{"id":1906,"date":"2024-03-05T12:22:32","date_gmt":"2024-03-05T15:22:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=1906"},"modified":"2024-03-05T12:22:33","modified_gmt":"2024-03-05T15:22:33","slug":"o-holocausto-e-seus-usos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/o-holocausto-e-seus-usos\/","title":{"rendered":"O Holocausto e seus usos"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Por<mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7265831200247186\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ANT\u00d4NIO DAVID<\/a><\/strong><\/mark><strong>*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>\u00c9 preciso discernimento para saber em que sentido o Holocausto n\u00e3o pode ser comparado a outros eventos, em que sentido pode ser comparado, e em que sentido deve ser comparado<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como quer que se nomeie os acontecimentos atualmente em curso em Israel e na Palestina, tendo como epicentro a Faixa de Gaza e desdobramentos na Cisjord\u00e2nia e no sul do L\u00edbano, e repercuss\u00f5es na regi\u00e3o e globalmente, trata-se de uma ocasi\u00e3o oportuna para examinar mais de perto a percep\u00e7\u00e3o do Holocausto como um \u201cevento inacredit\u00e1vel\u201d e os efeitos dessa percep\u00e7\u00e3o. A express\u00e3o foi empregada pelo historiador Christopher Browning, que em suas pesquisas notou tratar-se de \u201cum tema recorrente das testemunhas\u201d do Holocausto, inclusive entre os sobreviventes (Browning, 1992, p. 25). Ela se liga ao debate mais amplo, renovado exatamente pelo campo dos estudos sobre o Holocausto, dos \u201climites da representa\u00e7\u00e3o\u201d: de certa \u00f3tica, o Holocausto seria um evento \u201cirrepresent\u00e1vel\u201d.<strong><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_edn1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o \u00e9 demais notar que esse debate ecoa a crise aberta pelo chamado \u201cp\u00f3s-modernismo\u201d nas Ci\u00eancias Humanas a partir dos anos 1960, em particular na hist\u00f3ria.<strong><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_edn2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[2]<\/a>\u00a0<\/strong>Tamb\u00e9m por isso, \u00e9 o caso de perguntar: que tipo de mem\u00f3ria hist\u00f3rica e de rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria (saber acad\u00eamico) deriva da \u00eanfase no car\u00e1ter inacredit\u00e1vel, indiz\u00edvel, impens\u00e1vel e irrepresent\u00e1vel do hist\u00f3rico? E quais s\u00e3o os desdobramentos pr\u00e1ticos, sobretudo sociais e pol\u00edticos, dessa rela\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>De evento m\u00edtico a doutrina e discurso normativo e prescritivo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">&nbsp;Oferecer respostas a essas perguntas obviamente n\u00e3o \u00e9 tarefa simples, e n\u00e3o pretendo faz\u00ea-lo aqui. Meu objetivo \u00e9 estabelecer algumas hip\u00f3teses, apontar alguns caminhos, para os quais Theodor W. Adorno oferece subs\u00eddios inestim\u00e1veis, em&nbsp;<em>Educa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s Auschwitz<\/em>&nbsp;(1965\/1967) e em outros trabalhos, n\u00e3o obstante ele pr\u00f3prio n\u00e3o ter tomado parte no debate, que \u00e9 posterior \u00e0 sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Se acompanharmos com aten\u00e7\u00e3o o argumento de Theodor Adorno, compreende-se que o essencial na percep\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em chamar a aten\u00e7\u00e3o para a singularidade hist\u00f3rica do acontecimento (ou conjunto de acontecimentos) que se convencionou chamar de \u201cHolocausto\u201d \u2013 uma percep\u00e7\u00e3o sem d\u00favida alimentada pelo emprego de uma palavra espec\u00edfica, distin\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se faz quando se fala de outros genoc\u00eddios contempor\u00e2neos. Na verdade, a ideia de que at\u00e9 o momentonada se compara ao exterm\u00ednio planejado de judeus praticado pelos nazistas e seus aliados na Segunda Guerra Mundial n\u00e3o \u00e9 sem ambiguidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Pode-se considerar que nada se compara a esse evento n\u00e3o pela contabilidade dos mortos e sobreviventes \u2013 como diz Theodor Adorno, \u201co simples fato de citar n\u00fameros j\u00e1 \u00e9 humanamente indigno, quanto mais discutir quantidades\u201d (Adorno, 1995, p. 120) \u2013, embora muitos o fa\u00e7am, mas pelo fato de que, nos genoc\u00eddios que tiveram lugar antes e depois da Segunda Guerra Mundial, provavelmente n\u00e3o houve nada que se comparasse ao efetivo emprego dos campos de exterm\u00ednio como m\u00e1quina de matar em escala industrial. Se houve ou n\u00e3o, essa \u00e9 uma quest\u00e3o dif\u00edcil de ser respondida e depende de cuidadosa e longa investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, coletiva, n\u00e3o se reduzindo a um dilema de sim ou n\u00e3o \u2013 e n\u00e3o \u00e9 certo que algum dia se possa chegar a uma conclus\u00e3o amplamente aceita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O essencial na vis\u00e3o de um \u201cevento inacredit\u00e1vel\u201d n\u00e3o est\u00e1, portanto, na escala do evento, mas na expuls\u00e3o deste acontecimento para fora do tempo hist\u00f3rico por meio de sua convers\u00e3o em \u201cevento m\u00edtico\u201d (Adorno &amp; Horkheimer, 1985, p. 39), pois \u00e9 disso que se trata quando se o toma na chave do inacredit\u00e1vel e do irrepresent\u00e1vel, pela qual uma certa recusa do realismo hist\u00f3rico passa pelo seu oposto. Note-se que o m\u00edtico, aqui, \u00e9 inverso daquele examinado pelos autores da&nbsp;<em>Dial\u00e9tica do Esclarecimento<\/em>, focados na convers\u00e3o do esclarecimento em mito, mas nem por isso seu emprego seja menos pertinente. Ainda