{"id":2016,"date":"2024-05-04T23:17:29","date_gmt":"2024-05-05T02:17:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=2016"},"modified":"2024-05-04T23:17:30","modified_gmt":"2024-05-05T02:17:30","slug":"aziz-absaber-um-geografo-humanista-e-profundo-conhecedor-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/aziz-absaber-um-geografo-humanista-e-profundo-conhecedor-do-brasil\/","title":{"rendered":"Aziz Ab\u2019S\u00e1ber: um ge\u00f3grafo humanista e profundo conhecedor do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>Pesquisador atuou al\u00e9m da universidade, influenciando \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e sociedade com proposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O professor Aziz Ab\u2019S\u00e1ber apresenta uma importante trajet\u00f3ria intelectual associada \u00e0 Geografia, sobretudo \u00e0s ci\u00eancias da natureza, mas com forte inclina\u00e7\u00e3o para as ci\u00eancias humanas de maneira geral. Embora ge\u00f3grafo especializado em Geomorfologia, o professor Aziz fazia parte de uma gera\u00e7\u00e3o de cientistas que se tornou rara nos nossos dias, com forma\u00e7\u00e3o escolar hol\u00edstica, caracter\u00edstica da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira at\u00e9 os anos 1960. Nesse tipo de educa\u00e7\u00e3o, valorizava-se a transmiss\u00e3o do conhecimento nos moldes das antigas escolas de forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica, cuja tradi\u00e7\u00e3o era preparar as pessoas para a compreens\u00e3o do mundo em sua totalidade, e o saber era considerado constituinte da soma interdisciplinar das diferentes ci\u00eancias. Essa heran\u00e7a resulta dos ensinamentos das escolas da Gr\u00e9cia Antiga e de v\u00e1rias outras partes do mundo, cujos estudiosos tinham um conhecimento que integrava os diversos campos do saber. Enfim, dedicavam-se a resolver os mist\u00e9rios da vida em todos os seus aspectos, do natural ao social, do universal ao particular. O professor Aziz foi herdeiro dessa orienta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e n\u00e3o somente se sensibilizou com o desvendamento das quest\u00f5es relativas \u00e0s leis da natureza, mas tamb\u00e9m se preocupou em entender como a sociedade se organizava com as contradi\u00e7\u00f5es que nela est\u00e3o instaladas. Essa concep\u00e7\u00e3o hol\u00edstica do professor Aziz, demonstrada em seus estudos e em sua postura de entendimento do mundo, esteve associada, do mesmo modo, ao seu processo de forma\u00e7\u00e3o no ambiente familiar, no ensino b\u00e1sico e, sobretudo, na universidade.<br><br>Durante a sua vida inteira, o professor Aziz assistiu aos grandes eventos da hist\u00f3ria do Brasil e participou deles. Nascido em 1924, em S\u00e3o Luiz do Paraitinga, no Vale do Para\u00edba paulista, filho de liban\u00eas, mudou-se para S\u00e3o Paulo ainda jovem, em 1939, para prestar vestibular. Entre os anos 1940 e 1944, frequentou o curso de Hist\u00f3ria e Geografia na antiga Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), onde teve aula n\u00e3o somente com professores de Geografia e Hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m com os de Sociologia, carreiras que ganhavam proje\u00e7\u00e3o no Brasil com a funda\u00e7\u00e3o da USP, em 1934. No caso de Geografia e Hist\u00f3ria, os alunos faziam parte de um mesmo curso, cuja grade curricular possu\u00eda disciplinas das ci\u00eancias humanas e sociais e das ci\u00eancias naturais. Essa trajet\u00f3ria fortemente interdisciplinar foi importante para a forma\u00e7\u00e3o do professor Aziz, por possibilitar a ele realizar a interface entre as ci\u00eancias da natureza e as ci\u00eancias humanas e sociais. Tal interdisciplinaridade se destacou na vida do