturmabteilung). Esses antigos juristas usaram de todos os meios para impedir a persegui\u00e7\u00e3o dos assassinos. O que \u00e9 mais ir\u00f4nico em toda essa hist\u00f3ria, foi a descoberta de que a justi\u00e7a concedeu anistia coletiva aos criminosos. Existia at\u00e9 mesmo um departamento denominado Central de Prote\u00e7\u00e3o Legal que avisava nazistas no exterior sobre as amea\u00e7as de persegui\u00e7\u00e3o criminal (FUCHS, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A Ag\u00eancia Central de Investiga\u00e7\u00e3o de CrimesNazistas somente surgiu em 1958, ou seja, 13 anos depois do fim do regime totalit\u00e1rio. Essa cria\u00e7\u00e3o tardia j\u00e1 demonstrava o total desinteresse das autoridades em esclarecer os fatos. O promotor Erwin Sch\u00fcle, que dirigia a ag\u00eancia naquela \u00e9poca, teve uma enorme dificuldade em come\u00e7ar as investiga\u00e7\u00f5es, primeiro porque as testemunhas alem\u00e3s n\u00e3o estavam dispostas a cooperar; segundo, porque havia pouca disposi\u00e7\u00e3o das cortes locais em abrir processos com base no material enviado pela Ag\u00eancia Central (ARENDT, 1999).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Segundo Hannah Arendt (1999), foi somente com a not\u00edcia da sensacional captura de Eichmann, na Argentina, pela Mossad (Servi\u00e7o Secreto Israelense), e seu iminente julgamento, que houve um impacto suficiente para superar a relut\u00e2ncia das cortes locais e levar em considera\u00e7\u00e3o as descobertas do promotor Sch\u00fcle. O resultado foi imediato. Alguns meses antes do julgamento de Eichmann, Richard Baer, o sucessor de Rudolf H\u00f6ss no comando de Auschwitz, foi preso. Foram presos tamb\u00e9m v\u00e1rios membros ligados a Eichmann. Foi relativamente f\u00e1cil captur\u00e1-los, pois, al\u00e9m de haver provas contundentes publicados em revistas e jornais sobre os criminosos na \u00e9poca, nenhum deles achou necess\u00e1rio adotar um nome falso, tal era a liberdade que desfrutavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Outro fato importante foi o de que somente os criminosos do alto escal\u00e3o poderiam ser julgados. Todos os outros crimes prescreviam conforme a lei vigente, que era de vinte anos para assassinato. Por esta raz\u00e3o, a maioria dos assassinos, como os membros das tropas m\u00f3veis dos Einsatzgruppen, n\u00e3o foi julgada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como observa Wojak (2015, p. 306): \u201c[\u2026] nos julgamentos contra as tropas de assalto (Einsatzgruppen) e os assassinos dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, tendiam a aplicar o princ\u00edpio de \u2018ajudantes\u2019, que transformava os assassinos em massa em meros executores de ordens superiores, como se fossem marionetes facilmente manipul\u00e1veis \u200b\u200bde um regime criminoso, como se n\u00e3o houvesse nazistas, e pior, com uma completa falta de empatia pelas v\u00edtimas e sobreviventes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Al\u00e9m dos assassinos da linha de frente n\u00e3o serem julgados, os que foram julgados tiveram penas muito brandas; n\u00e3o havia um sentimento nacional de justi\u00e7a ou revolta. Como relata a pr\u00f3pria Hannah Arendt (1999, p. 27): \u201cA atitude do povo alem\u00e3o quanto ao seu pr\u00f3prio passado, sobre a qual os especialistas na quest\u00e3o alem\u00e3 haviam se debru\u00e7ado durante quinze anos, n\u00e3o poderia ter sido demonstrada com mais clareza: as pessoas n\u00e3o se importavam com o rumo dos acontecimentos e n\u00e3o se incomodavam com a presen\u00e7a de assassinos \u00e0 solta no pa\u00eds, uma vez que nenhuma delas iria cometer assassinato por sua pr\u00f3pria vontade, no entanto, se a opini\u00e3o p\u00fablica mundial \u2013 ou melhor, aquilo que os alem\u00e3es chamavam de Ausland, reunindo todos os pa\u00edses estrangeiros num \u00fanico substantivo \u2013 teimava e exigia que aqueles