que, pelo uso, a palavra soe pejorativa, ela na verdade indica que algo est\u00e1 ao mesmo tempo presente e ausente do tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O m\u00edtico, no caso, designa a forma pela qual uma parte dos sobreviventes p\u00f4de lidar com o trauma, a dor e o sofrimento. Por essa raz\u00e3o, a convers\u00e3o do acontecimento hist\u00f3rico em evento m\u00edtico n\u00e3o \u00e9 por princ\u00edpio boa ou ruim, correta ou equivocada; ela \u00e9 apenas o caminho que o psiquismo trilhou para suportar a dor, e o habitat poss\u00edvel da mem\u00f3ria e do testemunho. Mas \u00e9 o caso de nos perguntarmos o que ocorre quando essa percep\u00e7\u00e3o, ou afeto, \u00e9 reconvertida em doutrina e em discursos normativos e prescritivos. Pois uma coisa \u00e9 a mem\u00f3ria, o testemunho e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o psiquismo dos sobreviventes e daqueles que lhes s\u00e3o pr\u00f3ximos, outra, bem diferente, \u00e9 o discurso que toma a experi\u00eancia m\u00edtica como \u00fanica possibilidade de se pensar, falar e escrever sobre esse acontecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma tal opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancias. Uma delas \u00e9 a dissocia\u00e7\u00e3o entre o ato propriamente \u2013 o exterm\u00ednio de milh\u00f5es de judeus \u2013 e as condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas que o tornaram poss\u00edvel. Corre-se o risco de que o pensamento sobre tais condi\u00e7\u00f5es acabe por ser bloqueado, ofuscado que \u00e9 pelo inacredit\u00e1vel. Se isso ocorre, tornam-se sup\u00e9rfluas as quest\u00f5es levantadas por Adorno<em>,&nbsp;<\/em>focadas exatamente nos pressupostos ou mecanismos que permitiram que Auschwtiz acontecesse, e que possuem dimens\u00f5es bastante concretas. Todavia, a condi\u00e7\u00e3o para que Auschwitz n\u00e3o se repita \u00e9 que tais mecanismos sejam investigados e conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma segunda consequ\u00eancia, intimamente ligada a essa primeira, \u00e9 que qualquer compara\u00e7\u00e3o entre o exterm\u00ednio de judeus pelos nazistas e outros eventos de viol\u00eancia extrema contra grupos ou conjuntos serializados de indiv\u00edduos \u00e9 sumariamente recusada, mesmo que tais eventos se deem sob os mesmos pressupostos, as mesmas condi\u00e7\u00f5es, os mesmos mecanismos. Com isso, bloqueia-se o pensamento sobre a possibilidade n\u00e3o de que o evento se repita \u2013 pois, por defini\u00e7\u00e3o, nenhum evento hist\u00f3rico se repete \u2013, mas de que algo do mesmo tipo se repita: em outras palavras, n\u00e3o de que se repita essa experi\u00eancia terr\u00edvel que teve lugar no passado, na qual foram assassinadas pessoas reais que tinham nome e sobrenome, e que se convencionou chamar \u201cHolocausto\u201d, mas de que se repita o assassinato em massa favorecido por determinadas condi\u00e7\u00f5es sociais e ps\u00edquicas, praticado pelo Estado ou por grupos armados, de que o campo de exterm\u00ednio de Auschwitz \u00e9 historicamente emblem\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o \u00e9 de menor import\u00e2ncia notar que a palavra \u201cHolocausto\u201d, que em tese poderia figurar no t\u00edtulo no lugar de \u201cAuschwitz\u201d, sequer \u00e9 empregada no mencionado texto de Theodor Adorno. Penso que essa op\u00e7\u00e3o tem diretamente a ver com essa preocupa\u00e7\u00e3o, manifesta na afirma\u00e7\u00e3o com a qual o texto \u00e9 aberto: \u201cA exig\u00eancia [de] que Auschwitz n\u00e3o se repita \u00e9 a primeira de todas para a educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Dessa \u00f3tica, a doutrina ou discurso que fomenta a ilus\u00f3ria percep\u00e7\u00e3o de um evento a tal ponto singular que nenhuma forma de pensamento realista ou referencial o alcan\u00e7a, como se sua ocorr\u00eancia fosse uma disrup\u00e7\u00e3o no tempo hist\u00f3rico, uma anomalia, tem aqui o sentido inverso daquele flagrado na&nbsp;<em>Dial\u00e9tica do Esclarecimento<\/em>&nbsp;por Theodor Adorno e Max Horkheimer, pelo qual o m\u00edtico \u00e9 c\u00edclico, sendo sua repeti\u00e7\u00e3o no futuro inevit\u00e1vel. Aqui, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a total impossibilidade de se pensar algo semelhante o efeito mais nocivo do discurso normativo que pretende aprisionar o Holocausto como evento m\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma terceira consequ\u00eancia dessa opera\u00e7\u00e3o mental, e ligada \u00e0s duas anteriores, \u00e9 que ela favorece uma das condi\u00e7\u00f5es que, segundo Theodor Adorno, concorreram para que Auschwtiz acontecesse, qual seja, a \u201cincapacidade para a identifica\u00e7\u00e3o\u201d com os demais seres humanos e a \u201cindiferen\u00e7a frente ao destino do outro\u201d, que \u201cfoi sem d\u00favida a condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica mais importante para tornar poss\u00edvel algo como Auschwitz em meio a pessoas mais ou menos civilizadas e inofensivas\u201d. Segundo Theodor Adorno, \u201cse as pessoas n\u00e3o fossem profundamente indiferentes em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece com todas as outras, excetuando o punhado com que mant\u00eam v\u00ednculos estreitos e possivelmente por interm\u00e9dio de alguns interesses concretos, ent\u00e3o Auschwitz n\u00e3o teria sido poss\u00edvel, as pessoas n\u00e3o teriam aceito\u201d (Adorno, 1995, p. 134).