{"id":1516,"date":"2023-11-10T15:54:44","date_gmt":"2023-11-10T18:54:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=1516"},"modified":"2023-11-10T15:54:44","modified_gmt":"2023-11-10T18:54:44","slug":"chico-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/chico-de-oliveira\/","title":{"rendered":"Chico de Oliveira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por <strong>LUCINEIA ALMEIDA*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Homenagem ao intelectual que faria 90 anos na \u00faltima quarta-feira, dia 08 de novembro de 2023.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Quando eu morrer, n\u00e3o fa\u00e7as disparates<br>nem fiques a pensar: Ele era assim\u2026<br>Mas senta-te num banco de jardim,<br>calmamente comendo chocolates.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Aceita o que te deixo, o quase nada<br>destas palavras que te digo aqui:<br>Foi mais que longa a vida que eu vivi,<br>para ser em lembran\u00e7as prolongada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Por\u00e9m, se um dia, s\u00f3, na tarde em queda,<br>surgir uma lembran\u00e7a desgarrada,<br>ave que nasce e em v\u00f4o se arremeda,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>deixa-a pousar em teu sil\u00eancio, leve<br>como se apenas fosse imaginada,<br>como uma luz, mais que distante, breve.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>(Carlos Pena Filho, Testamento do homem cansado)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>1.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando trabalhava no Departamento de Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada da FFLCH-USP fui assistir um evento, em 1997, sobre o tema \u201c20 anos das greves do ABC e a cria\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores\u201d que estava sendo organizado pelo NEDIC, em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, no Audit\u00f3rio da Hist\u00f3ria, onde os fundadores do NEDIC, Chico de Oliveira e Maria C\u00e9lia Paoli estavam. Maria C\u00e9lia coordenava a mesa que contava com a presen\u00e7a de Jair Meneguelli, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares, Lula e dos fundadores da CUT.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Depois, em 1998 fui assistir algumas aulas do professor Chico de Oliveira no curso de Literatura Brasileira, pois ele tinha sido convidado a dar um curso naquela \u00e1rea. Era meio da tarde quando entrei na sala 102, lotada, e um professor baixinho e bonitinho falava pausadamente sobre o Brasil, o capitalismo contempor\u00e2neo e as classes sociais, com firmeza e com um sotaque bem familiar. Perguntei para um estudante quem era aquele professor e ele me disse Francisco de Oliveira, n\u00e3o \u00e9 de letras \u00e9 soci\u00f3logo. Poucos anos depois conheci o professor no meio de um furac\u00e3o. Eu saindo da Teoria Liter\u00e1ria e ele que precisava ent\u00e3o de uma funcion\u00e1ria desprendida e que topasse uma empreitada numa tribo destemida, pois segundo ele, era a \u201cTribo Asterix\u201d em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>2.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Uma colega funcion\u00e1ria da FFLCH, nossa hist\u00f3rica representante, Marlene Petros, sabendo que eu estava em desacordo com a coordena\u00e7\u00e3o do Departamento de Teoria Liter\u00e1ria me apresentou \u00e0 professora Maria C\u00e9lia Paoli que a tinha pedido indica\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que topasse se transferir e trabalhar com o Grupo e que se identificasse com eles, os marxistas. Marlene ent\u00e3o dizia, um grupo progressista e sem recursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Maria C\u00e9lia me falou do prop\u00f3sito dos trabalhos do grupo que estudava o tema da universaliza\u00e7\u00e3o dos Direitos e da Cidadania. Prop\u00f4s o desafio de trabalhar num lugar sem nenhuma estrutura, sem sala definida, sem equipamentos, sem recursos financeiros, com um pequeno grupo de pesquisa, com proposta de trabalho e com projeto em constru\u00e7\u00e3o dos professores do Departamento de Sociologia em um N\u00facleo de Pesquisa, cuja lideran\u00e7a intelectual era Chico de Oliveira. Naquele ano o Nedic encerrava um projeto financiado pela Funda\u00e7\u00e3o Ford, do qual resultou o livro Os sentidos da democracia publicado em 1990, pela Editora Vozes. Ela enfatizou que a grande lideran\u00e7a da equipe era o professor Chico de Oliveira com quem ela j\u00e1 tinha anunciado a minha exist\u00eancia e ele queria me conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Agora, em 1999, estavam construindo um projeto que era uma fra\u00e7\u00e3o de um projeto maior, um CEPID que seria apresentado pela professora Marilena Chaui \u00e0 FAPESP. No caso do projeto do Nedic seria algo menor e denominado pelo grupo de \u201cfapespinho\u201d, com 10 pesquisadores apenas, que estava em discuss\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O projeto ent\u00e3o nasceu um ano depois, em 2000 com o nome de Projeto Tem\u00e1tico Cidadania e Democracia: as rupturas no pensamento da pol\u00edtica e que resultou em 2007 no livro A Era da Indetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Maria C\u00e9lia me passou essas informa\u00e7\u00f5es e me prometeu que agendaria para a semana seguinte um encontro com o professor Chico de Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca, tr\u00eas outros departamentos me convidaram e ent\u00e3o falei pra Maria C\u00e9lia que eu n\u00e3o queria ficar vinculada \u00e0 Reitoria, mas \u00e0 FFLCH, e para isso precisaria transformar o N\u00facleo em um Centro da FFLCH como outros j\u00e1 que j\u00e1 existiam. Marcamos uma reuni\u00e3o com o professor Fl\u00e1vio Aguiar para orienta\u00e7\u00f5es acerca da transforma\u00e7\u00e3o do N\u00facleo em Centro de Pesquisa da FFLCH.