{"id":1668,"date":"2024-01-18T12:53:58","date_gmt":"2024-01-18T15:53:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=1668"},"modified":"2024-01-18T12:54:20","modified_gmt":"2024-01-18T15:54:20","slug":"o-esclarecimento-da-dialetica-roberto-schwarz-e-a-escola-de-frankfurt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/o-esclarecimento-da-dialetica-roberto-schwarz-e-a-escola-de-frankfurt\/","title":{"rendered":"O Esclarecimento da Dial\u00e9tica: Roberto Schwarz e a Escola de\u00a0Frankfurt"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Por <mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/category\/colaboracoes-especiais\/bruna-della-torre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruna Della Torre<\/a><\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>A partir de Roberto Schwarz, Bruna Della Torre discute a import\u00e2ncia de um influxo te\u00f3rico da periferia para o centro, n\u00e3o apenas em nome da diversidade ou inclus\u00e3o, mas da possibilidade mesma de se construir uma teoria cr\u00edtica do presente que possa compreender a natureza sist\u00eamica do capitalismo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-medium-font-size is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cA figura caricata do ocidentalizante, franc\u00f3filo ou german\u00f3filo, de nome frequentemente aleg\u00f3rico e rid\u00edculo, os ide\u00f3logos do progresso, do liberalismo, da raz\u00e3o, eram tudo forma de trazer \u00e0 cena a moderniza\u00e7\u00e3o que acompanha o Capital. Estes homens esclarecidos mostram-se alternadamente lun\u00e1ticos, ladr\u00f5es, oportunistas, crudel\u00edssimos, vaidosos, parasitas etc.\u201d<br><\/p>\n<cite>Roberto Schwarz, \u201cAs ideias fora do lugar\u201d.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>*Comunica\u00e7\u00e3o apresentada na confer\u00eancia \u201cDie Frankfurter Schule und die Romania\u201d [A Escola de Frankfurt nos pa\u00edses de l\u00ednguas rom\u00e2nicas], organizada pelo Departamento de Estudos Rom\u00e2nicos e pelo Centro de Estudos Apocal\u00edpticos e P\u00f3s-Apocal\u00edpticos da Universidade de Heidelberg em coopera\u00e7\u00e3o com o Instituto de Pesquisa Social (IfS) em Frankfurt.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nos 100 anos desde a cria\u00e7\u00e3o do Instituto de Pesquisa Social, muito se discutiu sobre seu legado. As ideias revolucion\u00e1rias de Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin e seus colegas viajaram para muitos continentes e aclimataram-se a v\u00e1rios contextos, produzindo uma teoria cr\u00edtica que foi, em muitos aspectos, muito al\u00e9m de Frankfurt \u2013 esta cidade espectral, carregada de utopia, como a Amorbach de Adorno ou a Balbec de Proust, cujo espectro cr\u00edtico ainda assombra a teoria social. No entanto, nem tudo escrito fora do circuito oficial do Instituto foi reconhecido como parte de seu legado. At\u00e9 mesmo algumas produ\u00e7\u00f5es internas \u00e0 pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, como teorias feministas, est\u00e3o para ser inclu\u00eddas em sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">De fato, diferen\u00e7as nacionais, geopol\u00edticas e lingu\u00edsticas contribu\u00edram para a lacuna entre as teorias cr\u00edticas de Frankfurt e as da Am\u00e9rica Latina. A tarefa atribu\u00edda a n\u00f3s hoje, isto \u00e9, debater a recep\u00e7\u00e3o da teoria cr\u00edtica nos pa\u00edses de l\u00ednguas rom\u00e2nicas, implica uma discuss\u00e3o sobre as possibilidades de traduzir n\u00e3o apenas textos, mas tamb\u00e9m um quadro te\u00f3rico e pol\u00edtico inteiro para outras forma\u00e7\u00f5es sociais. Isso \u00e9 uma tarefa particularmente complicada, tanto em termos de idiomas \u2013 entender o alem\u00e3o, especialmente o escrito por Theodor W. Adorno, exige esfor\u00e7os compar\u00e1veis a escalar grandes montanhas para n\u00f3s versados nas l\u00ednguas rom\u00e2nicas \u2013 quanto em termos do confronto das teorias da Escola de Frankfurt com outros contextos e realidades, o que exige a flexibilidade de uma contorcionista e treinamento profissional em dial\u00e9tica. No entanto, a recep\u00e7\u00e3o da Escola de Frankfurt em outras paisagens, especialmente na periferia do capitalismo, n\u00e3o deixa de retaliar. Confrontada com forma\u00e7\u00f5es sociais latino-americanas, a teoria cr\u00edtica \u00e9 submetida a um teste de universalidade ao qual deveria ser \u2013 no passado e, hoje, ainda mais \u2013 obrigada a responder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Portanto, nesta apresenta\u00e7\u00e3o, pretendo inverter o caminho sugerido pelo semin\u00e1rio \u2013 que recomenda discutir a recep\u00e7\u00e3o da chamada Escola de Frankfurt nos pa\u00edses de l\u00ednguas rom\u00e2nicas \u2013 e defender, com base em algumas reflex\u00f5es de Roberto Schwarz, a import\u00e2ncia de um influxo te\u00f3rico da periferia para o centro, n\u00e3o apenas em nome da diversidade ou inclus\u00e3o, mas em nome da possibilidade mesma de se construir uma teoria cr\u00edtica do presente que possa compreender a natureza sist\u00eamica do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Neste sentido, vale a pena come\u00e7ar com uma observa\u00e7\u00e3o materialista no sentido mais imediato do termo. A hist\u00f3ria do Instituto de Pesquisa Social esteve conectada \u00e0 Am\u00e9rica Latina desde seu in\u00edcio, n\u00e3o apenas por que seu mecenas, F\u00e9lix