{"id":1656,"date":"2024-01-10T14:16:18","date_gmt":"2024-01-10T17:16:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=1656"},"modified":"2024-01-10T14:16:19","modified_gmt":"2024-01-10T17:16:19","slug":"federici-a-militancia-e-alegre-porque-a-revolucao-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/federici-a-militancia-e-alegre-porque-a-revolucao-e-agora\/","title":{"rendered":"Federici: A milit\u00e2ncia \u00e9 alegre porque a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 agora"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Para pensadora italiana, mulheres latino-americanas e negras tornaram a for\u00e7a dos v\u00ednculos uma estrat\u00e9gia de luta e lograram massificar e radicalizar o movimento. Isso ser\u00e1 essencial para combater o capitalismo em fase extremista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Por\u00a0<strong>Silvia Federici<\/strong>, entrevistada por\u00a0<strong>Ver\u00f3nica Gago<\/strong>, traduzida e publicada pelo<strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">IHU<\/a><\/em><\/mark><\/strong>\u00a0.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/621595-o-capitalismo-ameaca-a-nossa-reproducao-envenenando-o-solo-as-aguas-entrevista-com-silvia-federici\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Silvia Federici<\/a>\u00a0<\/mark><\/strong>(Parma, It\u00e1lia, 1942), autora do livro\u00a0<em><strong>Calib\u00e3 e a Bruxa: Mulheres, Corpos e Acumula\u00e7\u00e3o Primitiva<\/strong><\/em>\u00a0(Elefante, 2019), aponta os crescentes ataques contra a reprodu\u00e7\u00e3o da vida, o aumento brutal da explora\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o da terra, da \u00e1gua e do tempo. Ela fala sobre o<strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/623451-os-lacos-revelados-entre-austeridade-e-fascismo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00a0fascismo econ\u00f4mico<\/a><\/mark><\/strong>\u00a0que se esconde no confronto entre blocos pol\u00edticos e sobre a import\u00e2ncia da alegria na luta feminista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A entrevista \u00e9 de Ver\u00f3nica Gago, publicada originalmente pela revista mexicana\u00a0<em>Ojal\u00e1<\/em>\u00a0e reproduzida por Ctxt, 03-04-2023. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/rede-sjcias\/cepat\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">\u00a0Cepat<\/mark><\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Leia a entrevista a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">____________<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>IHU \u2013&nbsp;Nos \u00faltimos anos assistimos a um per\u00edodo de mobiliza\u00e7\u00e3o, protesto e expans\u00e3o exponencial dos feminismos. Como podemos ler esse \u201ccrescimento pol\u00edtico\u201d? \u00c9 essa a express\u00e3o que melhor descreve o que est\u00e1 acontecendo? Em rela\u00e7\u00e3o a quais eixos e problemas podemos pensar essa efervesc\u00eancia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Silvia Federici \u2013&nbsp;<\/strong>Bom, penso que quando falamos de crescimento pol\u00edtico n\u00e3o falamos do<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/568207-o-movimento-feminista-no-brasil-e-o-mais-organizado-da-america-latina\">&nbsp;movimento feminista<\/a>&nbsp;em geral. Esse crescimento n\u00e3o \u00e9 algo vis\u00edvel em todos os lugares. O que aconteceu e est\u00e1 acontecendo na Am\u00e9rica Latina \u00e9 especialmente importante. Penso que o impacto das pol\u00edticas do<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/621777-por-um-feminismo-campones-e-popular\">&nbsp;feminismo popular<\/a>&nbsp;\u2013 o que chamamos de feminismo popular \u2013 \u00e9 t\u00e3o forte que teve impacto tamb\u00e9m em outros movimentos em outros lugares, como na Europa, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Houve um crescimento de consci\u00eancia que se reflete nos discursos e estrat\u00e9gias