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nesses termos, a frabrica\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria e discursiva de uma mem\u00f3ria hist\u00f3rica que insiste no car\u00e1ter inacredit\u00e1vel e irrepresent\u00e1vel do Holocausto, e que n\u00e3o discerne entre, de um lado, a Hist\u00f3ria, e, de outro, a mem\u00f3ria e o testemunho dos sobreviventes, produz o avesso do salto dial\u00e9tico de que falou Walter Benjamin: n\u00e3o porque tal mem\u00f3ria bloqueie a solu\u00e7\u00e3o, no presente, para as injusti\u00e7as praticadas no passado e que se reproduzem ainda hoje, mas, antes at\u00e9, porque \u00e9 o pr\u00f3prio reconhecimento dessas injusti\u00e7as, e das condi\u00e7\u00f5es que atuam hoje em sua reprodu\u00e7\u00e3o e que no passado atuaram na produ\u00e7\u00e3o de Auschwitz, que fica bloqueado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Theodor Adorno tinha plena consci\u00eancia disso: tratando das \u201cpossibilidades de conscientiza\u00e7\u00e3o dos mecanismos subjetivos em geral\u201d sem os quais Auschwitz \u201cdificilmente aconteceria\u201d, ele afirma que, ao lado do necess\u00e1rio conhecimento desses mecanismos, \u00e9 tamb\u00e9m uma necessidade \u201co conhecimento da defesa estereotipada que bloqueia uma tal consci\u00eancia\u201d (Adorno, 1995, p. 136).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c9 oportuno notar que, em outro de seus escritos, intitulado&nbsp;<em>O que significa elaborar o passado&nbsp;<\/em>(1963), logo em seguida da afirma\u00e7\u00e3o de que \u201c[\u2026] o passado de que se quer escapar ainda permanece muito vivo. O nazismo sobrevive\u201d, Theodor Adorno complemente: \u201ce continuamos sem saber se o faz apenas como fantasma daquilo que foi t\u00e3o monstruoso a ponto de n\u00e3o sucumbir \u00e0 pr\u00f3pria morte, ou se a disposi\u00e7\u00e3o pelo indiz\u00edvel continua presente nos homens bem como nas condi\u00e7\u00f5es que os cercam\u201d (Adorno, 1995, p. 29). O \u201cindiz\u00edvel\u201d, que entre os sobreviventes opera como sintoma de um trauma terr\u00edvel, e como tal deve ser respeitado, \u00e9 tamb\u00e9m, todavia, uma pr\u00e1tica dos algozes, que nomeiam seus atos atrav\u00e9s de codinomes que funcionam como eufemismos (como \u201cSolu\u00e7\u00e3o Final\u201d). Pr\u00e1ticas como essa s\u00e3o normalizadas e favorecidas quando o pensamento se torna avesso a outras dimens\u00f5es da hist\u00f3ria al\u00e9m daquela que se observa no testemunho, ou seja, no psiquismo dos sobreviventes, ao menos daquele capturado por Browning.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c9 preciso discernimento para saber em que sentido o Holocausto n\u00e3o pode ser comparado a outros eventos, em que sentido pode ser comparado, e em que sentido deve ser comparado. Dito isso, \u00e9 poss\u00edvel discriminar pelo menos quatro maneiras de responder \u00e0 pergunta sobre se o Holocausto \u00e9 compar\u00e1vel a outros eventos hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma primeira \u00e9 aquela que acentua o car\u00e1ter singular e \u00fanico desse acontecimento. Mas essa \u00e9 uma acep\u00e7\u00e3o trivial, ligada ao que E. P. Thompson chamou de \u201cstatus ontol\u00f3gico\u201d do passado.<strong><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_edn3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[3]<\/a><\/strong>\u00a0Por defini\u00e7\u00e3o, todo acontecimento hist\u00f3rico \u00e9 \u00fanica e singular, de modo que h\u00e1 sempre uma dimens\u00e3o do acontecimento que o torna incompar\u00e1vel a qualquer outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma segunda, pela qual o Holocausto \u00e9 igualmente incompar\u00e1vel a outros acontecimentos hist\u00f3ricos, j\u00e1 essa nada trivial, consiste no que chamei de evento m\u00edtico, isto \u00e9, em sua apreens\u00e3o pelo psiquismo dos sobreviventes e de outras pessoas, atravessado pelo trauma, pela dor e pelo sofrimento. Mesmo que o acontecimento seja racionalizado \u2013 e \u00e9 bom que o seja \u2013, ainda assim \u00e9 compreens\u00edvel que essas pessoas sejam afetadas pela mem\u00f3ria desse terr\u00edvel acontecimento numa chave que o retira do tempo hist\u00f3rico, produzindo o efeito ps\u00edquico flagrado por Browning. Estamos aqui no terreno da experi\u00eancia. Nessa acep\u00e7\u00e3o, \u00e9 para o sujeito de uma experi\u00eancia traum\u00e1tica que o Holocausto \u00e9 incompar\u00e1vel, tanto quanto s\u00e3o incompar\u00e1veis para outros sujeitos outros eventos de viol\u00eancia extrema. Experi\u00eancias como essas merecem ser reconhecidas e respeitadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma terceira maneira de responder \u00e0 quest\u00e3o deriva do exame hist\u00f3rico minucioso e exaustivo do acontecimento em si, de suas etapas ou fases, de como se deu, de quais foram suas caracter\u00edsticas, o que permite sugerir paralelos entre esse acontecimento e outros genoc\u00eddios. Nessa acep\u00e7\u00e3o, o Holocausto pode ser comparado a outros eventos hist\u00f3ricos, n\u00e3o para fins de contabilidade \u2013 ainda que seja l\u00edcito oferecer hip\u00f3teses e se chegar a conclus\u00f5es sobre escalas, n\u00e3o com o objetivo de se dizer que ambos s\u00e3o iguais, ou que um \u00e9 maior e mais grave e o outro menor e menos grave, o que seria uma banaliza\u00e7\u00e3o \u2013, mas para oferecer ganhos de compreens\u00e3o sobre eventos desse tipo. Essa \u00e9 uma acep\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do saber hist\u00f3rico ou historiogr\u00e1fico, comumente associado \u00e0 pesquisa acad\u00eamica, e que exige m\u00e9todos e t\u00e9cnicas bastante sofisticados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma quarta e \u00faltima maneira de responder \u00e0 quest\u00e3o \u00e9 aquela proposta por Theodor Adorno, e que recoloca a primeira acep\u00e7\u00e3o em outros termos: se todo acontecimento hist\u00f3rico \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, singular e \u00fanico, em contrapartida nenhum acontecimento hist\u00f3rico se d\u00e1 no vazio, mas sob determinadas condi\u00e7\u00f5es, que o tornam poss\u00edvel, que o favorecem, as quais podem e devem