professor Aziz, e ele fazia quest\u00e3o de refor\u00e7ar isso em seus textos, aulas, palestras ou entrevistas. Essa postura de valorizar permanentes di\u00e1logos com outras \u00e1reas do conhecimento advinha, em grande medida, segundo ele pr\u00f3prio afirmou em diversas ocasi\u00f5es, da conviv\u00eancia com seus professores e colegas de curso, mas tamb\u00e9m dos encontros com a comunidade geogr\u00e1fica em eventos cient\u00edficos e do contato com as pessoas em seus muitos trabalhos de campo, bem como das amizades com distintas pessoas que ele foi construindo ao longo da vida. Entretanto, o per\u00edodo de sua gradua\u00e7\u00e3o, conforme deixa transparecer em seu depoimento no livro \u201cO que \u00e9 ser ge\u00f3grafo\u201d (2007), foi o momento em que mais se consolidou a sua cren\u00e7a em um olhar hol\u00edstico sobre o mundo, assentada na perspectiva interdisciplinar. (Figura 1)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"666\" height=\"443\" src=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2017\" srcset=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image.png 666w, https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-300x200.png 300w\" sizes=\"(max-width: 666px) 100vw, 666px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Figura 1<\/strong>. Aziz Ab\u2019S\u00e1ber durante aula na USP. (Fonte: NJR\/ECA\/USP. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No referido livro, Ab\u2019S\u00e1ber aborda a influ\u00eancia de seus professores do curso para a constitui\u00e7\u00e3o de sua vis\u00e3o de totalidade sobre o espa\u00e7o geogr\u00e1fico, em suas diferentes dimens\u00f5es, inclusive a hist\u00f3rica, \u00e0 qual ele atribu\u00eda um peso relevante em suas an\u00e1lises dos fen\u00f4menos naturais e humanos. Ele sempre destacava o papel da interface entre o tempo e o espa\u00e7o ou o espa\u00e7o e o tempo. Na entrevista que concedeu no Programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1992, convidado para falar da Confer\u00eancia Rio-92, ele ressaltou que o grande desafio da sociedade naquela \u00e9poca era o de ter a capacidade de registrar e restaurar o passado, de fazer diagn\u00f3sticos do presente para pensar o futuro, mas sem descartar o passado. A sua fala era direcionada por sua preocupa\u00e7\u00e3o com o imediatismo das a\u00e7\u00f5es humanas na pol\u00edtica ou na economia, por uma sociedade que caminhava a passos largos para a consolida\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o econ\u00f4mico de consumo imediatista e para uma ades\u00e3o ao neoliberalismo, sendo que, em ambos os aspectos, o mundo escalava n\u00edveis inaceit\u00e1veis de apropria\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, mostrando-se predat\u00f3rios e insustent\u00e1veis. O professor Aziz fazia cr\u00edtica, sobretudo, ao planejamento de curto prazo, o qual, segundo ele, era ineficaz, porque n\u00e3o projetava as a\u00e7\u00f5es numa escala de tempo ampliada; ele acreditava que pensar numa pol\u00edtica de planejamento somente teria efeitos positivos se fosse poss\u00edvel considerar o tempo ecol\u00f3gico, ou seja, o de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O professor Aziz sempre nos relembrava, em suas falas, de que os anos iniciais na USP foram vividos com muitas descobertas e muita dedica\u00e7\u00e3o aos estudos, com frequ\u00eancia ass\u00eddua \u00e0s bibliotecas. Durante o per\u00edodo da gradua\u00e7\u00e3o e da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, ele manteve muito contato com seus professores e tinha especial admira\u00e7\u00e3o por aqueles da miss\u00e3o francesa que vieram ao Brasil para ministrar disciplinas no curso de Hist\u00f3ria e Geografia, mas tamb\u00e9m por outros