que os movimentos tentam alcan\u00e7ar. S\u00e3o desafios que n\u00e3o podem ser alcan\u00e7ados a menos que vivamos um processo verdadeiramente amplo de mudan\u00e7a social. Um dos primeiros elementos \u00e9 o<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/605398-outro-mundo-e-possivel-o-anticapitalismo-no-seculo-xxi\">&nbsp;anticapitalismo<\/a>, que esteve em segundo plano durante boa parte da hist\u00f3ria do movimento feminista. Mas, hoje, o anticapitalismo est\u00e1 cada vez mais em primeiro plano. Muitas das lutas que vimos nos \u00faltimos anos foram dirigidas diretamente ao mundo empresarial, particularmente as lutas contra a privatiza\u00e7\u00e3o da terra e contra a expuls\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas de seus territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A imposi\u00e7\u00e3o de<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/565506-por-que-nosotrasparamos-no-dia-8-de-marco\">&nbsp;programas de ajuste estrutural<\/a>&nbsp;criou<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/625568-o-mito-da-austeridade-e-fascista-e-capitalista-artigo-de-gad-lerner\">&nbsp;austeridade<\/a>&nbsp;e empobrecimento em massa, bem como<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/624854-uma-orgia-de-destruicao-artigo-de-eduardo-gudynas\">&nbsp;devasta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/a>. O movimento feminista assumiu algumas das quest\u00f5es fundamentais que qualquer movimento deve enfrentar para criar outro tipo de sociedade, incluindo o grande problema dos&nbsp;<em>cercamentos capitalistas da vida<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Hoje o feminismo n\u00e3o se limita apenas a mudan\u00e7as nas condi\u00e7\u00f5es das mulheres. As feministas t\u00eam algo a dizer sobre absolutamente tudo, sobre todos os aspectos da vida. Vimos perspectivas feministas sobre a d\u00edvida, sobre a ecologia, sobre o sistema de justi\u00e7a \u2013 o sistema de injusti\u00e7a \u2013 nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.quatrocincoum.com.br\/br\/register\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Vimos a forma\u00e7\u00e3o de um movimento feminista abolicionista que lutou contra o encarceramento e pela retirada do financiamento da pol\u00edcia (<em>defund the police<\/em>). Al\u00e9m disso, o feminismo d\u00e1 cada vez mais import\u00e2ncia \u00e0 luta contra a<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/579682-a-revolucao-das-ciencias-sociais-por-anibal-quijano-entrevista-com-cesar-baldi-fernanda-bragato-e-nelson-maldonado-torres\">&nbsp;colonialidade<\/a>, contra o sistema, e ao papel das feministas negras e das<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/594588-feministas-e-povos-originarios-orientam-nossos-passos-artigo-de-raul-zibechi\">&nbsp;feministas anticoloniais<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Tenho pensado na combina\u00e7\u00e3o entre massifica\u00e7\u00e3o e radicalidade como uma caracter\u00edstica deste ciclo de feminismo. Como podemos pensar em ciclos e ritmos diferentes, em momentos em que a massividade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte? N\u00e3o sei se n\u00e3o dever\u00edamos falar de momentos de&nbsp;<\/strong><strong><em>retaguarda ativa<\/em><\/strong><strong>&nbsp;ou se n\u00e3o dever\u00edamos pensar numa outra geometria de movimentos e for\u00e7as. Tamb\u00e9m gosto de pensar nas diferentes formas do massivo que nem sempre s\u00e3o p\u00fablicas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Acredito que h\u00e1 pelo menos tr\u00eas tarefas interligadas que um movimento feminista deve enfrentar hoje, e quero falar sobre cada uma delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A primeira consiste em estabelecer uma vis\u00e3o de para onde estamos indo, que tipo de sociedade queremos construir. Obviamente, nosso imagin\u00e1rio coletivo ainda \u00e9 muito limitado por todo o capitalismo