Weil, nasceu na Argentina, mas tamb\u00e9m por que o dinheiro que financiou sua funda\u00e7\u00e3o e garantiu sua continuidade por d\u00e9cadas foi principalmente ganho e\/ou extra\u00eddo desse pa\u00eds pela empresa comercializadora de gr\u00e3os do pai de F\u00e9lix, Hermann Weil. Desde o in\u00edcio, o IfS carregou a marca dessa din\u00e2mica centro-periferia, que ainda n\u00e3o \u00e9 completamente reconhecida na Europa. Entretanto, quando algu\u00e9m da periferia do capitalismo pretende ser um especialista na Escola de Frankfurt ou pelo menos us\u00e1-la como refer\u00eancia principal, isso \u00e9 sempre visto como estranho, um pouco ex\u00f3tico ou curioso, e \u00e9 sempre preciso explicar de alguma forma a escolha de se debru\u00e7ar sobre esses autores e justificar como as categorias da teoria cr\u00edtica servem para explicar uma realidade t\u00e3o diversa. Isso ocorre em parte porque Adorno e Horkheimer, por exemplo, n\u00e3o inclu\u00edram o colonialismo em suas reflex\u00f5es sobre o capitalismo<strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">\u00b9<\/mark><\/strong> \u2013 o que certamente teve um custo enorme para uma teoria cr\u00edtica da sociedade, como eu gostaria de comentar aqui. Mas tamb\u00e9m \u00e9 um sintoma de como a parte de baixo do mundo ainda \u00e9 percebida como uma forma\u00e7\u00e3o social n\u00e3o ocidental, pr\u00e9-capitalista, alien\u00edgena \u00e0 modernidade e dela exclu\u00edda; n\u00e3o que isso seja uma vantagem ou desvantagem \u2013 antes de qualquer coisa, \u00e9 um equ\u00edvoco sociol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quero sugerir, nessa linha, que as obras da teoria cr\u00edtica na Am\u00e9rica Latina podem revelar como, por exemplo, a Dial\u00e9tica do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer e parte do pensamento cr\u00edtico do Norte Global ainda padecem de um excedente de Esclarecimento e de alguma insufici\u00eancia de dial\u00e9tica. Isso ocorre, principalmente, se o Esclarecimento \u00e9 abordado como um conjunto de ideias cuja origem \u00e9 o pensamento europeu, como apenas uma hist\u00f3ria da Raz\u00e3o europeia e de suas formas correspondentes de racionalidade. Nesse caso, a lacuna que separa essas duas partes do mundo \u00e9 mantida. A periferia do capitalismo permanece um lugar ex\u00f3tico, com uma ontologia diferente (\u00e9 evidente que h\u00e1 outras ontologias, especialmente se considerarmos os v\u00e1rios pensamentos e viv\u00eancias ind\u00edgenas, mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo). Alguns, como parte do pensamento decolonial, especialmente o presente no chamado Norte Global, encontram nesta alteridade uma solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas da chamada civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. O arranjo pode agradar tanto a parte superior (que encontra um \u201cfora\u201d a partir do qual pode pensar criticamente ou se afirmar como uma civiliza\u00e7\u00e3o) quanto a parte inferior (que finalmente parece ter algo aut\u00eantico a oferecer ao centro, um artigo de curiosidade para aqueles que procuram aventuras antropol\u00f3gicas). Continuamos, como escreveu Oswald de Andrade, com humor e ironia, fornecendo uma \u201cmentalidade pr\u00e9-l\u00f3gica para Sr. L\u00e9vy-Bruhl estudar\u201d (Andrade, 2008, p.175). \u00c9 compreens\u00edvel, sem d\u00favida, que as vertentes cr\u00edticas contempor\u00e2neas procurem um \u201cexterior\u201d ao capitalismo no qual possam se inspirar para negar o sistema predominante; por\u00e9m, ao excluir uma parcela grande da periferia do capitalismo como parte desse processo, algo importante se perde. Outros, como as v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es da Escola de Frankfurt (exceto talvez Marcuse), ignoram a periferia e abandonam uma abordagem sist\u00eamica do capitalismo \u2013 o que leva autores como J\u00fcrgen Habermas, at\u00e9 hoje, a negar as similaridades entre fascismo e colonialismo, apontadas por te\u00f3ricos cr\u00edticos perif\u00e9ricos, como Aim\u00e9 Ces\u00e1ire em Discurso sobre o colonialismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No entanto, quando voc\u00ea \u00e9 marxista na periferia do capitalismo, n\u00e3o h\u00e1 muita alternativa al\u00e9m de ir \u00e0 luta, tentar superar esse dualismo e encontrar o nexo que conecta essas duas realidades aparentemente estranhas. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso abordar a dualidade entre centro e periferia simultaneamente como um fato real e uma apar\u00eancia, uma apar\u00eancia socialmente necess\u00e1ria que obnubila a compreens\u00e3o de que, mais do que apenas um conjunto de ideias, o Esclarecimento \u00e9 principalmente um processo social real, um processo desigual e combinado, para usar um jarg\u00e3o d\u00e9mod\u00e9, mas nem por isso incorreto. A contribui\u00e7\u00e3o de Roberto Schwarz para a cr\u00edtica dial\u00e9tica das formas sociais e liter\u00e1rias est\u00e1 ligada a esse \u00faltimo movimento. O trabalho de Schwarz, em di\u00e1logo pr\u00f3ximo com a Escola de Frankfurt, demonstra como a Dial\u00e9tica do Esclarecimento \u2013 o livro e o processo social a que se refere \u2013 tem outra camada, pouco explorada por Adorno e Horkheimer, a do processo de coloniza\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m pode revelar a falsidade do liberalismo e do capitalismo que Adorno e Horkheimer estavam igualmente interessados em discutir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como se sabe, na d\u00e9cada de 1960, uma gera\u00e7\u00e3o de cr\u00edticos brasileiros e latino-americanos procurou entender a forma\u00e7\u00e3o social colonial do Brasil como uma manifesta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio capitalismo, o que exigia afastar-se dos marxismos dogm\u00e1ticos vinculados aos Partidos Comunistas e \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (que, em geral, associavam o colonialismo e a economia latifundi\u00e1ria a forma\u00e7\u00f5es pr\u00e9-capitalistas), mobilizando o chamado \u201cmarxismo ocidental\u201d de Luk\u00e1cs, Sartre e da Escola de Frankfurt para seguir o caminho do marxismo como um m\u00e9todo, e n\u00e3o como um conjunto doutrin\u00e1rio.<strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">\u00b2<\/mark><\/strong> Para permanecer fiel a Marx, era necess\u00e1rio revisar e expandir algumas de suas categorias. Afinal, como explicar que uma forma\u00e7\u00e3o social como a brasileira at\u00e9 o s\u00e9culo XIX era capitalista, nos termos de Marx, sendo ao mesmo tempo baseada em latif\u00fandio e escravid\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Schwarz estudava a obra de Machado de Assis, o mais importante escritor brasileiro do s\u00e9culo XIX, e transplantou o problema descrito acima para o \u00e2mbito da est\u00e9tica. A ideia era discutir as possibilidades do romance em um pa\u00eds colonial (e baseado na escravid\u00e3o) onde ideias liberais constitu\u00edam ideias importadas, aparentemente fora de lugar. Os esquemas de Luk\u00e1cs da Teoria do Romance e do Romance Hist\u00f3rico serviram como contraponto para sua an\u00e1lise. Seguindo Hegel, Luk\u00e1cs havia mostrado que \u2013 na Europa \u2013 a forma do romance se baseava nos princ\u00edpios de igualdade e competi\u00e7\u00e3o no mercado. Esses princ\u00edpios, conforme ressalta Schwarz, garantiam din\u00e2mica \u00e0 vida social e produziam seu principal agente, o indiv\u00edduo. A promessa liberal de ascens\u00e3o social por meio do trabalho \u00e9 fundamental nesse contexto. A busca pela autorrealiza\u00e7\u00e3o e significado no romance est\u00e1 ancorada no individualismo burgu\u00eas e, como ele, est\u00e1 fadada a terminar em desilus\u00e3o. Levando em considera\u00e7\u00e3o, portanto, que o individualismo \u00e9 o pressuposto est\u00e9tico do romance europeu, Schwarz examina os romances de Machado de Assis para investigar como uma forma como essa pode se aclimatar a um pa\u00eds em que a promessa de ascens\u00e3o social pelo trabalho e, portanto, pelo mercado \u2013 e, assim, do individualismo burgu\u00eas \u2013 est\u00e3o ausentes, bem como o esquema marxista cl\u00e1ssico das classes sociais: proletariado, de um lado, e burguesia, de outro. No Brasil, havia, diferentemente, escravid\u00e3o, latif\u00fandio e exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios, por um lado; e, homens livres, que dependem de rela\u00e7\u00f5es de favor para sobreviver, e o mando, por outro. O que no centro conferia impulso ao romance era truncado na periferia, tornando esta, uma \u201cforma dif\u00edcil\u201d, para utilizar a express\u00e3o de Rodrigo Naves. Ningu\u00e9m antes de Schwarz havia referido o problema da modernidade perif\u00e9rica \u00e0 teoria marxista cl\u00e1ssica do romance. Em outras palavras, Schwarz demonstrou que era necess\u00e1rio repensar as categorias liter\u00e1rias, assim como as categorias da economia pol\u00edtica de Marx foram repensadas para compreender a forma\u00e7\u00e3o social latino-americana. Isto \u00e9, era preciso ampliar a no\u00e7\u00e3o de romance e realismo para demonstrar que o romance perif\u00e9rico de Machado de Assis poderia se encaixar dentro dessa forma. Ao faz\u00ea-lo, Schwarz acabou criando uma teoria ainda hoje considerada uma das grandes explica\u00e7\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o social perif\u00e9rica. Como a obra de Machado de Assis ainda \u00e9 pouco conhecida e considerada muito espec\u00edfica na Europa (comprovando que o interesse pela Am\u00e9rica Latina \u00e9 restrito a certos temas), vou comentar aqui um ensaio que Schwarz escreveu como introdu\u00e7\u00e3o a seus estudos do romance no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O ensaio \u201cAs ideias fora do lugar\u201d introduz o problema da aclimata\u00e7\u00e3o da forma do romance no Brasil com um estudo sobre a din\u00e2mica das classes sociais no pa\u00eds na segunda metade do s\u00e9culo XIX. Schwarz inicia seu ensaio enfatizando como a combina\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o e ideias liberais \u201ctranscrita[s] em parte na Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira de 1824\u201d (Schwarz, 2000, p.12) incomodava os intelectuais brasileiros. O autor come\u00e7a o ensaio com um panfleto contempor\u00e2neo a Machado de Assis, que afirma que \u201ctoda ci\u00eancia tem princ\u00edpios, de que deriva o seu sistema. Um dos princ\u00edpios da Economia Pol\u00edtica \u00e9 o trabalho livre. Ora, no Brasil domina o fato \u201cimpol\u00edtico e abomin\u00e1vel\u201d da escravid\u00e3o\u201d (Schwarz, 2000, p.11).