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A Teoria Liter\u00e1ria me pedia para n\u00e3o sair, para pensar, mas eu j\u00e1 tinha decidido mudar. Decidi sair de l\u00e1, mesmo gostando de todos os colegas e professores daquele Departamento. O diretor da Faculdade, Francis Aubert, me pediu para esperar e tentou acordo, mas eu n\u00e3o aceitei. Disse a ele que j\u00e1 ia come\u00e7ar trabalhar com a Maria C\u00e9lia e com o Chico de Oliveira, pois eles tinham muito trabalho, um projeto bonito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fiquei trabalhando na sala do Chico de Oliveira, conforme orienta\u00e7\u00e3o dele, com uma mesa redonda, muitos livros rec\u00e9m-chegados do CEBRAP, um computador velho, uma impressora quebrada e um sofazinho cinza que era o descanso merecido do mestre ap\u00f3s o almo\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Pedi para ser posta \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o pela Teoria Liter\u00e1ria e despacharam equivocadamente para o Departamento de Sociologia, o ent\u00e3o chefe, que era o oposto do Chico de Oliveira, dizia que n\u00e3o via sentido em criar o Centro de Pesquisa, mas refor\u00e7ar o departamento, e me prop\u00f4s ir trabalhar na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o deles, mas eu n\u00e3o quis e falei que n\u00e3o queria trabalhar com ele, mas com o Chico de Oliveira e a Maria C\u00e9lia e o grupo do Cenedic. A conversa ficou tensa, ele me devolveu para o diretor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira e eu fomos juntos falar com o Diretor da FFLCH, j\u00e1 com o projeto de transforma\u00e7\u00e3o de N\u00facleo em Centro em m\u00e3os. Antes do diretor nos receber, sentamos no caf\u00e9. Ele tinha acabado de perder a m\u00e3e e voltado de Recife e me pediu desculpas por n\u00e3o ter tido tempo de desmarcar o encontro na semana anterior. Chico foi me contando o mais dif\u00edcil, das lembran\u00e7as da sua m\u00e3e intercalando pausas emocionadas e risos discretos, aquela m\u00e3e que lhe dizia que n\u00e3o sabia para que servia o curso de Ci\u00eancias Sociais, mas que se Deus existisse era aquela pessoa, doce e diab\u00e9tica, que tinha 10 filhos, seus irm\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico falou de Pernambuco, dos tempos da Sudene, da viv\u00eancia em Recife, da dureza do ex\u00edlio e da experi\u00eancia que tivera nos por\u00f5es com testemunhos como do Luiz Roncari e me perguntou se o conhecia. Lembro que ficamos horas ali e falei para ele que tamb\u00e9m era pernambucana e meu pai contempor\u00e2neo do Miguel Arraes, que sabia do Greg\u00f3rio Bezerra e das Ligas Camponesas, que tinha trabalhado na campanha de Marcos Freire para o senado e governo em PE, e que ele tinha sido o padrinho da minha turma no encerramento do ensino m\u00e9dio na cidadezinha de Cachoeirinha, em Pernambuco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Foi um encontro de um grande intelectual com uma trabalhadora, mas Chico de Oliveira n\u00e3o era prepotente, era gentil e tinha uma enorme qualidade, era humilde e tratava com respeito e igualdade todas as pessoas. Um extraordin\u00e1rio saber e toda aquela viv\u00eancia, ele n\u00e3o se alimentava de arrog\u00e2ncia nem de vaidade. Chico falava baixinho, civilizado, cuidadoso. Os meus colegas que passavam ao lado se mostravam curiosos sem saber quem era aquela pessoa que quase cochichava comigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Disse para o Chico de Oliveira que a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o na conversa com o Diretor era n\u00e3o trabalhar fora do Conjunto did\u00e1tico e n\u00e3o ficar vinculada \u00e0 Reitoria, desta forma precisava transformar o N\u00facleo em Centro da FFLCH. Ele falou que o grupo precisava ser ampliado mesmo e at\u00e9 porque eram at\u00e9 ent\u00e3o os professores da Sociologia da USP e de outras institui\u00e7\u00f5es como PUC, Unicamp, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O diretor nos recebeu e Chico de Oliveira foi firme, n\u00e3o deu espa\u00e7o para evasivas e exigiu que a dire\u00e7\u00e3o colaborasse com aquela situa\u00e7\u00e3o em que eu e ele quer\u00edamos trabalhar juntos e em paz, mostrou o monte de pap\u00e9is do projeto que est\u00e1vamos montando e n\u00e3o pod\u00edamos parar e que n\u00e3o aceit\u00e1vamos ficar naquele \u201cangu de caro\u00e7o\u201d e o diretor ent\u00e3o olhou para Chico de Oliveira, ouviu seus argumentos e respondeu: ela vai ficar alocada aqui na dire\u00e7\u00e3o mas trabalhando l\u00e1 com voc\u00eas no Nedic vou colocar aqui \u201cpara apoiar as pesquisas do Chico de Oliveira e Maria C\u00e9lia Paoli\u201d assim e voc\u00eas far\u00e3o a transforma\u00e7\u00e3o de N\u00facleo em Centro, como j\u00e1 foi feita em outras situa\u00e7\u00f5es. Quando o Cenedic estiver criado e aprovado no Conselho Universit\u00e1rio ela ficar\u00e1 definitivamente ent\u00e3o no Cenedic. O que s\u00f3 ocorreu em 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca, \u00e9ramos: Chico de Oliveira, Maria Celia Paoli, Vera Telles, Leonardo Gomes e Cibele Rizek (USP) Ana Am\u00e9lia e Carmelita Yasbeck (ambas da PUC), Laymert Garcia (Unicamp) Carlos Bello e Roberto V\u00e9ras e Elson (alunos de doutorado).