que internalizamos e pelo tipo de sociedade em que vivemos. \u00c9 preciso experimentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, h\u00e1 a import\u00e2ncia de construir estrat\u00e9gias. Uma vez que temos uma ideia, em seguida se coloca a quest\u00e3o da estrat\u00e9gia. Uma estrat\u00e9gia implica entender e construir debates, pesquisas e outras formas de entender para onde o capitalismo est\u00e1 indo. O que o capital est\u00e1 planejando? Qual \u00e9 o ponto mais fraco do capitalismo? Qual \u00e9 o terreno mais crucial para unificar o movimento, onde possamos superar a forma como fomos divididas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E terceiro: de quais ferramentas precisamos? De projetos de m\u00eddia, filmes ou document\u00e1rios\u2026 Como constru\u00edmos essa rede? Como constru\u00edmos um terreno comum? Os momentos em que o movimento n\u00e3o est\u00e1 nas ruas ou n\u00e3o enfrenta diretamente o Estado e o capital s\u00e3o momentos de constru\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica fundamental. A luta n\u00e3o pode ser apenas de oposi\u00e7\u00e3o; tem que ser propositiva e construtiva. Essa positividade, essa constru\u00e7\u00e3o, \u00e9 o campo da experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Pode falar um pouco mais sobre essa experimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nossas atividades reprodutivas nos permitem reproduzir a luta naqueles momentos em que n\u00e3o estamos presentes nas ruas de forma massiva. O fazer comum \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para a reprodu\u00e7\u00e3o de uma luta. Na verdade, \u00e9 uma forma de medir nosso sucesso, de medir nosso poder feminista. At\u00e9 que ponto podemos deslocar nossa atividade reprodutiva&nbsp;<em>da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho para a reprodu\u00e7\u00e3o do nosso poder de luta<\/em>? De certa forma, essa \u00e9 a medida do quanto estamos conseguindo em nosso crescimento. Penso que, nesses momentos em que n\u00e3o h\u00e1 tanta mobiliza\u00e7\u00e3o nas ruas, h\u00e1 muito trabalho invis\u00edvel. O trabalho de construir conex\u00f5es e fortalecer as rela\u00e7\u00f5es afetivas entre as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea caracteriza a rejei\u00e7\u00e3o ao feminismo neste momento de neoliberalismo extremo? E quais s\u00e3o as diferen\u00e7as entre hoje e as repres\u00e1lias \u00e0s lutas feministas dos anos 1970?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Existem diferen\u00e7as importantes. Evidentemente, h\u00e1 tamb\u00e9m semelhan\u00e7as, mas talvez a principal diferen\u00e7a seja que, na d\u00e9cada de 1970, t\u00ednhamos que lutar n\u00e3o apenas contra a direita, mas tamb\u00e9m contra a esquerda. Demorou muito at\u00e9 que os homens da esquerda come\u00e7assem a mostrar um pingo de respeito ou a admitir que poderiam ter algo a aprender com o movimento feminista. Algumas das primeiras respostas [de nossos companheiros de luta] foram escandalosas. Na d\u00e9cada de 1960, as mulheres eram pass\u00edveis de receberem assobios, e a resposta foi muitas vezes muito hostil. Isso mudou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Hoje, a resposta da direita \u00e9 quase mais violenta porque houve um longu\u00edssimo processo da direita neste pa\u00eds, os Estados Unidos. Houve um processo de fascistiza\u00e7\u00e3o muito complicado. Penso que o movimento feminista precisa olhar para esse processo com muito mais cuidado do que temos feito at\u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Em que sentido voc\u00ea usa&nbsp;<\/strong><strong><em>fascistiza\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma esp\u00e9cie de concep\u00e7\u00e3o congelada do que \u00e9 a direita. Produzimos esquemas tomados do per\u00edodo fascista, do per\u00edodo nazista, etc., onde h\u00e1 uma ala de direita e depois h\u00e1 uma ala de centro. Hoje isso \u00e9 muito mais