ser conhecidas. Nessa acep\u00e7\u00e3o, o Holocausto \u00e9 compar\u00e1vel a outros acontecimentos hist\u00f3ricos, atuais ou virtuais, no sentido muito espec\u00edfico de que \u00e9 poss\u00edvel comparar os mecanismos que tornaram poss\u00edvel o Holocausto, e que est\u00e3o ainda hoje presentes, tornando poss\u00edvel que eventos de tipo semelhante se repitam no presente e no futuro. Tais eventos n\u00e3o s\u00f3 podem como devem ser comparados ao Holocausto e a outros eventos de viol\u00eancia extrema, porque a compara\u00e7\u00e3o nos permite tomar consci\u00eancia n\u00e3o apenas dos riscos, das amea\u00e7as, dos perigos, mas da realidade atual \u2013 ou, como disse certa vez Foucault, para tornar vis\u00edvel o que \u00e9 vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Nacionalismo, raz\u00e3o de Estado e necropoder<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A convers\u00e3o do Holocausto como evento m\u00edtico em doutrina e em discurso normativo e prescritivo tem s\u00e9rias consequ\u00eancias pol\u00edticas, para al\u00e9m de seus efeitos sobre o psiquismo. Uma dessas consequ\u00eancias, talvez a mais grave, \u00e9 que uma tal doutrina ou discurso presta-se bem a instrumento pol\u00edtico em favor de uma das condi\u00e7\u00f5es que, segundo Adorno, tornam poss\u00edvel um novo Auschwitz, a saber, o nacionalismo: \u201cAl\u00e9m disso, seria necess\u00e1rio esclarecer quanto \u00e0 possibilidade de haver um outro direcionamento para a f\u00faria ocorrida em Auschwitz. Amanh\u00e3 pode ser a vez de um outro grupo que n\u00e3o os judeus, por exemplo os idosos, que escaparam por pouco do Terceiro Reich, ou os intelectuais, ou simplesmente alguns grupos divergentes. O clima \u2013 e quero enfatizar essa quest\u00e3o \u2013 mais favor\u00e1vel a um tal ressurgimento \u00e9 o nacionalismo ressurgente. Ele \u00e9 t\u00e3o raivoso justamente porque nesta \u00e9poca de comunica\u00e7\u00f5es internacionais e de blocos supranacionais j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o convicto, obrigando-se ao exagero desmesurado para convencer a si e aos outros que ainda [tem] subst\u00e2ncia\u201d (Adorno, 1995, p. 136).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Vale aqui associar essa passagem a outra, de&nbsp;<em>O que significa elaborar o passado<\/em>, na qual Adorno caracterizara o orgulho nacional dos alem\u00e3es no contexto da ascens\u00e3o do nazismo como um \u201cnarcisismo coletivo\u201d, certamente um narcisismo adoecido (Adorno, 1995, p. 39-40).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como sabemos, essa instrumentaliza\u00e7\u00e3o opera segundo a l\u00f3gica da raz\u00e3o de Estado. N\u00e3o por acaso, ao reiterar que \u201co centro de toda educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deveria ser que Auschwitz n\u00e3o se repita\u201d, Theodor Adorno acrescenta: \u201cSeria preciso tratar criticamente um conceito t\u00e3o respeit\u00e1vel como o da raz\u00e3o de Estado, para citar apenas um modelo; na medida em que colocamos o direito do Estado acima do de seus integrantes, o terror j\u00e1 passa a estar potencialmente presente\u201d (Adorno, 1995, p. 137).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As pondera\u00e7\u00f5es de Adorno sobre o nacionalismo e a raz\u00e3o de Estado podem ser enriquecidas pela leitura, proposta por Achille Mbembe, do poder de regular e distribuir as fun\u00e7\u00f5es assassinas do Estado na modernidade, e que ele designou de necropoder. Contra a tese de que \u201ca fus\u00e3o completa de guerra e pol\u00edtica (racismo, homic\u00eddio e suic\u00eddio), at\u00e9 o ponto de se tornarem indistingu\u00edveis uns dos outros, \u00e9 algo exclusivo ao Estado nazista\u201d, Achille Mbembe sustenta que tal fus\u00e3o encontra ra\u00edzes mais antigas: \u201cas premissas materiais do exterm\u00ednio nazista podem ser encontradas no imperialismo colonial, por um lado, e, por outro, na serializa\u00e7\u00e3o de mecanismos t\u00e9cnicos para conduzir as pessoas \u00e0 morte \u2013 mecanismos desenvolvidos entre a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e a Primeira Guerra Mundial\u201d (Mbembe, 2018, p. 19-21). Apesar de sua \u00eanfase ao colonialismo, Achille Mbembe recua ainda mais no tempo, procurando, numa perspectiva de longa dura\u00e7\u00e3o, a genealogia das t\u00e9cnicas e tecnologias do terror de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Achille Mbembe n\u00e3o deixa de fazer men\u00e7\u00e3o \u00e0 Palestina nos dias atuais (Mbembe, 2018, p. 47-8, 61). A men\u00e7\u00e3o \u00e9 justa pelos efeitos de a\u00e7\u00f5es do Estado de Israel sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida dos palestinos, objetivas e subjetivas, mas tamb\u00e9m pelos discursos que pregam sua morte f\u00edsica e cultural como povo, ou, como li em algum lugar, de todos com mais de 4 anos de idade, bem como pelos discursos que se calam e se omitem diante desses discursos assassinos, possivelmente \u2013 e h\u00e1 ind\u00edcios claros disso \u2013 porque as mentes daqueles que assim o fazem foram colonizadas pelo nacionalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Justificar a a\u00e7\u00e3o em curso em Gaza \u00e9 um ato de \u201cdefesa\u201d de Israel \u00e9 um insulto, e apenas replica o argumento, presente em todas as Ditaduras, de que determinadas a\u00e7\u00f5es (criminosas) s\u00e3o necess\u00e1rias para se evitar determinado mal. A defesa da popula\u00e7\u00e3o israelense n\u00e3o depende do assassinato de milhares de pessoas, inclusive crian\u00e7as. E, no fim, sob o pretexto de que \u00e9 preciso \u201cdefender Israel\u201d, pelo qual se justifica tudo, defende-se n\u00e3o Israel, mas indiv\u00edduos e grupos que t\u00eam a posse e o exerc\u00edcio do poder de Estado em Israel, sua cosmovis\u00e3o, seus projetos, sua