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Fl\u00e1vio Aguiar, professor da \u00e1rea de Literatura Brasileira ajudou-nos a criar o Cenedic a pedido da Maria C\u00e9lia Paoli (ambos tinham sido diretores da ADUSP), nos dando o caminho das pedras que inclusive eu havia trilhado com ele e a professora Ligia Chiappini para criar o Centro \u00c1ngel Rama, uma d\u00e9cada antes. Montamos todo o processo e os professores da FFLCH foram muito simp\u00e1ticos \u00e0 ideia de um Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania tendo \u00e0 frente Chico de Oliveira e Maria C\u00e9lia Paoli e muitos deles se associaram. Luiz Roncari, por exemplo, quando consultado por mim respondeu que \u201ccom o Chico de Oliveira eu vou at\u00e9 para o inferno\u201d. O professor Istv\u00e1n Jankso tamb\u00e9m se colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Gabriel Cohn apoiou o Chico de Oliveira, Leonel Itaussu, Olg\u00e1ria Mattos, Irene Cardoso, Marilena Chau\u00ed, Maria das Gra\u00e7as, Francisco Escarlato, Zilda Yokoi, Sergio Cardoso tamb\u00e9m deram uma grande for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Tivemos apoio de cerca de 150 professores na \u00e9poca e das mais diferentes \u00e1reas e os Departamentos de Ci\u00eancia Pol\u00edtica, de Filosofia, e de Letras Cl\u00e1ssicas e Vern\u00e1culas se juntaram como proponentes e formaram o Conselho Deliberativo do Centro que deixou de ser exclusivamente do Departamento de Sociologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando ligava para os professores para convid\u00e1-los para participar no Cenedic de algum debate logo de pronto era atendida, qualquer pedido em nome do Chico de Oliveira era aceito de imediato. Muito se p\u00f4de fazer no Cenedic exatamente por ter Chico de Oliveira \u00e0 frente, al\u00e9m de grande intelectual, Chico de Oliveira foi uma figura carism\u00e1tica, desprovido de vaidades e glamour. Nunca tivemos dinheiro, era tudo no bra\u00e7o, como ele falava, mas traz\u00edamos os alunos, os trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o, a milit\u00e2ncia, os intelectuais e realiz\u00e1vamos grandes eventos. Chico de Oliveira era singular e plural e por ele eu recebia olhares atravessados dos conservadores e ganhava abra\u00e7os sinceros da esquerda marxista dentro e fora da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Em 2000, fiquei gr\u00e1vida e a Maria C\u00e9lia ao me ver retornando de f\u00e9rias logo falou: Chico, temos novidades! E o Chico olhou para mim e indagou: voc\u00ea est\u00e1 gr\u00e1vida, querida? Que beleza! \u00c9 uma maravilha! Eu ainda assustada com tamanha responsabilidade e eles t\u00e3o solid\u00e1rios comigo\u2026 Tive uma gravidez de alto risco, Chico de Oliveira sempre me advertindo para seguir as orienta\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas sugeriu indicar uma colega para me substituir no Cenedic na licen\u00e7a maternidade e trouxe minha colega de curso da Letras a Jane Pessoa, que tamb\u00e9m passou a admirar o Chico de Oliveira e ver como ele era afetivo, educado e gentil com todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando o Lucas nasceu a segunda pessoa a chegar no HU foi ele. Barraram ele, a Rebeca e o Victor no t\u00e9rreo, mas ele insistiu com os guardas e subiu at\u00e9 o quinto andar. Ficou comigo no quarto, foi ao ber\u00e7\u00e1rio ver o Lucas e falou que o Lucas era grande, ia superar o problema de sa\u00fade, e, observou que ele tinha uma testa de quem era inteligente. Vai ser um grande homem, vai ser amigo do Vit\u00e3o. Quando ele crescer vou dar o Asterix para ele ler e depois O Manifesto Comunista para ele abrir o olho!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Obviamente, o Lucas leu todos os gibis do Asterix e quando o Lucas tinha 12 anos leu O Manifesto Comunista e depois o releu. Naquele dia descobri que Chico de Oliveira n\u00e3o s\u00f3 entendia de pol\u00edtica, economia, hist\u00f3ria e sociologia, mas de rela\u00e7\u00f5es humanas, de fino trato com gente, ele sabia das implica\u00e7\u00f5es e do sofrimento de uma m\u00e3e trabalhadora, solteira e rec\u00e9m parida diante de um filho internado em UTI. N\u00e3o fez vistas grossas e ficou por perto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Um dia o professor Antonio Candido me ligou dizendo ter me procurado no Departamento de Teoria Liter\u00e1ria e lhe passaram o meu ramal, ele queria agradecer umas fotos que eu fizera da Dona Gilda e havia lhe enviado. Falei que mudei de setor, mas o cora\u00e7\u00e3o continuava o mesmo. Ele ent\u00e3o me agradeceu e falou que eu fizera um \u00f3timo caminho pois o Chico de Oliveira era um grande soci\u00f3logo brasileiro e tamb\u00e9m pernambucano extraordin\u00e1rio, fundador do PT e seu amigo. Um homem de extraordin\u00e1rio valor e conhecedor do Brasil. Contei para o Chico de Oliveira o relato do professor Candido, que ficou contente em saber dos elogios a dist\u00e2ncia que recebeu do grande mestre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Era 2003, Chico publica suas mem\u00f3rias em A noiva da revolu\u00e7\u00e3o. E depois o