complicado e as duas alas est\u00e3o muito mais entrela\u00e7adas do que pode parecer. Houve uma fascistiza\u00e7\u00e3o da economia. A fascistiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia e uma pol\u00edtica que d\u00e1 cada vez mais poder ao capital. Reduz o investimento na reprodu\u00e7\u00e3o e nos espa\u00e7os de poder da classe trabalhadora e cria novas divis\u00f5es e mais profundas entre as pessoas em torno das linhas de classe e ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A ideia de dois blocos, o centro (ou esquerda) e a direita, dos democratas e republicanos, por assim dizer, pode ser muito enganosa. Em todos os pa\u00edses est\u00e1 ocorrendo uma fascistiza\u00e7\u00e3o geral e devemos v\u00ea-la como algo que \u00e9 cont\u00ednua e inseparavelmente produzido pelas pol\u00edticas econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Essa ideia de fascistiza\u00e7\u00e3o das economias lan\u00e7a luz sobre as viol\u00eancias cotidianas. Ao mesmo tempo, voc\u00ea fala em&nbsp;<\/strong><strong><em>milit\u00e2ncia alegre<\/em><\/strong><strong>, mas isso n\u00e3o significa que as condi\u00e7\u00f5es para se organizar sejam f\u00e1ceis.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A milit\u00e2ncia alegre \u00e9 outra forma de dizer que a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 agora. Chega dessa ideia da revolu\u00e7\u00e3o que acontecer\u00e1 no futuro, para que um dia os filhos dos meus filhos vivam melhor. N\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 agora. N\u00f3s temos uma vida. Cada dia \u00e9 precioso. N\u00e3o podemos pensar na revolu\u00e7\u00e3o no futuro. Se lutamos \u00e9 porque a vida que temos \u00e9 insuport\u00e1vel e dolorosa. A luta n\u00e3o pode aumentar nossa dor. Tem que melhorar a nossa vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Temos que descobrir o que significa fazer algo positivo. A primeira coisa que quer dizer \u00e9 sair do isolamento. Lutar significa conectar-se com outras pessoas, n\u00e3o ter que enfrentar sozinha o sistema, a dor e o sofrimento em sua vida. Significa sentir que voc\u00ea tem alguma prote\u00e7\u00e3o. Existe a ideia de gerar uma nova afetividade emocional que vai al\u00e9m da asfixia e da solid\u00e3o do n\u00facleo familiar. Adquirir novos conhecimentos, adquirir novos amantes, n\u00e3o apenas no sentido sexual, mas em pessoas de quem voc\u00ea gosta e que lhe d\u00e3o for\u00e7a. Isso se torna um tecido que permite se conectar com outras pessoas. Essa \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o, e se voc\u00ea n\u00e3o tem isso, n\u00e3o faz sentido lutar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Acredito que podemos dizer que uma das principais quest\u00f5es do movimento \u00e9 a quest\u00e3o do trabalho, e principalmente do trabalho reprodutivo, que foi poss\u00edvel pela pr\u00e1tica coletiva da greve feminista. Voc\u00ea mencionou a recente greve das enfermeiras em Nova York e sua vit\u00f3ria! Um debate tamb\u00e9m est\u00e1 surgindo em torno da palavra \u201ccuidado\u201d. Pode nos explicar um pouco mais o que isso significa? O que pensa sobre a quest\u00e3o do trabalho no movimento feminista?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A luta das enfermeiras tem sido emblem\u00e1tica. \u00c9 uma luta especialmente importante porque \u00e9 uma luta que se d\u00e1 sobre o terreno da reprodu\u00e7\u00e3o, que tradicionalmente tem sido visto pelo movimento revolucion\u00e1rio como um terreno no qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir o poder anticapitalista. Esta luta tem encontrado grandes obst\u00e1culos devido \u00e0 chantagem que se tem feito contra as enfermeiras, que \u00e9 tamb\u00e9m a chantagem contra todas as mulheres que trabalham no lar. A chantagem consiste na ideia de que, se voc\u00ea parar de fazer o seu trabalho, vai prejudicar as pessoas mais pr\u00f3ximas ou vai prejudicar os seus dependentes. Esta