professores que foram lecionar na ent\u00e3o capital federal, Rio de Janeiro, ou, ainda, pelos que fizeram visitas ao pa\u00eds entre os anos 1940 e 1950 por diferentes motivos. No primeiro grupo, destacam-se Roger Dion, Pierre Monbeig e Emmanuel de Martonne; no segundo, Max Sorre, Jean Dresch, Andr\u00e9 Cailleux, Francis Ruellan e Jean Tricart. Conforme o professor Aziz, esses pesquisadores marcaram a sua vida nesse momento inicial de sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, e deles herdou o rigor metodol\u00f3gico de an\u00e1lise das paisagens e dos processos que as constroem. Entretanto, os di\u00e1logos se estenderam tamb\u00e9m para os seus colegas uspianos e para outras pessoas que interagiam com ele em congressos de Geografia e em trabalhos de campo \u2013 com muitos deles se tornando, at\u00e9 mesmo, interlocutores durante toda a sua vida. O professor Florestan Fernandes foi um deles, visto que os dois cursaram a mesma Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, um no curso de Hist\u00f3ria e Geografia e o outro no de Sociologia. Fernandes se tornou, inclusive, um professor da USP e refer\u00eancia nos estudos de Sociologia brasileira. Ab\u2019S\u00e1ber atribuiu \u00e0 conviv\u00eancia com Florestan Fernandes o incentivo a estabelecer um olhar atento aos problemas socioecon\u00f4micos e \u00e0s desigualdades do Brasil e, em particular, a uma melhor compreens\u00e3o sobre as diferen\u00e7as culturais do pa\u00eds, a partir, sobretudo, dos ensinamentos da Antropologia, ci\u00eancia a que ele conferia um peso importante na sua forma\u00e7\u00e3o e que tamb\u00e9m contribuiu para subsidiar as suas an\u00e1lises do espa\u00e7o urbano \u2013 um tema recorrente nos seus textos, embora, como dissemos, ele tenha se dedicado, predominantemente, aos estudos da Geomorfologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>As pesquisas e a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica do professor Aziz Ab\u2019S\u00e1ber tem grande relev\u00e2ncia para v\u00e1rios campos do saber cient\u00edfico e vem carregada de inova\u00e7\u00f5es no uso do m\u00e9todo para analisar quest\u00f5es associadas \u00e0 din\u00e2mica da natureza e da rela\u00e7\u00e3o dos seres humanos com o seu meio. Conhecedor como poucos do territ\u00f3rio brasileiro em suas m\u00faltiplas escalas, o professor Aziz Ab\u2019S\u00e1ber foi um dos precursores, em parceria com o professor e zo\u00f3logo Paulo Em\u00edlio Vanzolini, da teoria dos ref\u00fagios para o entendimento dos dom\u00ednios morfoclim\u00e1ticos e fitogeogr\u00e1ficos do Brasil \u2013 teoria importante que visa explicar a evolu\u00e7\u00e3o e a din\u00e2mica de determinados ambientes naturais do territ\u00f3rio nacional. A bem da verdade, ele sempre dizia haver duas teorias que eram complementares, a dos ref\u00fagios, de Vanzolini, e a dos redutos, dele. O fato \u00e9 que, com os estudos abarcando tais teorias, que se complementam, houve um grande avan\u00e7o para o conhecimento sobre fragmentos florestais remanescentes que continuaram existindo, em pequenos tipos de flora e fauna, em \u00e1reas de outro dom\u00ednio morfoclim\u00e1tico, sendo eles registros que indicam as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas pelas quais o planeta Terra passou. Ou seja, em um determinado dom\u00ednio que atualmente predomina clima tropical \u00famido, com presen\u00e7a de florestas tropicais, h\u00e1 perman\u00eancia de fragmentos de vegeta\u00e7\u00e3o ou animais t\u00edpicos de dom\u00ednio de caatinga, sendo isso um indicador de que naquela \u00e1rea j\u00e1 teria ocorrido uma situa\u00e7\u00e3o de clima seco. Quanto \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da teoria dos redutos, o professor a