artigo O Ornitorrinco \u2013 e l\u00e1 vem pol\u00eamica. Depois, Chico de Oliveira rompeu com o PT e deu uma entrevista no programa Roda Viva da TV Cultura que rendeu muita fala\u00e7\u00e3o: muitas liga\u00e7\u00f5es todos os dias, gente convidando para debates, jornalistas pedindo entrevista e um dia, anos depois, eu falei: Chico, o Brasil est\u00e1 melhor eu estou indo ao Nordeste a cada dois anos e vejo a diferen\u00e7a. Voc\u00ea est\u00e1 sendo muito duro com o PT, tenho sobrinhos estudando em cursos bem disputados nas Universidades Federais por exemplo, houve investimentos grandes na constru\u00e7\u00e3o de portos, a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ele me respondeu: \u201cQuerida, o Nordeste era muito atrasado e portanto essa diferen\u00e7a que voc\u00ea narra \u00e9 muito pequena perante os lucros que esse grande capital tem com esse governo. N\u00e3o existe sequer um Estado de Bem-Estar-Social nesse pa\u00eds. Meu papel \u00e9 esse, querida, ser cr\u00edtico. O consumo n\u00e3o gera cidadania, querida, n\u00e3o civiliza. Esse governo n\u00e3o est\u00e1 fazendo a aposta certa, fez uma alian\u00e7a com os de cima e isso n\u00e3o d\u00e1 certo, isso \u00e9 uma armadilha\u201d. N\u00e3o \u00e9 que ele em grande medida tinha raz\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira era o Brasil que resiste, ele sempre se colocava por priorizar as pesquisas sobre o Brasil, era solicitado por jornalistas constantemente e podia escolher o dia e a hora que eles corriam para entrevist\u00e1-lo. Chico ia para as aulas greve, ia para os grupos de forma\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios no Sindicato, debates promovidos pelo DCE, Chico atraia o melhor, trouxe gente da PUC, Unicamp, Universidades Federais. Chico de Oliveira era procurado por alunos do Nordeste e do Sul e nunca lhes fechou as portas, participava de bancas, apresentava livros, Chico perdia hor\u00e1rio de v\u00f4os, esquecia pap\u00e9is, mas n\u00e3o perdia o racioc\u00ednio nem a generosidade. Era pontual com quem o esperava e jamais se imp\u00f4s com arrog\u00e2ncia e superioridade diante do grupo. Chico ajuda a fundar o PSOL e l\u00e1 vem debates!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nunca vou esquecer de um epis\u00f3dio em que um dia um pesquisador franc\u00eas participante de um conv\u00eanio me imp\u00f4s que assumisse determinada tarefa que n\u00e3o era da minha al\u00e7ada, fez insinua\u00e7\u00f5es descabidas para sua colega, por vingan\u00e7a, e eu, naturalmente, me recusei a compactuar. Ele gritou comigo e disse que ia reclamar para o Chico de Oliveira. Eu peguei o telefone na frente dele e liguei para o Chico e narrei o fato. Chico de Oliveira de pronto me disse: N\u00e3o se submeta querida. Diga-lhe que se retire de sua sala e eu \u00e9 que vou falar com ele para se comportar como um cidad\u00e3o franc\u00eas. Eu ent\u00e3o s\u00f3 perguntei: quer ouvir dele ou quer que transmita?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira respeitava as mulheres, n\u00e3o gritava com ningu\u00e9m, era educado e generoso e nos fortalecia como gente, como mulher e como classe trabalhadora. Chico \u00e9 um exemplo de homem civilizado, competente e desprovido de vaidades. Chico de Oliveira era cuidadoso com os porteiros do pr\u00e9dio, com o pessoal da limpeza, com as cuidadoras de sa\u00fade, com o pessoal de enfermagem no Hospital. Chico n\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o no trato humano, coisa rara neste planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira viajava sem parar, era convidado para muitos lugares e pouco se recusava. Maria C\u00e9lia p\u00f4s ele como Centro da roda, planejava para todas as sextas-feiras atividades no Cenedic e o Chico n\u00e3o podia faltar. Foi ficando cada vez mais pertinho. Ele pensava sem parar, era intuitivo, liderava qualquer reuni\u00e3o com brilhantismo e generosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ele e Maria C\u00e9lia eram parceiros de primeira, de conversas infind\u00e1veis. Lembro de uma vez que de tanto conversarem, ele e Maria C\u00e9lia perderam dois v\u00f4os na mesma tarde em Congonhas (quando iam para Minas Gerais participar de um Semin\u00e1rio com o Grupo dos Republicanistas) no mesmo aeroporto (risos), l\u00e1 se iam bilhetes de v\u00f4os, esquecia notas fiscais, n\u00e3o lembrava data de pagamentos, Chico de Oliveira era aparentemente distra\u00eddo, mas n\u00e3o o era de fato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Os alunos gostavam do Chico, que n\u00e3o era burocrata, que mantinha-se distante de gabinetes e ele os chamava pra boa briga da luta e fugia das categorias tradicionais impostas pela academia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira gostava de festa, de vinho, de conversar. Jantares na casa da Maria C\u00e9lia, almo\u00e7o na casa da Cibele, anivers\u00e1rio nos restaurantes e nos finais de ano. Fez a festa de 70 anos na Casa da Cidade do vereador Nabil Bonduk, na Vila Madalena, e l\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s conhecendo toda a fam\u00edlia, os oito filhos que ele dizia ter, l\u00e1 estavam de fato. Um lindo momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira foi homenageado como cidad\u00e3o paulistano, proposta apresentada pelo vereador Nabil Bonduk, em 2003 e l\u00e1 no Audit\u00f3rio da Hist\u00f3ria est\u00e1vamos n\u00f3s. A Cibele Rizek, o Wagner Rom\u00e3o e eu fomos os organizadores, um evento de 3 dias com mesas tarde e noite. Dessa homenagem foi publicado o livro Chico de Oliveira: a tarefa da cr\u00edtica, em 2006, pela Editora da UFMG.