tem sido uma ferramenta muito poderosa para acabar com a luta das mulheres em casa e das enfermeiras nos hospitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E as enfermeiras conseguiram romper com isso, recusaram-se a ser chantageadas. Elas pararam de trabalhar e exigiram melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Ao aumentar as horas de trabalho e reduzir a remunera\u00e7\u00e3o, os empregadores criaram uma situa\u00e7\u00e3o em que toda a for\u00e7a de trabalho est\u00e1 esgotada e com maior probabilidade de n\u00e3o poder prestar os servi\u00e7os necess\u00e1rios. Desmistificar isso faz parte do trabalho que estamos tentando fazer na campanha \u201c<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/589646-a-razao-e-rebeldia-do-salario-domestico\">Sal\u00e1rios para o Trabalho Dom\u00e9stico<\/a>\u201d. O trabalho que as mulheres fazem beneficia sobretudo os empregadores. Recusar-se a fazer esse trabalho e rejeitar as condi\u00e7\u00f5es que nos s\u00e3o impostas \u00e9 uma forma de limitar a reprodu\u00e7\u00e3o das pessoas como trabalhadores explor\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Quero acrescentar que a luta das enfermeiras n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica luta. A n\u00edvel internacional assistimos h\u00e1 anos, especialmente na Espanha, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do movimento das trabalhadoras dom\u00e9sticas, das trabalhadoras do lar. \u00c9 um movimento internacional altamente organizado. Muitas delas s\u00e3o imigrantes e lutam em condi\u00e7\u00f5es especialmente prec\u00e1rias. Aquelas que vivem com uma fam\u00edlia (trabalhando como internas), cuja liberdade \u00e9 muito limitada, experimentam uma explora\u00e7\u00e3o sem fim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Mesmo assim, seus movimentos est\u00e3o se expandindo e conseguiram mudan\u00e7as nas leis internacionais, como a famosa Conven\u00e7\u00e3o 189 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, que basicamente diz que as<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/576571-o-trabalho-domestico-socio-oculto-do-capitalismo-entrevista-com-mercedes-d-alessandro\">&nbsp;trabalhadoras dom\u00e9sticas<\/a>&nbsp;t\u00eam direito aos mesmos benef\u00edcios de qualquer outro trabalhador, como jornada regular de trabalho com direito a aposentadoria, f\u00e9rias e assim por diante. Esta \u00e9 a m\u00e3o de obra de mulheres que est\u00e3o sendo exploradas e que, ao mesmo tempo, conseguiram construir um movimento e transformar sua explora\u00e7\u00e3o em poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Precisamos ainda de uma melhor an\u00e1lise da genealogia do conceito de<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/615722-atividades-de-cuidado-a-uberizacao-do-trabalho-pelo-processo-de-plataformizacao-entrevista-especial-com-ana-claudia-moreira-cardoso\">&nbsp;trabalho de cuidados<\/a>. \u00c9 um conceito que nunca usamos na d\u00e9cada de 1970. Muitas organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadoras dom\u00e9sticas o usaram para mostrar que o trabalho que realizam \u2013 especialmente com crian\u00e7as \u2013 n\u00e3o \u00e9 apenas trabalho f\u00edsico, mas que tem implica\u00e7\u00f5es mais amplas. H\u00e1 um debate aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais importantes nos Estados Unidos \u00e9 a da feminista negra Premilla Nadasen, que escreveu uma cr\u00edtica ao conceito de trabalho de cuidados. Ela argumenta que o uso do termo&nbsp;<em>trabalho de cuidados<\/em>&nbsp;em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho das empregadas dom\u00e9sticas minimiza os direitos trabalhistas das mulheres. Existe uma vis\u00e3o de que deveriam ter direitos e n\u00e3o ser t\u00e3o exploradas porque fazem um trabalho de cuidados e n\u00e3o porque s\u00e3o trabalhadoras e t\u00eam direitos trabalhistas. E isso coloca um novo fardo sobre as mulheres