considerava como resultado de uma influ\u00eancia dos m\u00e9todos de estudos adotados pelo ge\u00f3grafo Jean Tricart, o qual, segundo o pr\u00f3prio Ab\u2019S\u00e1ber enfatizava, foi o pesquisador que mais inspirou a sua carreira acad\u00eamica na Geografia. (Figura 2)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"726\" src=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2018\" srcset=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-1.png 768w, https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-1-300x284.png 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Figura 2. <\/strong>Os dom\u00ednios morfoclim\u00e1ticos do Brasil. (Fonte: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Esse estudo pioneiro da teoria dos ref\u00fagios\/redutos foi acompanhado de muitos outros do professor Aziz, tratando de temas com interface entre as ci\u00eancias naturais e as humanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O professor Aziz Ab\u2019S\u00e1ber deu uma expressiva contribui\u00e7\u00e3o para a moderniza\u00e7\u00e3o do pensamento geogr\u00e1fico brasileiro. A sua gera\u00e7\u00e3o, e ele foi um dos expoentes dela, colaborou para a transforma\u00e7\u00e3o da Geografia de uma ci\u00eancia descritiva para outra mais anal\u00edtica. O aporte do professor para a constru\u00e7\u00e3o de outra concep\u00e7\u00e3o de Geografia, que se difundiu para todos os n\u00edveis de ensino da disciplina, ocorreu por ele considerar, em seus estudos, que a paisagem era um corpo din\u00e2mico da superf\u00edcie terrestre, a qual resultava de processos fisiogr\u00e1ficos e biol\u00f3gicos em constante intera\u00e7\u00e3o. Tais ideias foram muito importantes para a constru\u00e7\u00e3o de novas abordagens sobre a natureza, especialmente no que diz respeito \u00e0s fei\u00e7\u00f5es paisag\u00edsticas e ecol\u00f3gicas do territ\u00f3rio brasileiro. Segundo o professor Aziz, o modelamento e as modifica\u00e7\u00f5es de tais fei\u00e7\u00f5es, que resultam da a\u00e7\u00e3o de agentes naturais end\u00f3genos e ex\u00f3genos, podiam se diferenciar segundo o grau de especificidades definidas pelos tipos particulares de relevo, solo, vegeta\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1tico-hidrol\u00f3gicas, constituindo uma integra\u00e7\u00e3o paisag\u00edstica e ecol\u00f3gica do territ\u00f3rio nacional. Isto \u00e9, a coer\u00eancia no interior de um conjunto de fei\u00e7\u00f5es geomorfol\u00f3gicas e clim\u00e1tico-bot\u00e2nicas, dada pelas especificidades apontadas acima, definia uma \u00e1rea nuclear, de \u201ccerta dimens\u00e3o e arranjo, em que as condi\u00e7\u00f5es fisiogr\u00e1ficas e biogeogr\u00e1ficas formam um complexo relativamente homog\u00eaneo e extensivo\u201d, conforme apontou em um de seus livros, \u201cOs dom\u00ednios de natureza no Brasil\u201d (2003). Tais dom\u00ednios, que o professor Aziz chamou de \u201cGrandes Dom\u00ednios Paisag\u00edsticos Brasileiros\u201d, conformavam um mosaico paisag\u00edstico e ecol\u00f3gico do territ\u00f3rio brasileiro. Desses estudos, derivou uma classifica\u00e7\u00e3o dos grandes conjuntos naturais do pa\u00eds, bastante difundida em diversas \u00e1reas da Geografia \u2013 do ensino \u00e0 Geografia Aplicada \u2013 denominada \u201cdom\u00ednio morfoclim\u00e1tico e fitogeogr\u00e1fico\u201d do Brasil. Entre um dom\u00ednio e outro, entretanto, h\u00e1 uma faixa de contato, a qual indica a ocorr\u00eancia de uma transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica com caracter\u00edsticas ambientais espec\u00edficas. O professor Aziz foi tamb\u00e9m um pioneiro na identifica\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas, as quais chamou de \u201cinterespa\u00e7o de transi\u00e7\u00e3o e