indiv\u00edduos fossem punidos, estavam inteiramente dispostas a agir, pelo menos at\u00e9 certo ponto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em 1963 aconteceu o julgamento de Auschwitz, que levou ao tribunal vinte dois homens. Esse julgamento s\u00f3 ocorreu por obra do acaso. O fato \u00e9 que nunca houve esfor\u00e7os das autoridades para investigar e condenar os criminosos. Foi por acaso que um jornalista, Thomas Gnielka, em um trabalho rotineiro de pesquisa, em 1959, conheceu um antigo prisioneiro de Auschwitz, chamado Emil Wulkan, que lhe entregou um pequeno pacote de documentos cuidadosamente amarrado com uma fita vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Este pacote havia sido resgatado em Breslau (antiga Wroclaw), nos \u00faltimos meses de guerra, nos escombros de um antigo pr\u00e9dio da pol\u00edcia da SS (Schutzstaffel), que tinha pegado fogo. Nos documentos havia os registros das execu\u00e7\u00f5es em Auschwitz. Havia tanto os nomes dos mortos, como o nome de seus assassinos, assim como o motivo das execu\u00e7\u00f5es. Havia ali tamb\u00e9m a assinatura do comandante do campo: Hudolf H\u00f6ss e a assinatura de seu ajudante, Robert Mulka, que se tornou um dos principais r\u00e9us do julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os documentos foram entregues ao jornalista que, por sua vez, contatou o ent\u00e3o procurador-geral de Hessen, Fritz Bauer, que viu ali provas contundentes para condenar os assassinos (<strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www-auschwitz--prozess-de.translate.goog\/?_x_tr_sl=de&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=sc&amp;_x_tr_hist=true\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www-auschwitz--prozess-de.translate.goog\/?_x_tr_sl=de&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=sc&amp;_x_tr_hist=true\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Fritz Bauer Institut<\/a><\/mark><\/strong>). Esses fatos foram retratados no filme Im Labyrinth des Schweigens (Labirinto de mentiras) de Giulio Ricciarelli. O filme mostra bem como vinte anos depois do regime nazista, uma nova gera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos ignorava os crimes. Eles ignoravam que seus pais, professores e velhos conhecidos fizessem parte de algo monstruoso. Esses assassinos viviam pacificamente como cidad\u00e3os respeit\u00e1veis, em profiss\u00f5es como m\u00e9dicos, advogados, padeiros, empres\u00e1rios e em tantas outras ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Foi gra\u00e7as aos esfor\u00e7os do procurador-geral Fritz Bauer que o julgamento de Auschwitz foi poss\u00edvel. Fritz Bauer era proveniente de uma fam\u00edlia judia e foi expulso do poder judici\u00e1rio pelos nazistas em sua juventude, encarcerado em um campo de concentra\u00e7\u00e3o. Mas, por sorte do destino, no final de 1935, aos 32 anos, conseguiu escapar e fugir para Copenhague. Foi somente em 1949, com a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federal Alem\u00e3 (RFA), que ele retornou a Alemanha. Ao retornar, Fritz Bauer se dedicou de forma obstinada a investigar e levar a julgamento os criminosos de Auschwitz (WOJAK, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A sua hist\u00f3ria foi contada no premiado filme Der Staat Gegen Fritz Bauer (O Estado contra Fritz Bauer), de Lars Kraume, que buscou resgatar a vida de um her\u00f3i quase esquecido. O filme conta a hist\u00f3ria de um procurador-geral judeu e homossexual, funcion\u00e1rio do Estado, que desafiou as institui\u00e7\u00f5es para julgar criminosos de guerra. Ao regressar do seu ex\u00edlio, Fritz Bauer afirmou: \u201cRegressei porque creio poder trazer comigo algo de otimismo e a f\u00e9 dos jovens democratas da Rep\u00fablica de Weimar, contribuindo com o esp\u00edrito e a vontade de resist\u00eancia da emigra\u00e7\u00e3o para lutar contra a injusti\u00e7a do Estado. Quero ser um jurista que n\u00e3o apenas serve o direito e a justi\u00e7a, mas que defende at\u00e9 os dentes a humanidade e a paz\u201d (Bauer apud Wojac, 2015, p. 304-5).