trabalhadoras. N\u00e3o basta que essas mulheres fa\u00e7am o trabalho, mas tamb\u00e9m se espera que trabalhem com uma disposi\u00e7\u00e3o emocional particular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nadasen argumenta que esse \u00e9 um uso indevido do conceito de cuidado e que precisamos ter cautela ao usar esse termo. Ela fez muitos trabalhos sobre a hist\u00f3ria das trabalhadoras dom\u00e9sticas nos Estados Unidos, especialmente trabalhadoras dom\u00e9sticas negras. Falar delas como cuidadoras significa que s\u00e3o mulheres que s\u00f3 ser\u00e3o reconhecidas porque est\u00e3o apegadas emocionalmente \u00e0s pessoas para quem trabalham.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Penso que no mundo<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/615804-para-ailton-krenak-falar-em-novo-normal-e-um-discurso-proximo-do-negacionismo\">&nbsp;p\u00f3s-Covid-19<\/a>, a crise das mulheres que fazem trabalho reprodutivo, tanto dom\u00e9stico como em institui\u00e7\u00f5es \u2013 como as<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/616717-piso-salarial-das-enfermeiras-uma-luta-feminista\">&nbsp;enfermeiras<\/a>&nbsp;que arriscam suas vidas no trabalho \u2013, tornou-se mais vis\u00edvel. Agora, muitas delas entram em greve porque est\u00e3o indignadas com o que viram e como foram tratadas, e como as pessoas foram tratadas nos hospitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Outro tema central \u00e9 a quest\u00e3o da justi\u00e7a e da justi\u00e7a reprodutiva. \u00c9 importante abordar a quest\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o negativa ao feminismo e como se relaciona com a ideia do punitivismo. Como as reivindica\u00e7\u00f5es do movimento feminista por justi\u00e7a podem evitar contribuir para a dissemina\u00e7\u00e3o de \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d baseadas na puni\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o da justi\u00e7a reprodutiva \u00e9 muito, muito importante. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte derrubou o precedente legal<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/620656-a-revogacao-da-sentenca-sobre-o-%20aborto-pela-suprema-corte-dos-eua-artigo-de-massimo-faggioli\">&nbsp;Roe v. Wade<\/a>&nbsp;[<em>decis\u00e3o da Suprema Corte que garantia o direito ao aborto nos EUA<\/em>], mas este \u00e9 o \u00faltimo ato de um processo muito longo que tem muitos elementos, muitos epis\u00f3dios e muitas etapas: o assassinato de m\u00e9dicos que fazem abortos, a introdu\u00e7\u00e3o de Estado ap\u00f3s Estado de leis que restringem o direito ao aborto\u2026 Mesmo antes da interven\u00e7\u00e3o da Suprema Corte, em muitos lugares o aborto j\u00e1 era inexistente. Foi criado um movimento que tem perseguido as mulheres que buscam abortar, com pessoas que v\u00e3o \u00e0s portas das cl\u00ednicas gritando: \u201cassassinato! assassinato! assassinato!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o do aborto na hist\u00f3ria do capitalismo est\u00e1 ligada \u00e0 quest\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. O Estado atribui a si o direito de controlar o processo de procria\u00e7\u00e3o, a fim de obrigar as mulheres a se reproduzirem e garantirem um n\u00famero adequado de trabalhadores. Nos \u00faltimos anos, tamb\u00e9m vimos outro aspecto disso. Hoje temos uma classe capitalista internacional que tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o muito mais trabalhadores do que, por exemplo, no s\u00e9culo XVI, porque muit\u00edssimos foram expulsos de suas terras, desencadeando movimentos migrat\u00f3rios em massa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Hoje h\u00e1 uma for\u00e7a de trabalho muito maior. E assim vemos tamb\u00e9m outra fun\u00e7\u00e3o do aborto e do controle estatal da procria\u00e7\u00e3o dos corpos das mulheres, do comportamento das mulheres, que tem a ver com a quest\u00e3o da dissid\u00eancia