contato\u201d, onde existe uma \u201ccombina\u00e7\u00e3o diferente de vegeta\u00e7\u00e3o, solos e formas de relevo\u201d, comparativamente ao dom\u00ednio de cada lado da faixa de transi\u00e7\u00e3o. Essa proposta de classifica\u00e7\u00e3o dos dom\u00ednios morfoclim\u00e1ticos brasileiros com suas faixas de transi\u00e7\u00e3o, juntamente com o material cartogr\u00e1fico elaborado, constitui um rico acervo did\u00e1tico, amplamente utilizado por distintas \u00e1reas do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cO professor Aziz tinha um conhecimento muito detalhado do territ\u00f3rio brasileiro e de suas din\u00e2micas naturais e de ocupa\u00e7\u00e3o humana, decorrente de seus estudos acad\u00eamicos e de suas muitas viagens realizadas pelo pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Al\u00e9m da contribui\u00e7\u00e3o do professor Aziz Ab\u2019S\u00e1ber para a Geografia F\u00edsica e para outros campos das ci\u00eancias da natureza, seus estudos tamb\u00e9m tiveram impactos nas ci\u00eancias humanas. No campo da Geografia Humana, dedicou uma parte de suas pesquisas para a compreens\u00e3o da interfer\u00eancia do homem no ambiente natural. Nesse sentido, uma de suas preocupa\u00e7\u00f5es incidia sobre o papel da urbaniza\u00e7\u00e3o como fator de altera\u00e7\u00e3o da natureza e os seus reflexos sobre o conjunto da sociedade; ele buscava compreender especialmente de que maneira o crescimento urbano desordenado produzia exclus\u00e3o e perigos para as pessoas que habitavam as vertentes \u00edngremes e as v\u00e1rzeas inund\u00e1veis das cidades. (Figura 3)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"574\" src=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2019\" srcset=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-2.png 768w, https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-2-300x224.png 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Figura 3.<\/strong> Aziz Ab\u2019S\u00e1ber participa do plantio de \u00e1rvores na Zona Leste de S\u00e3o Paulo. (Fonte: Devanir Am\u00e2ncio\/CBNPS. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Com o enfoque na Geografia Urbana, o professor Aziz escreveu v\u00e1rios trabalhos versando sobre as cidades de Salvador, Porto Alegre, Manaus e S\u00e3o Paulo. No que se refere a essa \u00faltima, fez relevantes reflex\u00f5es sobre o s\u00edtio urbano de S\u00e3o Paulo, descrevendo e analisando as diferentes regi\u00f5es da cidade. Em sua tese de doutorado \u201cA geomorfologia do s\u00edtio urbano de S\u00e3o Paulo\u201d, defendida em 1957 e publicada posteriormente em forma de livro, estudou, por exemplo, a ocupa\u00e7\u00e3o da plan\u00edcie do rio Tiet\u00ea com suas colinas no entorno, quando o rio ainda era meandrante e sua plan\u00edcie de inunda\u00e7\u00e3o era uma v\u00e1rzea coberta de pastos, onde os animais de servi\u00e7o se alimentavam, frequentemente muares que transportavam em suas carro\u00e7as mercadorias para o centro da cidade. Nessas \u00e1reas tamb\u00e9m havia, al\u00e9m dos clubes de regatas e nata\u00e7\u00e3o, os campos de futebol de v\u00e1rzea, chamados \u201ccampos de v\u00e1rzea\u201d, de onde vieram a maioria dos tradicionais clubes da capital e importantes jogadores do futebol paulista. Essa cidade do passado, segundo o professor Aziz, se transformou, com o seu avan\u00e7o acelerado da urbaniza\u00e7\u00e3o, na maior bacia urbana do Hemisf\u00e9rio Sul. Isto \u00e9, S\u00e3o Paulo passava de uma cidade que, nos anos 1950, ainda era um n\u00facleo urbano de extens\u00e3o restrita, assentado sobre colinas, terra\u00e7os fluviais e plan\u00edcies de inunda\u00e7\u00e3o, a outra, muito distinta e mais din\u00e2mica economicamente, mas tamb\u00e9m com os diversos