pr\u00e1tica. \u00c9 desnecess\u00e1rio oferecer aqui exemplos de discursos que pregam a morte de todos os palestinos, os quais s\u00e3o conhecidos e v\u00eam se multiplicando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tal sanha assassina em nada se distingue daquela que prega a morte f\u00edsica e cultural dos judeus e\/ou israelenses \u2013 prop\u00f3sito declarado do Hamas \u2013, diante da qual n\u00e3o poucos se omitem ou \u201cpassam pano\u201d, incorrendo igualmente no negacionismo mais grosseiro e descarado que se pode imaginar. \u00c9 no m\u00ednimo lament\u00e1vel, para dar apenas um exemplo, ler em um\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/no-terreno-do-inimigo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo de Sal\u00e9m Nasser<\/a>\u00a0<\/strong>de 30 de outubro: \u201cTenho visto refer\u00eancias, feitas por Scott Ritter, a testemunhas oculares do fato de muitos [dos israelenses mortos] terem sido v\u00edtimas de disparos das pr\u00f3prias for\u00e7as israelenses. Tudo isso ainda precisa ser verificado\u201d. Tal negacionismo dissimulado n\u00e3o \u00e9 menos vergonhoso do que aquele que recusa reconhecer as mortes em Gaza sob o pretexto de que \u201cos n\u00famero do Hamas n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja assimetrias no conflito e efeitos destas nas condi\u00e7\u00f5es de vida entre israelenses e palestinos: estas s\u00e3o claras e evidentes, a ponto de n\u00e3o haver exagero no emprego de termos como \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201capartheid\u201d (ou \u201cetnocracia\u201d, como prop\u00f4s Oren Yiftachel) e \u201cgenoc\u00eddio\u201d, sendo suficiente para sua caracteriza\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00e3o justificada ou motivada pela ideia de que todo um povo \u00e9 mat\u00e1vel. Quer dizer, sim, que as assimetrias n\u00e3o servem para justificar discursos e pr\u00e1ticas fascistas, venham de onde vierem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Uma das atitude que mereceriam ser examinadas seriamente, e que ressoa a indiferen\u00e7a de que falava Adorno, \u00e9 o c\u00ednico esquecimento de que todas as v\u00edtimas do conflito, sejam as v\u00edtimas da a\u00e7\u00e3o do Hamas no dia 7 de outubro de 2023 e nos dias seguintes, sejam as v\u00edtimas da a\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas de Israel em Gaza e em outras regi\u00f5es, sejam as v\u00edtimas de colonos israelenses na Cisjord\u00e2nea, sejam os ref\u00e9ns israelenses, todas essas v\u00edtimas s\u00e3o pessoas, seres humanos, que t\u00eam nome e sobrenome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>O que est\u00e1 acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Muito j\u00e1 se falou sobre o fato de o conflito Israel-Palestina ser produto de um processo hist\u00f3rico, de modo que \u00e9 sup\u00e9rfluo perguntar \u201cDe quem \u00e9 a culpa?\u201d ou \u201cQuem come\u00e7ou?\u201d \u2013 o que n\u00e3o leva a outro lugar sen\u00e3o numa tosca redu\u00e7\u00e3o do complexo ao simples \u2013, o que n\u00e3o significa que n\u00e3o haja culpados por a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Podemos flagrar esse embate entre um discurso hist\u00f3rico complexificador e um discurso hist\u00f3rico simplificador na pol\u00eamica aberta com a<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/fala-do-chefe-da-onu-escala-crise-diplom%C3%A1tica-com-israel\/a-67213883\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">declara\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f4nio Guterrez, em 24 de outubro de 2023<\/a><\/strong>, por ocasi\u00e3o da ofensiva militar do Estado de Israel na Faixa de Gaza, e na rea\u00e7\u00e3o a ela: \u201c\u00c9 importante ainda reconhecer que os ataques do Hamas n\u00e3o ocorreram no vazio\u201d (\u201c<em>It is important to also recognize the attacks by Hamas did not happen in a vacuum<\/em>\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Duramente criticado, Guterrez justificou em seguida sua declara\u00e7\u00e3o, dizendo: \u201cEstou chocado com as deturpa\u00e7\u00f5es feitas por alguns sobre minha declara\u00e7\u00e3o [\u2026] como se eu estivesse justificando os atos de terror do Hamas. Isso \u00e9 falso. Foi o contr\u00e1rio\u201d. A prop\u00f3sito do que Ant\u00f4nio Gueterrez falou, das rea\u00e7\u00f5es contra sua fala e de sua justificativa, n\u00e3o \u00e9 um mero detalhe que muitos ve\u00edculos de imprensa no Brasil (e, at\u00e9 onde vi, no exterior) tenham traduzido a express\u00e3o \u201cin a vacuum\u201d pela locu\u00e7\u00e3o \u201cpor acaso\u201d \u2013 cujo sentido \u00e9, gra\u00e7as ao uso, bem distinto de \u201cno vazio\u201d \u2013, deslocando-a do registro hist\u00f3rico (focado na contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica) para o registro moral (focado nas inten\u00e7\u00f5es e na justeza ou n\u00e3o da a\u00e7\u00e3o), traindo, com isso, o que Ant\u00f4nio Guterrez efetivamente falou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Na exata contram\u00e3o de Ant\u00f4nio Guterrez, criticando a posi\u00e7\u00e3o do governo brasileiro em rela\u00e7\u00e3o ao conflito,<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MYwkrzILqso\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o jurista Celso Lafer, da Faculdade de Direito da USP, declarou, em entrevista ao\u00a0<em>Jornal da Cultura<\/em>\u00a0em 16 de novembro de 2023<\/a><\/strong>: \u201c\u00c9 preciso levar em conta que quem iniciou esse processo todo foi o Hamas\u201d<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_edn4\">[4]<\/a>. Um historiador poderia dizer o mesmo sem trair seu of\u00edcio?