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Este argumento, segundo Schwarz, colocaria \u201co Brasil fora do sistema da ci\u00eancia [\u2026] das Luzes, Progresso, Humanidade, etc. [\u2026]\u201d (Schwarz, 2000, p.11), ou seja, do Esclarecimento, o que incomodaria profundamente os intelectuais progressistas. Ao mesmo tempo, afirma ele, a combina\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o e ideias liberais era uma realidade inevit\u00e1vel que constituiria, \u201cuma com\u00e9dia ideol\u00f3gica [\u2026] diferente da europeia\u201d (Schwarz, 2000, p.11). Schwarz afirma que \u00e9 evidente \u201cque a liberdade do trabalho, a igualdade perante a lei e, de modo geral, o universalismo eram ideologia na Europa tamb\u00e9m; elas encobriam a explora\u00e7\u00e3o do trabalho, mas eram \u2018coerentes\u2019 enquanto apar\u00eancia. Entre n\u00f3s, as mesmas ideias seriam falsas num sentido diverso, por assim dizer, original\u201d (2000, p.11). Sendo assim, ressalta-se que essa ex-col\u00f4nia, um pa\u00eds muito recentemente independente, resultou de um empreendimento comercial e capitalista baseado na venda de itens prim\u00e1rios como a\u00e7\u00facar e caf\u00e9 \u2013 e, por isso, era familiarizada com as ideias liberais de lucro, que contradiriam apenas teoricamente a realidade da escravid\u00e3o. O primeiro efeito ideol\u00f3gico dessa combina\u00e7\u00e3o, diz Schwarz, \u00e9 que no Brasil, todos sempre souberam que o liberalismo nada tinha a ver com liberdade ou que a liberdade nada tinha a ver com democracia. Sem querer extrapolar, mas j\u00e1 extrapolando, vale dizer que, hoje, de certa forma, essa consci\u00eancia est\u00e1 muito mais do lado do Bolsonarismo do que de boa parte dos progressistas. \u201cO teste da realidade\u201d, diz Schwarz, \u201cn\u00e3o parecia importante\u201d (Schwarz, 2000, p.15) \u2013 outro ponto fundamental para entender a extrema-direita contempor\u00e2nea, a quem o di\u00e1logo \u201cracional\u201d e \u201ccient\u00edfico\u201d n\u00e3o convence.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quando o trabalho assalariado se tornou uma disposi\u00e7\u00e3o mais lucrativa, os donos de pessoas escravizadas, diz ele, foram os primeiros a defender Adam Smith. Al\u00e9m disso, outro aspecto central do liberalismo capitalista no Brasil tamb\u00e9m estava ausente: a racionaliza\u00e7\u00e3o do processo de produ\u00e7\u00e3o, parcialmente bloqueada pelo modelo de trabalho escravo, baseado na ocupa\u00e7\u00e3o durante todo o dia e n\u00e3o na tentativa de diminuir o tempo de trabalho. Assim, essa combina\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria de empreendimento capitalista e escravid\u00e3o como rela\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de produ\u00e7\u00e3o \u2013 que deu \u00e0 forma\u00e7\u00e3o social brasileira um aspecto de \u201cornitorrinco\u201d, segundo a formula\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo brasileiro Francisco de Oliveira \u2013 produziu uma din\u00e2mica ideol\u00f3gica que estava em algum lugar entre esses dois polos, resultando na seguinte estrutura de classes:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><em>o latifundi\u00e1rio, o escrav[izado] e o \u201chomem livre\u201d, na verdade dependente. Entre os primeiros dois a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 clara, \u00e9 a multid\u00e3o dos terceiros que nos interessa. Nem propriet\u00e1rios nem prolet\u00e1rios, seu acesso \u00e0 vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. O agregado \u00e9 a sua caricatura. O favor \u00e9, portanto, o mecanismo atrav\u00e9s do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo tamb\u00e9m outra, a dos que t\u00eam. [\u2026] O favor \u00e9 a nossa media\u00e7\u00e3o quase universal \u2013 e sendo mais simp\u00e1tico do que o nexo escravista, a outra rela\u00e7\u00e3o que a col\u00f4nia nos legara, \u00e9 compreens\u00edvel que os escritores tenham baseado nele a sua interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil, involuntariamente disfar\u00e7ando a viol\u00eancia, que sempre reinou na esfera da produ\u00e7\u00e3o. (Schwarz, 2000, p.16-17)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">H\u00e1 duas observa\u00e7\u00f5es importantes nessa passagem. A primeira, relativa \u00e0 supervaloriza\u00e7\u00e3o explicativa do \u201cfavor\u201d e da depend\u00eancia \u2013 uma rela\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo interna e externa \u00e0 produ\u00e7\u00e3o propriamente dita \u2013 por intelectuais que buscavam evitar a hist\u00f3ria de viol\u00eancia do pa\u00eds. Um modo de se relacionar que se sobrep\u00f5e ideologicamente \u00e0 realidade bruta do sistema produtivo. A segunda diz respeito a uma tor\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Em outras palavras, trata-se do fato de que as ideias liberais que, na Europa, eram uma nega\u00e7\u00e3o determinada das ideias de desigualdade natural entre as pessoas, poder pessoal e de terra no feudalismo, no Brasil, foram combinadas com escravid\u00e3o e depend\u00eancia. De certa forma, a periferia reuniu no mesmo tempo e lugar o que na Europa foi separado por duas eras e modos de produ\u00e7\u00e3o diferentes. Por isso, a din\u00e2mica perif\u00e9rica seria caracterizada, portanto, como uma \u201cideologia de segundo grau\u201d, diz Schwarz, e operaria predominantemente na interse\u00e7\u00e3o entre essas tr\u00eas classes \u2013 vale ressaltar que esse movimento j\u00e1 envolve uma amplia\u00e7\u00e3o da categoria de classe, pois estamos falando de \u201cclasse\u201d em uma sociedade que, ao mesmo tempo, \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 uma sociedade baseada em classes. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o, o liberalismo garantir\u00e1, para homens livres e propriet\u00e1rios de terras, sua parcela de participa\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es modernas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><em>as ideias da burguesia \u2013 cuja grandeza s\u00f3bria remonta ao esp\u00edrito p\u00fablico e racionalista da Ilustra\u00e7\u00e3o \u2013 tomam fun\u00e7\u00e3o de \u2026 ornato e marca de fidalguia: atestam e festejam a participa\u00e7\u00e3o numa esfera augusta, no caso a da Europa que se \u2026 industrializa. O quiproqu\u00f3 das ideias n\u00e3o podia ser maior. [\u2026] no contexto brasileiro, o favor assegurava \u00e0s duas partes, em especial \u00e0 mais fraca, de que nenhuma \u00e9 escrava. Mesmo o mais miser\u00e1vel dos favorecidos via reconhecida nele, no favor, a sua livre pessoa, o que transformava presta\u00e7\u00e3o e contrapresta\u00e7\u00e3o, por modestas que fossem, numa cerim\u00f4nia de superioridade social, valiosa em si mesma. (Schwarz, 2000, p.20)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Assim, o l\u00e9xico burgu\u00eas de igualdade, m\u00e9rito, trabalho e raz\u00e3o servir\u00e1 \u00e0 distin\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e0 igualdade \u2013 falsificando a realidade de uma maneira diferente da que o liberalismo fez na Europa. O que est\u00e1 em jogo aqui \u00e9 uma invers\u00e3o entre forma e fun\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o forma e conte\u00fado, como se costuma imaginar). Se considerarmos que Schwarz escreveu esse livro em plena ditadura militar, ainda que estivesse interessado nos problemas do romance de Machado de Assis, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil enxergar que h\u00e1 tamb\u00e9m nesse ensaio um esfor\u00e7o geneal\u00f3gico de compreender as origens e particularidades do autoritarismo brasileiro e sua rela\u00e7\u00e3o tensa com o ide\u00e1rio liberal. O passado colonial reatualizado no apoio das classes m\u00e9dias brancas \u00e0 ditadura militar e, hoje, ao bolsonarismo, faz dessa din\u00e2mica algo central para o Brasil do s\u00e9culo XX e XXI, n\u00e3o s\u00f3 do XIX. Retrospectivamente, \u00e9 poss\u00edvel enxergar parcialmente nos homens livres, nos agregados do XIX, os predecessores das classes m\u00e9dias brancas posteriores \u2013 que ainda precisam se diferenciar da classe trabalhadora negra prolet\u00e1ria e precarizada que remete ao passado colonial que o pa\u00eds quer esquecer, embora se beneficie diariamente dele. Os pap\u00e9is de parede com paisagens europeias ostentados pelas classes altas do XIX s\u00e3o substitu\u00eddos por bon\u00e9s com a bandeira estadunidense e por r\u00e9plicas da est\u00e1tua da liberdade no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Assim, \u00e9 poss\u00edvel apreender como essas observa\u00e7\u00f5es de Schwarz j\u00e1 adicionam uma dimens\u00e3o suplementar \u00e0 dial\u00e9tica do esclarecimento, n\u00e3o negando, mas complexificando-a ao incluir a coloniza\u00e7\u00e3o na defini\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio capitalismo como seu contraponto necess\u00e1rio e mostrando como a ideologia liberal funciona na periferia \u2013 o que tamb\u00e9m revela algo sobre o centro. Ou seja:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><em>Imersos que estamos, ainda hoje, no universo do Capital, que n\u00e3o chegou a tomar forma cl\u00e1ssica no Brasil, tendemos a ver esta combina\u00e7\u00e3o como inteiramente desvantajosa para n\u00f3s, composta s\u00f3 de defeitos. Vantagens n\u00e3o h\u00e1 de ter tido; mas para apreciar devidamente a sua complexidade considere-se que as ideias da burguesia, a princ\u00edpio voltadas contra o privil\u00e9gio, a partir de 1848 se haviam tornado apolog\u00e9tica: a vaga das lutas sociais na Europa mostrara que a universalidade disfar\u00e7a antagonismos de classe. Portanto, para bem lhe reter o timbre ideol\u00f3gico \u00e9 preciso considerar que o nosso discurso impr\u00f3prio era oco tamb\u00e9m quando usado propriamente. (Schwarz, 2000, p.20-21)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Schwarz recorre ao famoso ensaio de Luk\u00e1cs sobre a decad\u00eancia ideol\u00f3gica da burguesia para sugerir que, entre n\u00f3s, esta nunca foi uma classe revolucion\u00e1ria e, se n\u00e3o nos concedeu vantagens, ao menos nos permitiu passar por menos ing\u00eanuos que os europeus \u2013 uma esp\u00e9cie de malandragem, para usar a express\u00e3o de Antonio Candido, que at\u00e9 hoje diferencia a periferia e o centro. Portanto, a ideia n\u00e3o \u00e9 insistir na falsidade das ideias liberais, como muitos interpretaram erroneamente, mas observar como elas funcionam e como essa falsidade, esse deslocamento, faz parte de sua verdade \u2013 um movimento que, de certa forma, tamb\u00e9m guia a Dial\u00e9tica do Esclarecimento. Schwarz antecipa em muitos anos o que Fredric Jameson chamaria de perda do aspecto performativo das ideologias no p\u00f3s-modernismo e o que Slavoj \u017di\u017eek chamaria de capitalismo c\u00ednico. Isso significa que de alguma forma o que \u00e9 considerado, at\u00e9 hoje, uma raz\u00e3o para o atraso na periferia do capitalismo \u2013 essas formas \u201cFrankensteinianas\u201d \u2013 estava revelando uma tend\u00eancia do capitalismo em todo o mundo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><em>Inscritas num sistema que n\u00e3o descrevem nem mesmo em apar\u00eancia, as