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico recebeu o pr\u00eamio Jabuti por O Ornitorrinco, e depois o t\u00edtulo de Professor Em\u00e9rito da FFLCH em 2008 e l\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s, com cita\u00e7\u00f5es e honra, Maria C\u00e9lia de madrinha e n\u00f3s de plateia. Fazia anivers\u00e1rio e l\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E em 2006 o Projeto \u201cHegemonia \u00e0s avessas\u201d foi aprovado com financiamento do CNPq e mais tr\u00eas anos de debates e convidados externos no Cenedic. O Chico convidou os professores Luiz Werneck Viana, Carlos Nelson Coutinho, Jos\u00e9 Paulo Neto, todos do Rio de Janeiro e Ary Minella da UFSC, entre outros. Ampliou o horizonte num grande evento de lan\u00e7amento de mais um livro em 2009 publicado pela Editora Boitempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E nessa tribo, muita gente foi chegando, Chico de Oliveira tinha como proposta aos novos membros que apresentassem ao grupo um semin\u00e1rio com seus trabalhos, suas pesquisas. Paulo Arantes sempre foi um colaborador de primeira hora, depois veio Walnice Nogueira Galv\u00e3o, Wolfgang Leo Maar, Leda Paulani, Luiz Renato Martins. Os alunos Elson, Solange Sanches, Joana Barros, Sara Freitas. Em 2009 Josefa Barros (UFMA), Andr\u00e9 Singer (DCP) e a Profa. Maria Elisa Cevasco (DLM) e depois Isabel Loureiro (Funda\u00e7\u00e3o Rosa Luxemburgo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira apostava nos seus alunos e os deixava trabalhar com autonomia, mas cobrava-lhes rigor e qualidade nas pesquisas. Assim foi com Elson, Carlos Bello, Solange Sanches, Joana Barros, \u00c1lvaro Comin, Annye Daymetman, Sara Freitas. E os orientandos de p\u00f3s-doc, Ary Minella e Josefa Barros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira deixou sua casinha na Rua Caio Graco, na Lapa, onde morou com seu acervo e depois voltou a morar na Rua Tito. Teve de se desfazer de sua biblioteca, foi sofrido porque o espa\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o permitia abrigar seus livros. Ele resolveu ouvir a sugest\u00e3o da Ana Regina, sua bibliotec\u00e1ria que cuidava de seus livros na sua casa. A Ana levou o acervo dele para a Universidade Federal de Sergipe (onde ela e seu esposo, o fil\u00f3sofo e professor M\u00e1rcio foram trabalhar (hoje ambos est\u00e3o vinculados \u00e0 UNB), para que fosse disponibilizada para aquela Comunidade Universit\u00e1ria no Acervo Central daquela Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O acervo foi recebido por J\u00f4natas da Silva Meneses, soci\u00f3logo da UFSE, em Aracaj\u00fa, na \u00e9poca Diretor do Centro de Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancias Humanas (2005\/2012), hoje aposentado (mas at\u00e9 recentemente n\u00e3o tinha sido feito o combinado da incorpora\u00e7\u00e3o do acervo a Biblioteca Central). Chico de Oliveira ent\u00e3o ficou com pouqu\u00edssimos livros e disse-me que ia ficar agora com a literatura, com a fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu chegava l\u00e1 e ele estava lendo fic\u00e7\u00e3o em um cantinho do sof\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Em 2011, o Cenedic resolveu oferecer um curso de forma\u00e7\u00e3o no per\u00edodo noturno e oferecemos 16 aulas de diferentes \u00e1reas, quase todos com professores titulares, nenhum recurso e uma experi\u00eancia \u00edmpar na forma\u00e7\u00e3o dos estudantes universit\u00e1rios e professores da rede p\u00fablica de ensino, pois o curso de extens\u00e3o foi oferecido de forma gratuita aos interessados a pedido de Francisco de Oliveira e 85 alunos participaram de todas as aulas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira foi parceiro do SINTUSP e da ADUSP, foi testemunha de alunos para defend\u00ea-los de processos por conta de ocupa\u00e7\u00f5es, enfrentou o reitor Rodas quando os aposentados foram demitidos, defendeu em v\u00e1rias mesas os trabalhadores da USP em sucessivas greves e sempre lhes dizia para n\u00e3o cham\u00e1-lo de professor, pois os trabalhadores deviam se tratar sempre como companheiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico brigou pelo HU, pelas Creches da USP, foi parceiro do movimento estudantil, foi candidato a Reitor s\u00f3 para fazer provoca\u00e7\u00f5es e questionar o Estatuto da USP, heran\u00e7a de 1973, est\u00e1tico e conservador. Avesso \u00e0 burocracia, um ser livre que via os trabalhadores tamb\u00e9m com absoluto respeito ele ficava indignado quando sabia de tratamentos discriminat\u00f3rios dentro desta Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Levamos o Chico para a Escola de Aplica\u00e7\u00e3o da FE-USP, em 2015, eu e a Diretora da APM fomos busc\u00e1-lo em casa e ele falou para 180 estudantes do Ensino M\u00e9dio. Os estudantes fizeram sil\u00eancio e depois muitas perguntas. O Chico carinhosamente os alertava: Fa\u00e7am pol\u00edtica, participem da vida pol\u00edtica do Brasil, informem-se, fa\u00e7am sociologia, ci\u00eancia pol\u00edtica, filosofia. O melhor caminho \u00e9 o conhecimento e a participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica como cidad\u00e3os. N\u00e3o se