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A grande dificuldade de Fritz Bauer foi enfrentar os antigos nazistas incorporados na Nova Rep\u00fablica. Eles tinham uma rede de influ\u00eancias na pol\u00edtica, na justi\u00e7a, no servi\u00e7o secreto e na economia. Durante suas investiga\u00e7\u00f5es, Bauer recebeu v\u00e1rias amea\u00e7as de morte. Mas, n\u00e3o se intimidou e lutou contra as institui\u00e7\u00f5es para levar a julgamento os assassinos de Auschwitz. Segundo o relato de Wojac (2015), que o conheceu em vida, Fritz Bauer era um radical que procurou esclarecer os crimes nazistas, ao mesmo tempo em que dava advert\u00eancias desconfort\u00e1veis aos seus inimigos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ele era considerado um p\u00e1ria que mantinha permanentemente um espelho na frente de seus contempor\u00e2neos, um espelho no qual eles n\u00e3o queriam olhar. Era um homem obstinado que n\u00e3o deixaria o passado em paz, e que foi capaz de provocar a m\u00e1 consci\u00eancia daqueles que fizeram parte do regime nazista, confrontando-os com todos os detalhes dos crimes da chamada \u201cSolu\u00e7\u00e3o Final\u201d. O m\u00e9rito de Fritz Bauer foi tamb\u00e9m o de ser capaz de localizar na Argentina uma das maiores mentes da Solu\u00e7\u00e3o Final, Adolf Eichmann, respons\u00e1vel pela log\u00edstica de transportes que levou milh\u00f5es de judeus para os campos de concentra\u00e7\u00e3o. Incapaz de confiar nas institui\u00e7\u00f5es alem\u00e3s, Bauer confiou suas investiga\u00e7\u00f5es sobre o nazista ao Estado de Israel, que o capturou, levando-o a julgamento em 1962 (WOJACK, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O fil\u00f3sofo Theodor Adorno (2008), em uma de suas aulas na Universidade de Frankfurt, chegou a fazer uma homenagem a Fritz Bauer, na \u00e9poca de sua morte. Para ele, Bauer foi um homem extraordin\u00e1rio, com uma grande for\u00e7a moral, que se esfor\u00e7ou para que os alem\u00e3es prestassem contas de seu passado: \u201cSei de muitas poucas pessoas que se esfor\u00e7aram de maneira t\u00e3o apaixonada e en\u00e9rgica para que realmente o mal n\u00e3o se repita na Alemanha e que o fascismo seja combatido em todas as suas amea\u00e7adoras formas. Ele perseguiu isso de um modo extraordinariamente coerente e dotado de uma coragem moral sem paralelos\u201d (ADORNO, 2008, p. 275).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Para Adorno (2008), a morte prematura de Fritz Bauer, por infarto, foi devido ao desespero decorrente de que tudo aquilo em que ele depositava sua esperan\u00e7a, tudo aquilo que pretendia mudar e melhorar na Alemanha parecia lhe estar amea\u00e7ado. A anistia de criminosos pelo Estado, a recusa das institui\u00e7\u00f5es em criminalizar os assassinos, a ado\u00e7\u00e3o de leis que impediam as investiga\u00e7\u00f5es e as persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas podem ter contribu\u00eddo para o esgotamento psicol\u00f3gico do promotor: \u201cSou for\u00e7ado a dizer que existem desenvolvimentos na Alemanha, como a ado\u00e7\u00e3o de leis de emerg\u00eancia<mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><strong>[i] <\/strong><\/mark>e toda uma s\u00e9rie de outras coisas, que fazem que se torne conceb\u00edvel para mim que Bauer, vitimado por um problema card\u00edaco, sofreu tanto por causa dessas coisas que elas acabaram interrompendo sua vida\u201d (ADORNO, 2008, p. 276).