ideias da burguesia viam infirmada j\u00e1 de in\u00edcio, pela evid\u00eancia di\u00e1ria, a sua pretens\u00e3o de abarcar a natureza humana. Se eram aceitas, eram-no por raz\u00f5es que elas pr\u00f3prias n\u00e3o podiam aceitar. Em lugar de horizonte, apareciam sobre um fundo mais vasto, que as relativiza: as idas e vindas de arb\u00edtrio e favor. Abalava-se na base a sua inten\u00e7\u00e3o universal. Assim, o que na Europa seria verdadeira fa\u00e7anha da cr\u00edtica, entre n\u00f3s podia ser a singela descren\u00e7a de qualquer pachola, para quem utilitarismo, ego\u00edsmo, formalismo e o que for, s\u00e3o uma roupa entre outras, muito da \u00e9poca, mas desnecessariamente apertada. (Schwarz, 2000, p.20-21)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Voltando ao romance. Schwarz est\u00e1 preocupado em provar que Machado de Assis \u00e9 um escritor realista, especialmente em seu livro mais importante, Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, uma hist\u00f3ria narrada por um homem morto, um propriet\u00e1rio de terras cheio de humores e volubilidade. Assim, ele confronta Balzac, Flaubert e Scott (via Luk\u00e1cs e Adorno), apenas para mostrar que um romance de desilus\u00e3o nunca poderia funcionar em uma realidade como a brasileira, e at\u00e9 pareceria ing\u00eanuo nesse contexto. Em \u201cBra\u00e7o de ferro com Luk\u00e1cs\u201d, Schwarz afirma sobre o romance realista europeu:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><em>Era perfeitamente natural que os brasileiros na segunda metade do XIX tentassem escrever romances de acordo com o modelo franc\u00eas, digamos Balzac. Qual era o resultado? Como todos sabemos, no centro do romance balzaquiano h\u00e1 uma figura muito forte que toma os ideais da sociedade burguesa ao p\u00e9 da letra e quer dar-lhes realidade, o que tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de autorrealiza\u00e7\u00e3o. No processo, essas figuras precisam enfrentar as realidades do dinheiro e descobrem que a sonhada autorrealiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel [\u2026] este modelo de narrativa exige personagens de for\u00e7a superior, mas que passam por um processo que tamb\u00e9m est\u00e1 em andamento nas vidas das figuras secund\u00e1rias. As contradi\u00e7\u00f5es centrais reverberam na periferia do enredo, produzindo um todo consistente, de imenso alcance cr\u00edtico. Por outro lado, quando um escritor brasileiro, \u00e1vido por trazer a modernidade a seu pa\u00eds, tenta aplicar esse modelo \u00e0s realidades locais, o resultado s\u00f3 pode ser diferente. [\u2026] Estas personagens fazem parte do mundo da escravid\u00e3o e do paternalismo, no qual o favor \u2013 com seus meandros espec\u00edficos de submiss\u00e3o, adula\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 a pr\u00e1tica universal. Pois bem: se n\u00e3o h\u00e1 direitos individuais ou universais, se a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que existe \u00e9 a depend\u00eancia pessoal, quem seria idiota a ponto de se comportar absolutamente como um her\u00f3i balzaquiano? (Schwarz, 2019, p.127)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ent\u00e3o, evidentemente, o realismo de um romance brasileiro deveria ter outra caracter\u00edstica. Machado escolhe um narrador morto, que passar\u00e1 pelas esta\u00e7\u00f5es de sua vida rica e desempregada sem nenhum projeto. Conforme destaca Schwarz, todas as suas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o incivilizadas e violentas, mas, ao mesmo tempo, pairam sobre a responsabilidade moral. Machado escolhe o ponto de vista desse propriet\u00e1rio de terras, adere a ele para dissec\u00e1-lo e exp\u00f4-lo. Sua ironia (que mais tarde seria comparada \u00e0 de Thomas Mann) e volubilidade imitariam um comportamento de classe para o qual o liberalismo, \u201ca ideologia mais prestigiosos do Ocidente\u201d, est\u00e1 destinado a cortar a \u201cfigura rid\u00edcula de uma mania entre manias\u201d. A pot\u00eancia da interpreta\u00e7\u00e3o de Schwarz, no \u00e2mbito da cr\u00edtica liter\u00e1ria, tem a ver tamb\u00e9m com uma visada extremamente conectada \u00e0s abordagens da Escola de Frankfurt. Essa, ao estudar o fascismo, sempre salientou que era preciso estudar o ponto de vista e a estrutura psicol\u00f3gica do fascista, e n\u00e3o de suas v\u00edtimas, pois o que explica o preconceito reside naquele, n\u00e3o nestas. De certo modo, \u00e9 isso tamb\u00e9m que descobre Schwarz ao ler Machado, que o movimento cr\u00edtico mais potente da sociedade brasileira naquele momento n\u00e3o consistia na den\u00fancia da escravid\u00e3o, mas na disseca\u00e7\u00e3o do mundo e dos personagens do mando e daqueles a eles submetidos, bem como da fun\u00e7\u00e3o complexa que o liberalismo tinha nesse arranjo. Schwarz investiga, assim, as origens sociais e estruturais da tend\u00eancia (n\u00e3o generaliz\u00e1vel, mas de consider\u00e1vel import\u00e2ncia sociol\u00f3gica), afinada ao fascismo, de \u201cidentifica\u00e7\u00e3o com os de cima\u201d criada e legada pela condi\u00e7\u00e3o colonial. A defesa da liberdade (de express\u00e3o, de armamento etc.), hoje em dia, atualiza o mesmo mecanismo colonial figurado em Machado: pressup\u00f5e a n\u00e3o liberdade da maior parte da popula\u00e7\u00e3o, a reposi\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o brutal e violenta dos de baixo, o encarceramento da popula\u00e7\u00e3o negra, a