enganem com a FEA. Foi um momento muito especial para n\u00f3s, cujos filhos de 15 a 18 anos puderam ver essa figura hist\u00f3rica trazendo-lhes tantas dicas preciosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">No final de 2018 meu filho foi o orador da turma do terceiro ano escolhido pelos colegas formandos daquela Escola e fez um discurso progressista chamando a responsabilidade dos colegas para tomarem as r\u00e9deas e se fazerem cidad\u00e3os presentes na vida pol\u00edtica deste pa\u00eds. Lucas se inscreve para o curso de Economia na Unicamp e Biologia na USP e passa nos dois. Ele d\u00e1 a not\u00edcia ao Chico, que comemora. Que bom, Lucas, v\u00e1 pra Unicamp, l\u00e1 voc\u00ea vai ter uma \u00f3tima forma\u00e7\u00e3o de economia pol\u00edtica. Lucas respondeu que preferia ficar na USP, mas n\u00e3o na FEA, e disse-lhe: Chico, vou para a Biologia n\u00e3o quero FEA e o Chico ficou feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>6.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico para mim foi um ser de luz, mas luz de fato. O que ilumina com saber, est\u00edmulo e gosta da vida com a gra\u00e7a da partilha, da m\u00e3o amiga, do rigor e reconhecimento pelos companheiros de luta e de vida como os Professores Paul Singer a quem ele dizia constantemente \u201cser o melhor entre todos eles\u201d, pois \u201cpertencia a categoria \u201csanto\u201d , Ot\u00e1vio Ianni, Maria C\u00e9lia Paoli, Irene Cardoso, Lena Lavinas, Wolfgang Leo Maar, Roberto Schwarz, Vilma Areias, e principalmente com o Celso Furtado, seu grande mestre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Lembro que em 2018 eu estive com Andr\u00e9 Singer no apartamento dele, pois o Andr\u00e9 foi levar o livro O Lulismo em Crise rec\u00e9m- lan\u00e7ado com uma dedicat\u00f3ria que diz \u201cChico de Oliveira nos deu r\u00e9gua e compasso\u201d que foi o resultado do projeto coletivo e coincidentemente foi no dia da tal facada do Jair Bolsonaro, e o Chico de Oliveira perguntado sobre as elei\u00e7\u00f5es respondeu de pronto que Jair Bolsonaro seria o presidente. Tomei um susto e achei que ele n\u00e3o estava acompanhando as not\u00edcias, mas o engano era inteiramente meu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira focava no seu prop\u00f3sito. N\u00e3o desligava de seu pa\u00eds Brasil, manteve-se um \u00e1vido intelectual e chamando a aten\u00e7\u00e3o do grupo para pensar o Brasil e a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Adorava a USP, mesmo cr\u00edtico a Administra\u00e7\u00e3o Central, admitia ser um \u00f3timo ambiente para uma vida intelectual, o mais saud\u00e1vel de sua trajet\u00f3ria recente, a USP deveria, portanto, ser defendida incondicionalmente como institui\u00e7\u00e3o de ensino superior democr\u00e1tica e a servi\u00e7o da sociedade. Ele foi envelhecendo, mas dizendo que o a\u00e7\u00facar a mais em suas veias era o doce da m\u00e3e que a\u00e7ucarou todos os filhos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico gostava de ouvir m\u00fasica cl\u00e1ssica, mas tamb\u00e9m adorava um frevo do Capiba e do Claudionor Germano. Ele gostava dos versos do poeta pernambucano Carlos Pena Filho, mesmo admitindo que ele era um poeta menor. Sempre recitava os poemas. Um deles era<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A Solid\u00e3o e Sua Porta, de Carlos Pena Filho<br>Quando mais nada resistir que valha<br>a pena de viver e a dor de amar<br>E quando nada mais interessar<br>(nem o torpor do sono que se espalha)<br>Quando pelo desuso da navalha<br>A barba livremente caminhar<br>e at\u00e9 Deus em sil\u00eancio se afastar<br>deixando-te sozinho na batalha<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Arquitetar na sombra a despedida<br>Deste mundo que te foi contradit\u00f3rio<br>Lembra-te que afinal te resta a vida<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Com tudo que \u00e9 insolvente e provis\u00f3rio<br>e de que ainda tens uma sa\u00edda<br>Entrar no acaso e amar o transit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando lembrava da sua pr\u00f3pria adolesc\u00eancia nos carnavais de Rua de Recife seu semblante era muito particular, resplandecia uma alegria que s\u00f3 quem \u00e9 pernambucano diante do frevo \u201cvassourinha\u201d consegue compreender\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Depois entrou na fase dif\u00edcil, depend\u00eancia de rem\u00e9dios, de laborat\u00f3rios de cl\u00ednicas e para viajar n\u00e3o era f\u00e1cil. Quando ia para Recife t\u00ednhamos que pensar num pacote de cuidados e acabei descobrindo uma amiga (Dra. Polyane Carvalho Lopes, que \u00e9 m\u00e9dica nefrologista e sua irm\u00e3 Patr\u00edcia Carvalho, especializada em problemas renais l\u00e1 em Recife e pus na roda para cuidarem dele por l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chegando em Recife no primeiro dia agendado o Chico de Oliveira ao inv\u00e9s de ir para a Cl\u00ednica foi para o mar e a m\u00e9dica me ligou \u00e0 noite apavorada com os riscos que ele estava correndo. Eu ent\u00e3o liguei tamb\u00e9m \u00e0 noite no Hotel para dar-lhe uma bronca: Chico, como assim, que voc\u00ea n\u00e3o foi fazer hemodi\u00e1lise, est\u00e1 correndo risco de vida, viu? \u2013 N\u00e3o querida, fui para o mar, o mar \u00e9 vida. Querida, venha pra c\u00e1 tamb\u00e9m, Boa Viagem \u00e9 uma del\u00edcia. A hemodi\u00e1lise \u00e9 que \u00e9 