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em seu artigo, O que significa elaborar o passado, Adorno procurou compreender os motivos da incapacidade dos alem\u00e3es para julgar os criminosos nazistas. Ele viu nessa recusa uma incapacidade neur\u00f3tica de enfrentar o passado: \u201cTodos conhecemos a disposi\u00e7\u00e3o atual em negar ou minimizar o ocorrido \u2014 por mais dif\u00edcil que seja compreender que existem pessoas que n\u00e3o se envergonham de usar um argumento como o de que teriam sido assassinados apenas cinco milh\u00f5es de judeus, e n\u00e3o seis\u201d (ADORNO, 1995, p. 31). Essas racionaliza\u00e7\u00f5es e eufemismos usados para minimizar os fatos passados, como, por exemplo, \u201cnoite dos cristais\u201d, eram, para Adorno, sintomas de algo que n\u00e3o foi trabalhado psiquicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O fato \u00e9 que os alem\u00e3es n\u00e3o conseguiram se olhar no espelho. Como bons realistas, eles preferiram se preocupar com o presente e com seus afazeres cotidianos. Para o fil\u00f3sofo, esse fen\u00f4meno decorria das pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es objetivas da sociedade capitalista. Na produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o, e interc\u00e2mbio material entre os homens, n\u00e3o existe o momento temporal. O tempo e a mem\u00f3ria s\u00e3o liquidados na sociedade capitalista. O homem realista e sadio se ocupa do presente e de suas metas pr\u00e1ticas (ADORNO, 1995). Com o milagre econ\u00f4mico no governo do chanceler Konrad Adenauer, as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o estavam preocupadas com o seu passado de barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Elas estavam mais interessadas em preservar a imagem da Alemanha no exterior. Como o pr\u00f3prio Theodor Adorno avaliou (1995, p. 33): \u201cO esquecimento do nazismo pode ser explicado muito mais a partir da situa\u00e7\u00e3o social geral do que a partir da psicopatologia. At\u00e9 mesmo os mecanismos psicol\u00f3gicos que operam na recusa de lembran\u00e7as desagrad\u00e1veis e inescrupulosas servem a objetivos extremamente realistas. Os pr\u00f3prios agentes da recusa acabam revelando os mesmos, quando, munidos de sentido pr\u00e1tico, afirmam que a lembran\u00e7a demasiadamente concreta e incisiva do passado poderia prejudicar a imagem da Alemanha no exterior\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os estudos de Theodor Adorno mostraram que uma das raz\u00f5es para que a popula\u00e7\u00e3o apoiasse o regime nazista era a falta de consci\u00eancia hist\u00f3rica. Na Dial\u00e9tica do Esclarecimento, Theodor Adorno e Max Horkheimer j\u00e1 haviam diagnosticado a fraqueza social do eu. O desaparecimento da consci\u00eancia hist\u00f3rica na Alemanha seria um sintoma dessa fraqueza. Em sua aliena\u00e7\u00e3o, o povo alem\u00e3o n\u00e3o percebeu que o crescimento econ\u00f4mico na \u00e9poca nazista decorria dos investimentos no poderio b\u00e9lico, que levaria a Alemanha a uma \u00e9poca de viol\u00eancia e cat\u00e1strofes (ADORNO, 1995).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Essa falta de mem\u00f3ria impediu o alem\u00e3o m\u00e9dio de enxergar de forma objetiva a realidade, tornando-se incapaz de perceber a barb\u00e1rie que estava por vir. A falta de compreens\u00e3o hist\u00f3rica deturpou \u201cobstinadamente a \u00e9poca nazista, em que se realizam as fantasias coletivas de poder daqueles que, como indiv\u00edduos, eram impotentes e s\u00f3 se imaginavam sendo alguma coisa enquanto constitu\u00edam um tal poder coletivo\u201d (ADORNO, 1995, p. 39).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como bem observa Zamora (2018), \u00e9 fato que perante alguns crimes, principalmente aqueles cometidos contra a humanidade, nada se mostra t\u00e3o natural como o desejo de esquecimento, de mudar o rumo das coisas. J\u00e1 que o passado n\u00e3o pode ser desfeito, nada mais inteligente do que n\u00e3o deixar rastro algum dos crimes praticados. N\u00e3o se trata apenas da elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mas da elimina\u00e7\u00e3o do povo judeu da cultura e da hist\u00f3ria da Europa. Nesse sentido, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre o exterm\u00ednio, o esquecimento e a aniquila\u00e7\u00e3o f\u00edsica. O esquecimento, portanto, \u00e9 uma segunda injusti\u00e7a cometida contra os judeus e que trouxe mais tristeza e dor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A recusa dos alem\u00e3es em enfrentar o passado tem tamb\u00e9m para Theodor Adorno um componente de narcisismo coletivo. Com a derrota da Alemanha, na Primeira Guerra Mundial, o orgulho nacional dos alem\u00e3es foi abalado. O Tratado de Versalhes imp\u00f4s grandes perdas territoriais, assim como grandes multas em dinheiro para indenizar os danos. Foi uma \u00e9poca de fome, mis\u00e9ria e instabilidade econ\u00f4mica. Com a subida de Hitler ao poder, os nazistas foram capazes de conseguir o florescimento econ\u00f4mico e de recuperar o orgulho nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Foi essa satisfa\u00e7\u00e3o narc\u00edsica que sobreviveu na consci\u00eancia do povo alem\u00e3o. Foi ela que colaborou para que houvesse certa resist\u00eancia em condenar os criminosos nazistas: \u201cNenhuma an\u00e1lise, por mais evidente que seja, pode eliminar a realidade dessa satisfa\u00e7\u00e3o, bem como a energia de impulsos instintivos que foi investido nela\u201d (ADORNO, 1995, p. 39). O fato \u00e9 que existia uma simpatia do povo alem\u00e3o pelo regime hitlerista: \u201co nazismo insuflou desmesuradamente o narcisismo coletivo, ou, para falar simplesmente: o orgulho nacional\u201d (ADORNO, 1995, p. 39).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Foi devido a esse orgulho nacional, a esse sentimento de nostalgia, que os alem\u00e3es n\u00e3o foram capazes de elaborar o passado, n\u00e3o foram capazes de trabalhar psiquicamente a barb\u00e1rie nazista. Em outras palavras, eles n\u00e3o foram capazes de se livrar de suas identifica\u00e7\u00f5es com Hitler e do seu orgulho nacional. Ao se atentar a teoria das identifica\u00e7\u00f5es coletivas freudiana, em Psicologia de massas e an\u00e1lise do eu, Theodor Adorno concluiu que \u201caquelas identifica\u00e7\u00f5es e o narcisismo coletivo n\u00e3o chegaram a ser destru\u00eddos, mas permanecem existindo\u201d (ADORNO, 1995, p. 40).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Com o fim do regime nazista, seria uma obriga\u00e7\u00e3o dos alem\u00e3es n\u00e3o somente julgar os criminosos, mas esclarecer e conscientizar as novas gera\u00e7\u00f5es sobre a barb\u00e1rie do holocausto (Shoa). Seria necess\u00e1rio elaborar o passado para que o nazismo nunca mais se repetisse. Para Theodor Adorno, elaborar o passado n\u00e3o significa criar datas comemorativas sobre o ocorrido, relembrando a barb\u00e1rie. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de relembrar os fatos atrav\u00e9s de dramatiza\u00e7\u00f5es, filmes ou cultos religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Muito menos se trata de rememorar as persegui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas ao povo judeu. Como afirma Jeanne-Marie Gagnebin (2006, p. 100-1): \u201cAdorno n\u00e3o afirma que devemos nos lembrar sempre de Auschwitz; ou seja, ele n\u00e3o defende incessantes comemora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o considero nuance irris\u00f3ria de vocabul\u00e1rio o fato de que Adorno, em outros artigos j\u00e1 citados, fale muito mais de uma luta contra o esquecimento que de atividades comemorativas, solenes, restauradoras, de \u201cresgate\u201d, como se fala tanto hoje. Se essa luta \u00e9 necess\u00e1ria, \u00e9 porque n\u00e3o s\u00f3 a tend\u00eancia a esquecer \u00e9 forte, mas tamb\u00e9m a vontade, o desejo de esquecer\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Para Theodor Adorno, a elabora\u00e7\u00e3o do passado significa, antes de tudo, o processo pedag\u00f3gico de esclarecimento, entendimento e de conscientiza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie que foi perpetrado de forma cruel e sem sentido. As