explora\u00e7\u00e3o intensa do trabalho reprodutivo feito pelos setores subalternos, como as mulheres. \u00c9 uma liberdade que se afirma a partir da n\u00e3o-liberdade, da morte, da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, da destrui\u00e7\u00e3o da natureza, da submiss\u00e3o ao imperialismo internacional, mas apela aos herdeiros dos homens livres, que conhecem os riscos e as agruras de se descer um degrau na pir\u00e2mide social. \u00c9 uma liberdade como privil\u00e9gio, que num pa\u00eds sem direitos, torna-se, naturalmente, uma mercadoria cobi\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Schwarz n\u00e3o s\u00f3 mostra o favor como um mecanismo social formalizado que organiza o romance, mas transplanta os aspectos mais importantes dos estudos de autoritarismo para problemas est\u00e9ticos. Br\u00e1s Cubas \u00e9 uma alegoria do autoritarismo brasileiro, fruto da aclimata\u00e7\u00e3o do liberalismo no Brasil. Ao contr\u00e1rio do que diz o narrador do romance, ele passou a muitos, \u00e0 grande parte da classe dominante brasileira, o legado de sua mis\u00e9ria. Nesse sentido, Schwarz demonstra, como Adorno e Horkheimer, como o autoritarismo nasce do liberalismo, mas de outra forma por aqui \u2013 o que exigiria uma revis\u00e3o das pr\u00f3prias teorias frankfurtianas do autoritarismo. Essa visada insere e ao mesmo tempo exclui Schwarz do problema ou ao menos da \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o\u201d com o problema da forma\u00e7\u00e3o nacional \u2013 para a qual a contradi\u00e7\u00e3o entre liberalismo e escravid\u00e3o, entre moderniza\u00e7\u00e3o e atraso \u00e9 um problema e que Schwarz ironiza em seu ensaio. Tamb\u00e9m Schwarz por via de Machado, como Adorno e Horkheimer, talvez mais ainda, desconfia do conceito de na\u00e7\u00e3o e de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Para entender uma forma liter\u00e1ria, Schwarz tentou percorrer a forma\u00e7\u00e3o social do Brasil e investigar uma particularidade percebida na vida cotidiana na Am\u00e9rica Latina que tamb\u00e9m envolvia refletir sobre o processo colonial, que \u00e9 uma parte intr\u00ednseca e internacional do capitalismo. Assim como diversos antagonismos saem de m\u00e3os dada no Brasil, tamb\u00e9m as refer\u00eancias que na Europa exigiam partidarismo \u2013 Luk\u00e1cs, Adorno, Benjamin, Brecht \u2013 se combinam na obra de Schwarz para mostrar que Machado de Assis utiliza procedimentos modernistas para alcan\u00e7ar uma forma realista; isto \u00e9, realismo e modernismo, que, no centro, estiveram temporalmente separados, se re\u00fanem tamb\u00e9m aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Para concluir, vale ressaltar como, embora mediadas pela dial\u00e9tica, as teorias relacionadas ao capitalismo monopolista informam o livro de Adorno e Horkheimer. Eles entendem isso como um resultado e, ao mesmo tempo, uma deriva\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do capitalismo liberal. Uma perspectiva que leve em conta a coloniza\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o entre a periferia do capitalismo e o capitalismo liberal (e que levasse em conta Machado de Assis) talvez n\u00e3o incorresse nessas antinomias. Portanto, as forma\u00e7\u00f5es sociais perif\u00e9ricas, com suas pr\u00e1ticas de favor e volubilidade entrela\u00e7adas ao liberalismo, foram e s\u00e3o, como Schwarz destaca, \u201co efeito local e opaco de um mecanismo planet\u00e1rio\u201d (Schwarz, 2000, p.30): um mergulho mais profundo na dial\u00e9tica do esclarecimento que, como eu gostaria de sugerir, tamb\u00e9m esclarece a dial\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No final das contas, esses cem anos do Instituto de Pesquisa Social tamb\u00e9m suscitam a pergunta: em que hemisf\u00e9rio fica Frankfurt?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Bruna Della Torre <\/strong>\u00e9 p\u00f3s-doutoranda no Departamento de Sociologia da Unicamp, onde estuda ind\u00fastria cultural e agita\u00e7\u00e3o fascista no Brasil. Editora executiva da revista Cr\u00edtica Marxista, pesquisadora associada ao Laborat\u00f3rio de Estudos de Teoria e Mudan\u00e7a Social (Labemus) e membra fundadora da coletiva Marxismo Feminista. Realizou p\u00f3s-doutorado no Departamento de Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada, doutorado em Sociologia (bolsista Capes) e mestrado em Ci\u00eancia Social (bolsista Fapesp), todos na Universidade de S\u00e3o Paulo. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Nota<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">\u00b9<\/mark><\/strong> Na Dial\u00e9tica do Esclarecimento, constam apenas tr\u00eas refer\u00eancias ao conceito. Na problem\u00e1tica passagem referente \u00e0s mulheres no excurso \u201cJuliette ou Esclarecimento e a moral\u201d: \u201cMas a mulher traz o estigma da fraqueza e por causa dessa fraqueza est\u00e1 em minoria, mesmo quando numericamente \u00e9 superior ao homem. Como no caso dos aut\u00f3ctones subjugados nas primeiras forma\u00e7\u00f5es estatais, assim como no caso dos ind\u00edgenas nas col\u00f4nias, atrasados relativamente aos conquistadores em termos de organiza\u00e7\u00e3o e armas, bem como no caso dos judeus entre os arianos, o desamparo da mulher \u00e9 a justifica\u00e7\u00e3o legal de sua opress\u00e3o\u201d (Adorno e Horkheimer, 2002, p. 73); em \u201cElementos do antissemitismo: Limites do Esclarecimento\u201d quando intentam uma leitura