de morte! (risos)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico, estou falando s\u00e9rio, eu falei com a m\u00e9dica para te atend\u00ea-lo na primeira hora da manh\u00e3 e voc\u00ea n\u00e3o pode faltar e as outras cl\u00ednicas n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis. Ele ria, dizia que j\u00e1 estava \u201cdescendo a ladeira mesmo\u201d, mas obedecia e acabava sendo t\u00e3o gentil com a equipe que as amigas ficaram encantadas com ele\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira sabia das coisas e ria dos vaidosos, mas ria baixinho para n\u00e3o os magoar. Sabia diferenciar a pequena gan\u00e2ncia do oportunismo das grandes \u201cfulano \u00e9 da quitanda j\u00e1 fulano \u00e9 das Funda\u00e7\u00f5es\u201d, fulana precisa \u201ccal\u00e7ar os chinelos da humildade\u201d, \u201cfulano n\u00e3o se trata\u201d, fulano \u201c\u00e9 atilado, mas fica no trilho\u201d \u201ctuti buona gente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E aquele Padre Anselmo, o padre das anedotas, t\u00e3o citado pelo Chico? Dizia ele \u201c Um padre velho e cansado do Sert\u00e3o de Pernambuco era chamado para atender as almas oferecendo a extrema un\u00e7\u00e3o ao cidad\u00e3o na hora da morte \u2013 ele \u00e9 chamado na hora da morte para socorrer as almas. Chega l\u00e1 e encontra uma bel\u00edssima mulher. O Ariano Suassuna chamaria de \u201cmulher vestida de sol\u201d e o padre Anselmo pergunta para o Bispo o que fazer, e ouve \u201cEsta felicidade n\u00e3o est\u00e1 para esse padre, Senhor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico de Oliveira era assim, um intelectual brincante e penso que quase indiz\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Um dia ele me ligou pedindo ajuda para os trabalhadores da padaria do seu bairro para indicar cursinhos populares para eles. Ele era generoso e discreto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Falava dos filhos com especial carinho, dizia que \u201cse Deus existisse eram seus filhos e sua m\u00e3e.\u201d Preocupava-se com o desemprego, com a vulnerabilidade das novas formas de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico era mesmo singular e eu n\u00e3o tinha dia nem hora para falar com ele por telefone ou ir visit\u00e1-lo. Levava bolos, frutas e outras guloseimas que ele apreciava, canjica, doces de caju em compota trazidos de Itamarac\u00e1, graviolas, pinhas, rocambole, queijo de coalho e bolo Souza Le\u00e3o e at\u00e9 mesmo roupas artesanais como as camisas de linho cru compradas em feiras livres. Antes de assinar pap\u00e9is era uma ma\u00e7\u00e3, um caf\u00e9, um ch\u00e1, um suco, pois \u00e9ramos de Pernambuco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico, vou te buscar para um almo\u00e7o, vamos comer bai\u00e3o de dois e casquinha de siri, fique pronto! Ele ficava todo lindo e cheiroso, era um gentleman, eu lhe contava sobre minhas paix\u00f5es e ele dizia que se eu quisesse ele dava uma forcinha, um empurr\u00e3ozinho, mas eu lhes dizia que eu era a Dulcin\u00e9ia em busca do Dom Quixote e ele me respondia que ent\u00e3o j\u00e1 tinha meio nome s\u00f3 faltava salgar os porcos e eu lhes dizia que melhor n\u00e3o. (risos)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u00c9ramos amigos sinceros, gente do front e de car\u00e1ter. Perdeu muitos amigos recentemente e ficava muito triste com cada partida: Carlos Nelson Coutinho, Antonio Candido, Paul Singer, Maria C\u00e9lia Paoli. Foi muita gente da sua turma. Em junho de 2019 quando da morte da Maria C\u00e9lia, ele quis escrever um texto para homenage\u00e1-la, me pediu material para revisar. Montei a pasta, mas ele n\u00e3o escreveu e me ligou e pediu para eu escrever. Eu falei que escolheria um poema ou mais do Drummond e do Bandeira e no dia da homenagem n\u00f3s ler\u00edamos juntos para ela na presen\u00e7a da sua filha Mariana e ele concordou. Ele partiu no m\u00eas seguinte, fiquei devendo essa para ele, mas vou cumprir no dia da homenagem a Maria C\u00e9lia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Obrigada Chico, por existir, por ter encontrado voc\u00ea nesta S\u00e3o Paulo, por ter me dado a m\u00e3o e por ter aprendido que ser cr\u00edtico e dissidente n\u00e3o \u00e9 romper com os valores da esquerda e da luta, mas apostar no que move e constr\u00f3i os direitos e a cidadania mesmo que utopicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Com o Chico eu reforcei minha certeza de que ser mulher, m\u00e3e solteira, nordestina e trabalhadora desta Universidade n\u00e3o me deixa menor, n\u00e3o sou um subproduto, sou gente que constr\u00f3i e defende o seu ch\u00e3o, sua base, e que nos pequenos gestos se gestam a sociabilidade das rela\u00e7\u00f5es. No cotidiano se fortalecem la\u00e7os, se superam desafios e principalmente que sem bases n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nessa tribo, eu sei, foram e ser\u00e3o muitas travessias, mas n\u00f3s aprendemos com ele que somos madeira de lei que cupim n\u00e3o r\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Encontrar o Chico de Oliveira foi cruzar uma estrada luminosa, foi ter a gratid\u00e3o do sotaque e da generosidade da raiz de Pernambuco, foi ter algu\u00e9m por perto para falar do Nabuco, do Freire, do Capiba, das alegrias festas e feridas da nossa gente cantante. Cruzar com o Chico foi um instante, eita, passou\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nem