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Dito isso, como encarar a declara\u00e7\u00e3o do presidente Lula dada \u00e0 imprensa internacional em 19 de fevereiro deste ano? \u201cO que est\u00e1 acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino n\u00e3o existe em nenhum outro momento hist\u00f3rico. Ali\u00e1s, existiu: quando o Hitler resolveu matar os judeus\u201d. Lula tem sido repreendido por ter feito essa afirma\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas pelo governo israelense e organiza\u00e7\u00f5es de direita, mas<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/judeuspelademocracia\/p\/C3fuWtprHSV\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tamb\u00e9m por indiv\u00edduos e grupos da esquerda judaica<\/a>. J\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vozesjudaicasporlibertacao\/p\/C3khxkKOTPv\/?img_index=5\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">outros, tamb\u00e9m \u00e0 esquerda, o defenderam<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O que quase n\u00e3o tem sido notado, todavia, \u00e9 que Lula n\u00e3o se limitou a comparar a atual a\u00e7\u00e3o militar israelense em Gaza com o Holocausto \u2013 raz\u00e3o pela qual ele tem sido criticado; na compara\u00e7\u00e3o efetuada, essa a\u00e7\u00e3o teria sido o \u00fanico evento hist\u00f3rico compar\u00e1vel ao Holocausto<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_edn5\">[5]<\/a>. Em outras palavras, Lula se apropriou do Holocausto n\u00e3o como um acontecimento hist\u00f3rico, que se deu sob determinadas condi\u00e7\u00f5es que se pode conhecer e que \u00e9 pertinente evocar no debate p\u00fablico, inclusive para efetuar compara\u00e7\u00f5es, mas como evento m\u00edtico, disruptivo, inacredit\u00e1vel, em suma, como evento que habita o imagin\u00e1rio dos sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 como a compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o ferir a mem\u00f3ria das v\u00edtimas e a dor dos sobreviventes e de outras pessoas, e n\u00e3o apenas judeus. A irrefletida fala de Lula foi provocadora e desrespeitosa porque banalizou o Holocausto como experi\u00eancia traum\u00e1tica, n\u00e3o menos do que o<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/embaixador-de-israel-usa-estrela-amarela-na-onu\/a-67266528\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uso, pela equipe de diplomatas de Israel na ONU no dia 30 de outubro, da estrela de Davi durante uma sess\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em contrapartida, o que muitos dos cr\u00edticos de Lula ignoram, ou oportunamente almejam fazer crer, \u00e9 que, como evento hist\u00f3rico, a a\u00e7\u00e3o militar do Estado de Israel em Gaza, capitaneada por um determinado governo e seus aliados, n\u00e3o se compara ao assassinato de judeus na Segunda Guerra em uma s\u00e9rie de aspectos, mas se compara em outros, sobretudo porque em ambos, e em uma s\u00e9rie de outros atos de viol\u00eancia que tiveram lugar historicamente no mundo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, observam-se em opera\u00e7\u00e3o os mesmos mecanismos e as mesmas condi\u00e7\u00f5es que produziram Auschwitz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Reitero: compara\u00e7\u00f5es como essas s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edveis, como necess\u00e1rias. Quem visita o Museu Judaico em S\u00e3o Paulo tem a oportunidade de ver refer\u00eancias a crimes contra os Direitos Humanos no Brasil ao lado de refer\u00eancias do Holocausto. Trata-se de um exemplo instrutivo do que Adorno chamou de elabora\u00e7\u00e3o s\u00e9ria do passado, \u201crompendo seu encanto por meio de uma consci\u00eancia clara\u201d (Adorno, 1995, p. 29).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Um desses aspectos comuns est\u00e1 no fato de que a a\u00e7\u00e3o em Gaza realiza o desejo, que n\u00e3o \u00e9 sequer ocultado, mas manifesto em falas p\u00fablicas de importantes figuras da vida p\u00fablica israelense, de matar indiscriminadamente indiv\u00edduas apenas pelo fato de pertencerem a um determinado povo \u2013 o palestino. Desejo esse que, vale reiterar, alimenta-se do e alimenta o mesmo desejo em parte dos palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O fato de o desejo de matar vivido na chave da necropol\u00edtica ser restritivamente rec\u00edproco n\u00e3o justifica a hipocrisia de Nicole Deitelhoff, Rainer Forst, Klaus G\u00fcnther e J\u00fcrgen Habermas, que, no contexto de proibi\u00e7\u00f5es do Estado alem\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es contra a a\u00e7\u00e3o do Estado de Israel em Gaza ainda no final de 2023, e que foram tomadas sob o pretexto de se combater o antissemitismo \u2013 que deve ser combatido \u2013, assinaram um manifesto, lan\u00e7ado em 13 de novembro, no qual argumentam: \u201capesar de toda a preocupa\u00e7\u00e3o com o destino da popula\u00e7\u00e3o palestiniana, os padr\u00f5es de julgamento escorregam completamente quando s\u00e3o atribu\u00eddas inten\u00e7\u00f5es genocidas \u00e0s a\u00e7\u00f5es de Israel\u201d. Israel n\u00e3o tem nem pode ter inten\u00e7\u00f5es genocidas pelo simples fato de que \u201cIsrael\u201d designa um pa\u00eds, cuja sociedade \u00e9 dividida; mas certos israelenses em posi\u00e7\u00e3o de poder t\u00eam, e muitos destes sequer o escondem, e isso os quatro proeminentes autores convenientemente ignoraram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ao evocar o argumento de que as a\u00e7\u00f5es do Estado de Israel n\u00e3o justificam de forma alguma rea\u00e7\u00f5es antissemitas \u201cespecialmente na Alemanha\u201d, que \u201co ethos democr\u00e1tico\u201d da Alemanha est\u00e1 ligado a uma cultura pol\u00edtica para a qual \u201ca vida judaica e o direito de Israel \u00e0 exist\u00eancia s\u00e3o elementos centrais dignos de prote\u00e7\u00e3o especial \u00e0 luz dos crimes em massa da era nazista\u201d, e que enfatizar que esse compromisso \u00e9 \u201cfundamental para a nossa vida pol\u00edtica\u201d, o manifesto ecoa o complexo de \u201cculpa coletiva dos alem\u00e3es\u201d que Adorno critica em&nbsp;<em>O que significa elaborar o passado<\/em>. Trata-se de uma culpa \u201caltamente fict\u00edcia\u201d e doentia, que, no plano da vida subjetiva comum, cumpria a fun\u00e7\u00e3o de bloquear a elabora\u00e7\u00e3o do passado, isto \u00e9, o refor\u00e7o da autoconsci\u00eancia contra o \u201cnarcisismo coletivo\u201d fixado no orgulho nacional, e de, no plano pr\u00e1tico, subtrair dos algozes a culpa que tinham pelos crimes cometidos durante a Guerra, uma vez que a culpa fora dilu\u00edda. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o se trata aqui de negar tal compromisso, que \u00e9 fundamental, mas de questionar a raz\u00e3o sua seletividade, ou seja, sua n\u00e3o universalidade: se, como dizem os signat\u00e1rios do manifesto, o dito ethos democr\u00e1tico \u00e9 \u201corientado para a obriga\u00e7\u00e3o de respeitar a dignidade humana\u201d, essa orienta\u00e7\u00e3o deveria valer para a dignidade humana de todos os seres humanos, sem exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Contra o nacionalismo, de volta ao universalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">N\u00e3o vejo outro caminho para se lidar satisfatoriamente com esse e outros conflitos de monta contempor\u00e2neos sem que se restabele\u00e7a, nos discursos, nas pr\u00e1ticas e nas mentes, a proemin\u00eancia da sem\u00e2ntica universalista e igualitarista que marcou os escritos dos fundadores da chamada Escola de Frankfurt, um restabelecimento que sem d\u00favida exige todo um esfor\u00e7o organizativo e educacional de longo prazo. Emblem\u00e1tica de valores universalistas encontra-se, para dar apenas um exemplo, em um texto de Horkheimer intitulado&nbsp;<em>Filosofia e Teoria Cr\u00edtica<\/em>&nbsp;(1937): \u201cA teoria cr\u00edtica que visa \u00e0 felicidade de todos os indiv\u00edduos, ao contr\u00e1rio dos servidores dos Estados autorit\u00e1rios, n\u00e3o aceita a continua\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria. [\u2026] o fim de uma sociedade racional, que hoje parece estar preservada apenas na imagina\u00e7\u00e3o, pertence efetivamente a todos os homens\u201d (Horkheimer, 1980, p. 158, 160).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Com Adorno, penso que \u00e9 urgente que se d\u00ea \u00eanfase nas condi\u00e7\u00f5es e nos mecanismos que permitiram que Auschwitz acontecesse e na perseveran\u00e7a, posteriormente e no presente, dessas mesmas condi\u00e7\u00f5es e mecanismos, objetivos e subjetivos, e de outros que se somaram a estes. Se uma dessas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 o nacionalismo, como Adorno chama a aten\u00e7\u00e3o, talvez n\u00e3o haja tarefa mais urgente para aqueles e aquelas que defendem ideais universalistas e igualitaristas do que a cr\u00edtica do nacionalismo e suas armadilhas. \u00c9 preciso descolonizar as mentes do nacionalismo que as colonizou, caso contr\u00e1rio \u00e9 o fascismo que tende a ganhar for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nesse sentido, e no que concerne a Israel e Palestina, \u00e9 imperativo observar: (i) que os sujeitos da hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o pa\u00edses, mas indiv\u00edduos e grupos, e que \u201cIsrael\u201d e \u201cPalestina\u201d nomeiam pa\u00edses, cujas sociedades s\u00e3o divididas, (ii) que tanto na Palestina quanto em Israel h\u00e1 indiv\u00edduos e grupos que v\u00e3o da extrema-direita \u00e0 extrema-esquerda, defensores da democracia e inimigos da democracia, defensores dos Direitos Humanos e inimigos dos Direitos Humanos etc., (iii) que \u201csinonismo\u201d \u00e9 uma palavra inventada para designar o nacionalismo judaico, que, como todos os nacionalismos no mundo, \u00e9 complexo e plural, havendo at\u00e9 mesmo sinonismo de esquerda (o qual \u00e9, todavia, muito minorit\u00e1rio, seguindo uma tend\u00eancia global de enfraquecimento dos nacionalismos de esquerda), (iv) que tanto na Palestina como em Israel foi o nacionalismo de extrema-direita que se fortaleceu extraordinariamente nos \u00faltimos anos, (v) e que figuras como Benjamin Netanyahu e Ismail Haniya podem ser colocados lado a lado de figuras como Donald Trump, Viktor Orb\u00e1n, Bj\u00f6rn H\u00f6cke, Valdimir Putin, Recep Erdo\u011fan, Ali Khamenei, Javier Milei, Jair Bolsonaro e toda uma multid\u00e3o cada vez maior de fascistas e protofascistas que disputam o poder em n\u00edvel global, entre si e com liberais-conservadores (que, quando n\u00e3o se aproveitam do fascismo a seu favor, em geral se omitem).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>*Ant\u00f4nio David<\/strong><em>&nbsp;\u00e9 doutor em filosofia pela USP e doutorando em hist\u00f3ria social pela mesma institui\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Adorno, Theodor. \u201cEduca\u00e7\u00e3o ap\u00f3s Auschwitz\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: Wolfgang Leo Maar. In: Idem.&nbsp;<em>Educa\u00e7\u00e3o e Emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1995, pp. 119-38.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Adorno, Theodor. \u201cO que significa elaborar o passado\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: Wolfgang Leo Maar. In: Idem.&nbsp;<em>Educa\u00e7\u00e3o e Emancipa\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1995, pp. 29-49.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Adorno, Theodor &amp; Horkheimer, Max.&nbsp;<em>Dial\u00e9tica do esclarecimento: fragmentos filos\u00f3ficos.<\/em>&nbsp;Tradu\u00e7\u00e3o: Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Browling, Chrostopher. \u201cGerman Memory, Judicial Interrogation, Historical Reconstruction\u201d. In: Friedlander, Saul (ed.).