sociol\u00f3gica mais imediata do antissemitismo: \u201cEis por que o judeu permaneceu sempre um tutelado, dependente dos imperadores, dos pr\u00edncipes ou do Estado absolutista. Todos eles foram, em certa \u00e9poca, economicamente adiantados em face da popula\u00e7\u00e3o atrasada. Na medida em que podiam usar o judeu como intermedi\u00e1rio, eles o protegiam das massas que tinham de pagar a conta do progresso. Os judeus foram os colonizadores do progresso. Desde a \u00e9poca em que ajudaram, como comerciantes, a difundir a civiliza\u00e7\u00e3o romana entre os gentios europeus, eles sempre foram, em conson\u00e2ncia com sua religi\u00e3o patriarcal, os representantes de condi\u00e7\u00f5es citadinas, burguesas e, por fim, industriais\u201d (Adorno e Horkheimer, 2002, p. 114); e, por fim, em \u201cNotas e esbo\u00e7os\u201d quando afirmam que \u201co destino dos escravos da Antiguidade foi o destino de todas as v\u00edtimas at\u00e9 os modernos povos colonizados: eles tinham que passar como sendo os piores. Havia duas ra\u00e7as na natureza: os superiores e os inferiores. A liberta\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo europeu realizou-se em liga\u00e7\u00e3o com uma transforma\u00e7\u00e3o geral da cultura, que aprofundava cada vez mais a divis\u00e3o, \u00e0 medida que diminu\u00eda a coer\u00e7\u00e3o f\u00edsica exercida de fora\u201d (Adorno e Horkheimer, 2002, p. 150-151).<br><br><strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">\u00b2 <\/mark><\/strong>Selecionei um aspecto espec\u00edfico de um contexto mais amplo sobre a recep\u00e7\u00e3o da teoria cr\u00edtica no Brasil conforme solicitado pela proposta do evento, mas vale ressaltar que a pesquisa baseada na Escola de Frankfurt no Brasil teve in\u00edcio por volta da d\u00e9cada de 1960 e abrangeu diversos campos do conhecimento. Como destaca o estudioso brasileiro Gabriel Cohn, nos anos 1960, a principal refer\u00eancia no pa\u00eds, especialmente nas ci\u00eancias sociais, era A personalidade autorit\u00e1ria, presente nas obras de Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. Cohn \u00e9 um dos grandes receptores da obra de Adorno no Brasil, sendo tradutor, comentarista e fundador de uma sociologia da comunica\u00e7\u00e3o baseada no conceito de ind\u00fastria cultural. Junto a ele, autores como Jeanne Marie Gagnebin, Barbara Freitag, S\u00e9rgio Paulo Rouanet e Jos\u00e9 Guilherme Alves Merquior introduziram essa tradi\u00e7\u00e3o no Brasil. Muitos deles, assim como Schwarz, mantinham rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com a Alemanha: eram alem\u00e3es ou emigrados de pa\u00edses que tinham essa l\u00edngua como prim\u00e1ria, filhos de imigrantes ou diplomatas, ou seja, possu\u00edam as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para importar essa tradi\u00e7\u00e3o \u2013 o que n\u00e3o lhes retira o m\u00e9rito, mas atesta como a barreira lingu\u00edstica \u00e9 uma das grandes dificuldades do di\u00e1logo acad\u00eamico globalizado, marca da desigualdade que comanda as rela\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas. Na mesma d\u00e9cada, em 1968, foi traduzido o livro O Homem Unidimensional, de Herbert Marcuse, que teve impacto na resist\u00eancia contra a ditadura. Nessa e nas d\u00e9cadas seguintes, uma parte significativa do debate em torno da teoria cr\u00edtica tamb\u00e9m se desenvolveria nos campos da est\u00e9tica e da literatura, com tradu\u00e7\u00f5es de Luk\u00e1cs, Adorno e Benjamin. Foi dentro desse contexto que uma das leituras cr\u00edticas mais essenciais da Escola foi formulada e que viso comentar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">ADORNO, Theodor W.; Horkheimer, Max. Dial\u00e9tica do Esclarecimento. Fragmentos Filos\u00f3ficos. Rio de Janeiro: Zahar, 2002 (ebook).<br>ANDRADE, Oswald de. \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d. In Vanguardas Latino-Americanas: Pol\u00eamicas, Manifestos e Textos Cr\u00edticos, org. por Schwartz, Jorge (S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, 2008), pp. 145-181.<br>SCHWARZ, Roberto. \u201cAs ideias fora do lugar\u201d. In Ao vencedor as batatas. S\u00e3o Paulo: Duas Cidades\/Editora 34), pp. 9-32.<br>SCHWARZ, Roberto. \u201cBra\u00e7o de Ferro com Luk\u00e1cs\u201d, Seja como for. Entrevistas, retratos, documentos (S\u00e3o Paulo: Duas Cidades\/Editora 34, 2019), pp. 117-154.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<br>Texto e imagem &#8211; <mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2023\/12\/18\/o-esclarecimento-da-dialetica-roberto-schwarz-e-a-escola-de-frankfurt\/#prettyPhoto\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Blog da Boitempo<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruna Della Torre A partir de Roberto Schwarz, Bruna Della Torre discute a import\u00e2ncia de um influxo te\u00f3rico da periferia para o centro, n\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":169,"featured_media":1672,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-1668","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo-de-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/users\/169"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1668"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1673,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1668\/revisions\/1673"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1672"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}