causas da barb\u00e1rie nazista deveriam ser discutidas em todos os estabelecimentos de ensino alem\u00e3o. A elabora\u00e7\u00e3o do passado \u00e9 a tomada de consci\u00eancia e o esfor\u00e7o para entender por que os homens perderam sua humanidade. Trata-se de compreender de forma n\u00edtida o processo que levou pessoas comuns, muitas crist\u00e3s, a eliminar outros indiv\u00edduos de forma gratuita, sem sentido e por mero preconceito racial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quais as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais que fomentaram os regimes autorit\u00e1rios? Quais as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas que foram necess\u00e1rias para produzir a barb\u00e1rie? Quais os mecanismos psicol\u00f3gicos que levaram os indiv\u00edduos a cometerem atos de atrocidade? Quais os processos inconscientes por tr\u00e1s da viol\u00eancia? S\u00e3o essas perguntas que deveriam ser respondidas pelo sistema educacional alem\u00e3o, mas que n\u00e3o foram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ao comentar o ensaio \u201cO que siginifica elaborar o passado\u201d Jeanne-Marie Gagnebin (2006, p.101) nos explica o que Adorno entende por isso: \u201cMesmo quando Adorno fala nesse ensaio da \u2018destrui\u00e7\u00e3o da lembran\u00e7a\u2019 (Zerst\u00f5rung der Erinnerung) e da necess\u00e1ria resist\u00eancia a essa destrui\u00e7\u00e3o, devemos ressaltar novamente que, aqui, a palavra-chave n\u00e3o \u00e9 mem\u00f3ria ou lembran\u00e7a, mas Aufkl\u00e4rung, esclarecimento. Lembro que essa palavra tamb\u00e9m \u00e9 usada no sentido cotidiano, comum de explica\u00e7\u00e3o, explicita\u00e7\u00e3o, clarifica\u00e7\u00e3o ou atividade pedag\u00f3gica racional de colocar claramente um problema [\u2026]. Enfim, Aufkl\u00e4rung designa o que fala com clareza \u00e0 consci\u00eancia racional, o que ajuda a compreens\u00e3o clara e racional \u2013 contra a magia, a supersti\u00e7\u00e3o, a denega\u00e7\u00e3o, a repress\u00e3o, a viol\u00eancia. Em outras palavras: n\u00e3o h\u00e1, da parte de Adorno, nenhuma sacraliza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, mas uma insist\u00eancia no esclarecimento racional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Se o nazifascismo ainda est\u00e1 presente em nossa atualidade, isso ocorre porque a educa\u00e7\u00e3o falhou em seu objetivo primordial, ela n\u00e3o foi capaz de elaborar o passado, n\u00e3o foi capaz de cumprir sua miss\u00e3o, que \u00e9 o de esclarecer e conscientizar. Como o pr\u00f3prio Adorno (1995, p. 123) nos ensina: \u201cQuando falo de educa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s Auschwitz, refiro-me a duas quest\u00f5es: primeiro, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o infantil, sobretudo na primeira inf\u00e2ncia; e, al\u00e9m disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que n\u00e3o permita tal repeti\u00e7\u00e3o, portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao horror tornem-se de algum modo conscientes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>*<mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1431818040113948\" data-type=\"link\" data-id=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1431818040113948\" target=\"_blank\">Michel Aires de Souza Dias<\/a><\/mark><\/strong> <em>\u00e9 doutor em educa\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator aligncenter has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ADORNO, Theodor. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 sociologia. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>ADORNO, Theodor. Educa\u00e7\u00e3o e Emancipa\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.<\/p>\n\n\n\n<p>ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dial\u00e9tica do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/p>\n\n\n\n<p>ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusal\u00e9m: um relato sobre a banalidade do mal. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Rubens Siqueira. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>FRITZ BAUER INSTITUT: Geschichte und Wirkung des Holocaust. Tonbandmitschnitte des Auschwitz-Prozesses (1963\u20131965). Frankfurt, 1964. Dispon\u00edvel em <mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www-auschwitz--prozess-de.translate.goog\/?_x_tr_sl=de&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=sc&amp;_x_tr_hist=true\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www-auschwitz--prozess-de.translate.goog\/?_x_tr_sl=de&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=sc&amp;_x_tr_hist=true\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&lt; https:\/\/www-auschwitz\u2013prozess-de.translate.goog\/?_x_tr_sl=de&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=sc&gt;<\/a><\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>FUCHS, Richard. Dossi\u00ea exp\u00f5e presen\u00e7a de nazistas na justi\u00e7a alem\u00e3 p\u00f3s-1945. DW Brasil, 2016. Dispon\u00edvel <mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/dossi%C3%AA-exp%C3%B5e-presen%C3%A7a-de-nazistas-na-justi%C3%A7a-alem%C3%A3-do-p%C3%B3s-guerra\/a-36015630\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/dossi%C3%AA-exp%C3%B5e-presen%C3%A7a-de-nazistas-na-justi%C3%A7a-alem%C3%A3-do-p%C3%B3s-guerra\/a-36015630\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&lt; https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/dossi%C3%AA-exp%C3%B5e-presen%C3%A7a-de-nazistas-na-justi%C3%A7a-alem%C3%A3-do-p%C3%B3s-guerra\/a-36015630&gt; <\/a><\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>GAGNEBIN, Jeanne Marie. O que significa elaborar o passado. In: Gagnebin, Jeanne Marie. Lembrar, escrever, esquecer. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>WOJAC, Irmtrud. Fritz Bauer (1903-1968). Jurista por el sentido de la liberta. Cadernos Judaicos. Chile,n\u00ba 32, Deciembro, 2015, p. 302-318. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5354\/0718-8749.2015.38101\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.5354\/071<\/a><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5354\/0718-8749.2015.38101\">8-8749.2015.38101<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>ZAMORA, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio. Mem\u00f3ria e hist\u00f3ria frente a Auschwitz. Revista Insurg\u00eancia. Brasilia, ano 4, v.4, n\u00ba1, 2018, p. 109-143.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator aligncenter has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Nota<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">[i] <\/mark><\/strong>Lei aprovada em 30 de maio de 1968, que em casos de emerg\u00eancia interna ou externa, de for\u00e7a maior, o governo poderia restringir temporariamente ou anular completamente os direitos b\u00e1sicos dos cidad\u00e3os<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fontes:<br>Texto &#8211;<\/strong> <strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-que-significa-elaborar-o-passado\/?utm_source=newsletter&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=novas_publicacoes&amp;utm_term=2023-10-05#_ednref1\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-que-significa-elaborar-o-passado\/?utm_source=newsletter&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=novas_publicacoes&amp;utm_term=2023-10-05#_ednref1\" target=\"_blank\">A terra \u00e9 Redonda<\/a><\/mark><\/strong>.<br><strong>Imagem &#8211;<mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/campo-de-concentracao.png\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/campo-de-concentracao.png\" target=\"_blank\"> Kristvin Gudmundsson<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por MICHEL AIRES DE SOUZA DIAS* A Alemanha n\u00e3o foi capaz de elaborar o seu passado. 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