{"id":1914,"date":"2024-03-09T12:09:01","date_gmt":"2024-03-09T15:09:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=1914"},"modified":"2024-03-09T12:09:02","modified_gmt":"2024-03-09T15:09:02","slug":"a-derrota-do-peronismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/a-derrota-do-peronismo\/","title":{"rendered":"A derrota do peronismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Por: <strong>Flavio Lazzarin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">&#8220;Parece que os partidos progressistas ainda n\u00e3o aprenderam a reconhecer o quanto as sociedades latino-americanas mudaram. Confrontados com uma mentalidade generalizada, que esquece as ditaduras corporativo-militares, a viol\u00eancia colonial e chega a considerar aceit\u00e1veis \u200b\u200bos del\u00edrios da extrema direita, eles n\u00e3o reagem adequadamente e perdem-se na repeti\u00e7\u00e3o acr\u00edtica de pr\u00e1ticas e narrativas obsoletas&#8221;, afirma <strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/634344-violencia-no-campo-e-estado-artigo-de-flavio-lazzarin-e-claudio-bombieri\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Fl\u00e1vio Lazzarin<\/a><\/mark><\/strong>, padre italiano <em>fidei donum<\/em> que atua na <strong>Diocese de Coroat\u00e1<\/strong> e agente da <strong>Comiss\u00e3o Pastoral da Terra<\/strong> (<strong>CPT<\/strong>), em artigo publicado por <strong>Settimana News<\/strong>, 27-11-2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Eis o artigo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cO poder desgasta quem n\u00e3o o tem\u201d: o aforismo do bispo e diplomata&nbsp;<strong>Charles Maurice de Talleyrand<\/strong>, o mais famoso transformador m\u00faltiplo da modernidade, foi retomado dois s\u00e9culos depois por&nbsp;<strong>Giulio Andreotti<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como \u00e9 que, ao testemunhar o resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais argentinas, me lembro do aforismo de\u00a0<strong>Andreotti<\/strong>? Porque n\u00e3o consigo refletir sobre a vit\u00f3ria de<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/634463-notas-sobre-a-vitoria-de-javier-milei\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Javier Milei<\/a><\/strong>, mas, pelo contr\u00e1rio, a pesada derrota do peronismo continua a atormentar-me. E ent\u00e3o me pergunto se o poder realmente desgasta aqueles que n\u00e3o o t\u00eam ou se, em vez disso, o aforismo deveria ser substitu\u00eddo por um prov\u00e9rbio muito mais antigo: \u201cmais cedo ou mais tarde os problemas voltam para a casa\u201d. No final, o poder desgasta at\u00e9 mesmo aqueles que o possuem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Depois de oitenta anos, o&nbsp;<strong>Partido Justicialista<\/strong>&nbsp;sobrevive enfraquecido \u00e0 derrota eleitoral ou j\u00e1 dever\u00edamos consider\u00e1-lo uma doen\u00e7a terminal? Ter\u00e1 o regresso da esquerda ao poder, depois da tr\u00e1gica experi\u00eancia das ditaduras corporativo-militares, terminado definitivamente? A&nbsp;<strong>Argentina<\/strong>&nbsp;est\u00e1 dizendo ao&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>&nbsp;e a todas as na\u00e7\u00f5es que o que acontece l\u00e1 \u00e9 um destino condenado para todas as pessoas? Como dizem aqui no Brasil: \u00abEu sou voc\u00ea amanh\u00e3\u00bb (Hoje eu sou, voc\u00ea amanh\u00e3).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Acredito verdadeiramente que estamos a assistir \u00e0 revela\u00e7\u00e3o da incapacidade radical da esquerda global para enfrentar com sucesso a ofensiva da&nbsp;<strong>extrema direita<\/strong>, aparentemente antissistema e, de fato, ao servi\u00e7o do capitalismo an\u00f4mico e beligerante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E, se esta hip\u00f3tese for plaus\u00edvel, devemos realmente preocupar-nos n\u00e3o s\u00f3 com o aumento da viol\u00eancia estatal, mas sobretudo com a impot\u00eancia pr\u00e1tica e te\u00f3rica da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Diagnosticar a morte pol\u00edtica do kirchnerismo pode ser prematuro, porque os peronistas t\u00eam um n\u00famero significativo de senadores e deputados eleitos em 2023 e, al\u00e9m disso, elegeram com os seus aliados os governadores de oito prov\u00edncias \u2013 incluindo a mais importante, a de&nbsp;<strong>Buenos Aires<\/strong>. Estes n\u00fameros certamente criar\u00e3o dificuldades pol\u00edticas ao poder de&nbsp;<strong>Milei<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mas apesar destes dados, o contexto argentino \u2013 em que a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece ter sido mortalmente ferida \u2013 repete-se, fazendo as devidas distin\u00e7\u00f5es, no&nbsp;<strong>Brasil<\/strong>, no&nbsp;<strong>Peru<\/strong>, no&nbsp;<strong>Equador<\/strong>&nbsp;e no&nbsp;<strong>Uruguai<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Obviamente, s\u00e3o crises diferentes, sofrimentos sociais espec\u00edficos, percursos pol\u00edticos distintos. Por esse