&nbsp;<em>Probing the Limits of Representation: Nazism and the Final Solution.&nbsp;<\/em>Cambridge: Harvard University Press, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Horkheimer, Marx. \u201cFilosofia e Teoria Cr\u00edtica\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o de Edgard Afonso Malagodi e Ronaldo Pereira Cunha. In:&nbsp;<em>Benjamin, Adorno, Horkheimer, Habermas<\/em>&nbsp;(<em>Os Pensadores<\/em>). S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 155-61.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mbembe, Achile.&nbsp;<em>Necropol\u00edtica. Biopoder, soberania, estado de exce\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica da morte<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Renata Santini. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator alignwide has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_ednref1\">[1]<\/a>\u00a0<\/strong>Ao lado do pr\u00f3prio Borwing, um exemplo desse debate \u00e9 o livro de Michael Bernard-Donals e Richard Glejzer,\u00a0<em>Between Witness and Testimony: The Holocaust and the Limits of Representation<\/em>\u00a0(State University of New York Press, 2001).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>\u00a0N\u00e3o por acaso, o tema entrou no debate historiogr\u00e1fico em parte por iniciativa de Hayden White, um dos nomes mais importantes do p\u00f3s-modernismo historiogr\u00e1fico. A partir dos anos 1980, como parte do esfor\u00e7o de resposta a seus cr\u00edticos, ou ao que Carlo Giznburg chamou de \u201cdilema moral\u201d e \u201cembara\u00e7o evidente\u201d decorrentes dos argumentos antirrealistas que White lan\u00e7ara ainda nos anos 1960, este passou a dedicar alguns trabalhos ao tratamento historiogr\u00e1fico do Holocausto \u2013 exemplo frequentemente evocado por seus cr\u00edticos. Em um desses trabalhos, White chegou a escrever: \u201cA ideia de que o Holocausto nunca aconteceu \u00e9 simplesmente absurda. N\u00f3s temos mais do que suficiente evid\u00eancia para obrigar a cren\u00e7a em sua ocorr\u00eancia\u201d. White, Hayden. \u201cThe public relevance of historical studies: A reply to Dirk Moses\u201d.\u00a0<em>History and Theory<\/em>, v. 44, n. 3, pp. 333-338 (cita\u00e7\u00e3o: p. 337); Ginzburg, Carlo. \u201cUnus Testis. O exterm\u00ednio dos judeus e o princ\u00edpio de realidade\u201d,\u00a0<em>Fronteiras<\/em>. Revista de Hist\u00f3ria, Florian\u00f3polis, n. 7, 1999, pp. 7-28 (cita\u00e7\u00e3o: p. 17). Em \u201cThe Modernist Event\u201d (publicado originalmente em 1996), ele cita nominalemente Browing. Esse texto foi republicado ao lado de outros trabalhos nos quais aborda o mesmo assunto na colet\u00e2nea\u00a0<em>Figural Realism: Studies in the Mimesis Effect<\/em>\u00a0(Johns Hopkins University Press, 2000).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0<\/strong>\u201cOs processos acabados da mudan\u00e7a hist\u00f3rica, com sua complicada causa\u00e7\u00e3o, realmente ocorreram, e a historiografia pode falsificar ou n\u00e3o entender, mas n\u00e3o pode modificar, em nenhum grau, o status ontol\u00f3gico do passado\u201d. Thompspn. Edward Palmer.\u00a0<em>Mis\u00e9ria da teoria, ou um planet\u00e1rio de erros. Uma cr\u00edtica ao pensamento de Althusser<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, pp. 50, 54.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_ednref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a>\u00a0Sobre as declara\u00e7\u00f5es de Guterrez: \u201cFala do chefe da ONU escala crise diplom\u00e1tica com Israel\u201d (DW, 25 out. 2023), dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/fala-do-chefe-da-onu-escala-crise-diplom%C3%A1tica-com-israel\/a-67213883\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/fala-do-chefe-da-onu-escala-crise-diplom%C3%A1tica-com-israel\/a-67213883<\/a>&gt;. Sobre a declara\u00e7\u00e3o de Lafer: \u201cEx-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores CRITICA diplomacia do presidente Lula\u201d (Jornalismo TV Cultura, 16 nov. 2023), dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MYwkrzILqso\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MYwkrzILqso<\/a>&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/#_ednref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a>\u00a0Essa rela\u00e7\u00e3o foi destacada por Michel Gherman em entrevista \u00e0 BBC Brasil. \u201cA rea\u00e7\u00e3o de Israel \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de Lula comparando guerra em Gaza ao Holocausto\u201d, 19 fev. 2024. Dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Ha2x2VbDEjU\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Ha2x2VbDEjU<\/a>&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<br>Texto e imagem &#8211;<\/strong> <strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-holocausto-e-seus-usos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A Terra \u00e9 Redonda<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0ANT\u00d4NIO DAVID* \u00c9 preciso discernimento para saber em que sentido o Holocausto n\u00e3o pode ser comparado a outros eventos, em que sentido pode ser comparado,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":169,"featured_media":1907,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,11],"tags":[],"class_list":["post-1906","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo-de-opiniao","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/users\/169"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1906"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1906\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1908,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1906\/revisions\/1908"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1907"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}