sexual. Negar o aborto implica disciplinar os corpos e a sexualidade das mulheres. \u00c9 um poder que \u00e9 dado aos homens. Os homens se tornam policiais dos corpos das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Por outro lado, n\u00e3o podemos lutar efetivamente pelo aborto se n\u00e3o lutarmos tamb\u00e9m pelo direito das mulheres de ter filhos. Nos Estados Unidos, vimos que a nega\u00e7\u00e3o da maternidade tem sido t\u00e3o poderosa quanto a nega\u00e7\u00e3o do aborto, especialmente para as mulheres negras, a quem, desde a escravid\u00e3o at\u00e9 hoje, se negou a maternidade. Hoje, para uma mulher negra, principalmente uma mulher negra pobre, engravidar \u00e9 um risco. Ela corre o risco de ser presa, encarcerada e perseguida. Criou-se um sistema de vigil\u00e2ncia que liga hospitais, m\u00e9dicos e enfermeiras \u00e0 pol\u00edcia, de modo que se algo parecer fora do normal durante o procedimento m\u00e9dico a que uma mulher gr\u00e1vida passa, ela corre o risco de ser criminalizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Muitos Estados legislaram algo conhecido como leis de prote\u00e7\u00e3o fetal. Alguns chegaram ao extremo de dizer que a partir do momento em que voc\u00ea est\u00e1 gr\u00e1vida, pode deduzir a gravidez de seus impostos. \u00c9 muito importante evitar cair na posi\u00e7\u00e3o de algumas mulheres na d\u00e9cada de 1970, quando as feministas declararam precipitadamente que o direito ao aborto era fundamental para o direito de decidir. Precisamos decidir no \u00e2mbito da reprodu\u00e7\u00e3o. Decidir significa poder ter filhos e poder n\u00e3o t\u00ea-los. O verdadeiro controle de nossos corpos \u00e9 a possibilidade de fazer as duas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Sobre a quest\u00e3o do<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/594628-a-racionalidade-punitivista-em-debate-a-partir-da-realidade-brasileira-e-a-luz-do-pensamento-do-papa-francisco-entrevista-especial-com-miguel-wedy-e-roberto-romano\">&nbsp;punitivismo<\/a>, penso que este \u00e9 outro problema fundamental do movimento das mulheres. Durante a primeira fase do feminismo nos Estados Unidos, a resposta \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres foi exigir penas mais severas [<em>para os agressores<\/em>]. Est\u00e1 ficando cada vez mais claro que penalidades severas sempre s\u00e3o aplicadas contra pessoas que j\u00e1 s\u00e3o vulner\u00e1veis: negros, imigrantes e pessoas j\u00e1 superexpostas ao encarceramento e \u00e0 brutalidade policial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Afastar-se do punitivismo \u00e9 um grande avan\u00e7o impulsionado pelas<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/166-sem-categoria\/570053-quando-a-mulher-negra-se-movimenta-toda-a-estrutura-da-sociedade-se-movimenta-com-ela\">\u00a0mulheres negras<\/a>, que vivenciaram em primeira m\u00e3o o efeito das pol\u00edticas punitivas em suas comunidades. As mulheres negras sempre entenderam o que a pol\u00edcia faz e o que faz o suposto sistema de justi\u00e7a. Agora essa consci\u00eancia est\u00e1 se expandindo, gra\u00e7as a esse trabalho das feministas negras. Agora temos um movimento feminista abolicionista, que luta para abolir cadeias e pris\u00f5es e acabar com a pol\u00edcia. Parece-me que a pr\u00f3xima tarefa \u00e9 construir alternativas, construir formas de justi\u00e7a baseadas na comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fonte:<br>Texto e imagem &#8211; <mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/federici-a-militancia-e-alegre-porque-a-revolucao-e-agora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Outras Palavras<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para pensadora italiana, mulheres latino-americanas e negras tornaram a for\u00e7a dos v\u00ednculos uma estrat\u00e9gia de luta e lograram massificar e radicalizar o movimento. 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