motivo, a<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/627919\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">identifica\u00e7\u00e3o de Milei com Bolsonaro<\/a><\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel. Consideremos, por exemplo, qu\u00e3o importante \u00e9 o apoio dos militares, evang\u00e9licos e cat\u00f3licos tradicionalistas para\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0no Brasil e como esta composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece no eleitorado de\u00a0<strong>Milei<\/strong>. Ou como, apesar da agressividade de\u00a0<strong>Milei<\/strong>\u00a0durante a campanha eleitoral, ao contr\u00e1rio do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, n\u00e3o houve uma avalanche digital de fake news, nossas farsas, para manipular o eleitorado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Somos, no entanto, obrigados a pensar que existe uma sintomatologia comum: na verdade, tanto a direita convencional de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/595424\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lacalle Pou<\/a>\u00a0no\u00a0<strong>Uruguai<\/strong>, como a extrema direita de\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Milei<\/strong>\u00a0na\u00a0<strong>Argentina<\/strong>, de<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/633511\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Daniel Noboa<\/a><\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Equador<\/strong>, de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/624798\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Dina Boluarte<\/strong><\/a>\u00a0no\u00a0<strong>Peru<\/strong>, germinam e explodem a partir da crise dos governos progressistas ou de esquerda. O erro da esquerda, no final das contas, \u00e9 sempre o mesmo: montar estrat\u00e9gias neoliberais com descontos e corre\u00e7\u00f5es populares. Mais cedo ou mais tarde a aposta n\u00e3o funciona e o que resta \u00e9 a viol\u00eancia predat\u00f3ria e desenfreada do capital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nessas sociedades, a luta dos movimentos sociais n\u00e3o alinhados, em favor dos direitos ambientais, da vida e dos territ\u00f3rios dos povos origin\u00e1rios e dos agricultores, contra o agroneg\u00f3cio e a minera\u00e7\u00e3o, contra a comercializa\u00e7\u00e3o da natureza, \u00e9 bastante reduzida. Experi\u00eancias agroecol\u00f3gicas e antipatriarcais. Contra o capital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E parece que os partidos progressistas ainda n\u00e3o aprenderam a reconhecer o quanto as sociedades latino-americanas mudaram. Confrontados com uma mentalidade generalizada, que esquece as ditaduras corporativo-militares, a viol\u00eancia colonial e chega a considerar aceit\u00e1veis \u200b\u200bos del\u00edrios da extrema direita, eles n\u00e3o reagem adequadamente e perdem-se na repeti\u00e7\u00e3o acr\u00edtica de pr\u00e1ticas e narrativas obsoletas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Esta mudan\u00e7a nas subjetividades populares, que introjetam a loucura da extrema direita, hoje tamb\u00e9m desafia duramente o catolicismo argentino. N\u00e3o se trata, em primeiro lugar, das graves ofensas de\u00a0<strong>Milei<\/strong>\u00a0contra o<strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/634555-milei-vai-gerenciar-uma-audiencia-com-o-papa-apos-assumir-a-presidencia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Papa Francisco<\/a><\/strong>\u00a0ou das recentes reconcilia\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a vit\u00f3ria eleitoral. Trata-se sobretudo do que acontece nos bairros e vilas, tradicionalmente cat\u00f3licos, que, como em\u00a0<strong>La Cava<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>San Isidro<\/strong>, votaram a favor de\u00a0<strong>Milei<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Talvez at\u00e9 a\u00a0<strong>Igreja argentina<\/strong>, surpreendida pelas escolhas pol\u00edticas dos seus fi\u00e9is, esteja a viver o mesmo impasse que os\u00a0<strong>peronistas<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>esquerda<\/strong>. Devemos, novamente, como sempre, perseverar na companhia do Esp\u00edrito e exercer o poder da Profecia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<br>Texto &#8211;<mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/634600-a-derrota-do-peronismo-artigo-de-flavio-lazzarin\"> Instituto Humanitas Unisinos<\/a><\/mark><\/strong>.<br><strong>Imagem &#8211;<\/strong> <strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/resizer\/ZykqP_89iVLVBGbrxICjNaLm9QY=\/1080x0\/filters:quality(80)\/cloudfront-us-east-2.images.arcpublishing.com\/reuters\/RYOPY226RNPBVMMMGIZA5SEBVI.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Reuters<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Flavio Lazzarin &#8220;Parece que os partidos progressistas ainda n\u00e3o aprenderam a reconhecer o quanto as sociedades latino-americanas mudaram. 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