acredito que aqui estamos para falar do Chico no passado. Chico \u00e9, e sempre ser\u00e1 presente, ele sacudia a gente, chacoalhava as ideias, achava met\u00e1foras, fazia analogias sem perder o esp\u00edrito da boa anarquia, da gra\u00e7a. Quem n\u00e3o se lembra do Padre Anselmo? Chico gostava de poesia de fantasia, de alegria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ele era elegante e mordaz, atento como ningu\u00e9m, Chico reunia o melhor deste pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Chico, nosso mestre amigo, voc\u00ea deixou raiz profunda. \u00c9s presente, pois fostes um intelectual que, como o Paulo Freire nunca teve medo de ser afetivo, presente, altivo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Para voc\u00ea, Chico, quero confessar, preparamos eu e o meu filho, uma c\u00e2mera para fotograf\u00e1-lo na segunda-feira \u00e0 noite e n\u00e3o deu tempo, voc\u00ea partiu na madrugada sem nos avisar. Eu ent\u00e3o escolhi o poema Consoada, de Manuel Bandeira, que \u00e9 um exemplo de quem viveu, sofreu, mas assimilou cada passo com muita sabedoria, apesar do sofrimento n\u00e3o ficou amargo, mas cumpriu sua travessia com dec\u00eancia, \u00e9tica e generosidade. Fechou um ciclo e nos deixou com leveza e esse foi um enorme legado: O dever cumprido como amigo, como homem de luta, como Estadista!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Consoada<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quando a Indesejada das gentes chegar<br>(N\u00e3o sei se dura ou caro\u00e1vel),<br>Talvez eu tenha medo.<br>Talvez sorria, ou diga:<br>\u2013 Al\u00f4, inilud\u00edvel!<br>O meu dia foi bom, pode a noite descer.<br>(A noite com seus sortil\u00e9gios.)<br>Encontrar\u00e1 lavrado o campo, a casa limpa,<br>A mesa posta,<br>Com cada coisa em seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Para voc\u00ea, Chico, eu dedico a m\u00fasica que voc\u00ea tanto apreciava, que \u00e9 uma marchinha carnavalesca que ressignifica a luta e tanto nos fortalece \u201cMadeira do Rosarinho\u201d em nome dos trabalhadores da USP, de todos os outros membros do Cenedic que poderiam compor aqui essa mesa, do povo pernambucano e em nome da resist\u00eancia \u00e0 barb\u00e1rie:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Madeira do Rosarinho<br>Vem \u00e0 cidade sua fama mostrar<br>E traz com seu pessoal<br>Seu estandarte t\u00e3o original<br>N\u00e3o vem pra fazer barulho<br>Vem pra dizer e com satisfa\u00e7\u00e3o<br>Queiram ou n\u00e3o queiram os ju\u00edzes<br>O nosso bloco \u00e9 de fato campe\u00e3o<br>E se aqui estamos, cantando essa can\u00e7\u00e3o<br>Viemos defender a nossa tradi\u00e7\u00e3o<br>E dizer bem alto que a injusti\u00e7a d\u00f3i<br>N\u00f3s somos madeiras de lei que cupim n\u00e3o r\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>*Lucin\u00e9ia Almeida<\/strong> \u00e9 funcion\u00e1ria do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania \u2013 CENEDIC, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Texto lido em novembro de 2019 por ocasi\u00e3o de homenagem ao professor Chico de Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fonte:<br>Texto &#8211;<\/strong> <strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/chico-de-oliveira\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/chico-de-oliveira\/\" target=\"_blank\">A Terra \u00e9 Redonda<\/a><\/mark><\/strong>.<br><strong>Imagem &#8211;<\/strong> <strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/sistema.interativafm.net\/storage\/posts\/u0gazDCrhbIJRfiEx3eG4ZnldPVEqwcI9XAVFHnD.png\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/sistema.interativafm.net\/storage\/posts\/u0gazDCrhbIJRfiEx3eG4ZnldPVEqwcI9XAVFHnD.png\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">InterativaFM<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por LUCINEIA ALMEIDA* Homenagem ao intelectual que faria 90 anos na \u00faltima quarta-feira, dia 08 de novembro de 2023. Quando eu morrer, n\u00e3o fa\u00e7as disparatesnem&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":169,"featured_media":1518,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_customify_content_layout":"","_customify_sidebar":"","_customify_page_header_display":"default","_customify_disable_header":"","_customify_disable_header_top":"","_customify_disable_header_main":"","_customify_disable_header_bottom":"","_customify_disable_page_title":"","_customify_disable_content_vertical_padding":"","_customify_disable_footer_top":"","_customify_disable_footer_main":"","_customify_disable_footer_bottom":"","_customify_breadcrumb_display":"","_customify_header_transparent_display":"","footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1516","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1516","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/users\/169"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1516"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1516\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1521,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1516\/revisions\/1521"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1518"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1516"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1516"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1516"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}