problemas de ocupa\u00e7\u00e3o que foram se sucedendo \u00e0 medida que o tecido urbano se alargava, tendo como motor o processo especulativo imobili\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Uma vida dedicada \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da cidadania<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e humanista do professor Aziz foi tamb\u00e9m inspirada na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, especialmente a de car\u00e1ter regional. Ele fazia quest\u00e3o de lembrar que a leitura de importantes romancistas representava o passaporte para o resgate de uma gama de elementos presentes na paisagem e que as narrativas permitiam explicar a Geografia no seu sentido mais amplo, incluindo tanto a natureza quanto o homem. Foi um leitor atento dos seguintes romances: \u201cOs Sert\u00f5es\u201d, de Euclides da Cunha; \u201cVidas Secas\u201d, de Graciliano Ramos; \u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d e \u201cJubiab\u00e1\u201d, de Jorge Amado, entre muitos outros. Algumas dessas obras destacam a din\u00e2mica da natureza do clima semi\u00e1rido, mas tamb\u00e9m abordam as mazelas humanas, com as grandes desigualdades sociais, em regi\u00f5es marcadas pela concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra e pela explora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mais pobre \u2013 contrastes semelhantes ao que o professor Aziz verificou em seus trabalhos de campo tanto no s\u00edtio urbano de S\u00e3o Paulo, quando a cidade se transformou numa grande metr\u00f3pole, quanto nos distintos lugares do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O professor Aziz tinha um conhecimento muito detalhado do territ\u00f3rio brasileiro e de suas din\u00e2micas naturais e de ocupa\u00e7\u00e3o humana, decorrente de seus estudos acad\u00eamicos e de suas muitas viagens realizadas pelo pa\u00eds. Os trabalhos de campo come\u00e7aram desde muito cedo na sua forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria; as primeiras disciplinas cursadas na USP, sobretudo aquelas ministradas pelos professores franceses, utilizavam esse recurso did\u00e1tico para o estudo da paisagem, na medida em que essa era uma tradi\u00e7\u00e3o da Geografia Possibilista, de forte influ\u00eancia nos cursos de Geografia na Europa, especialmente na Fran\u00e7a. O primeiro trabalho de campo realizado no seu curso ocorreu com a disciplina ministrada pelo professor Pierre Monbeig e, segundo Ab\u2019S\u00e1ber, seria definidor de sua vida acad\u00eamica, porque a partir dele p\u00f4de tomar gosto pelas viagens para a observa\u00e7\u00e3o da paisagem. Durante a gradua\u00e7\u00e3o, somente conseguiu viajar pelo estado de S\u00e3o Paulo, mas, com a finaliza\u00e7\u00e3o de seu curso e j\u00e1 estudando na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, foi poss\u00edvel ampliar a sua escala de conhecimento do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O professor Aziz relatou, no j\u00e1 mencionado livro \u201cO que \u00e9 ser ge\u00f3grafo\u201d, que uma viagem que lhe marcou muito aconteceu em 1947, quando ele e seu amigo Miguel Costa Jr. \u2013 filho de um dos comandantes da Coluna Prestes, Miguel Costa \u2013 partiram para o Brasil Central, rumo \u00e0s cidades de Aragar\u00e7as (Goi\u00e1s) e Barra do Gar\u00e7a (Mato Grosso), situadas na conflu\u00eancia dos rios Araguaia e Gar\u00e7as. Al\u00e9m de terem conhecido novas \u00e1reas em outros estados, ampliando o seu leque de observa\u00e7\u00f5es sobre as paisagens f\u00edsicas e humanas, o mais interessante foi a maneira como os dois viajantes chegaram ao sert\u00e3o central do Brasil: deslocaram-se de trem at\u00e9 Uberl\u00e2ndia (Minas Gerais) e depois partiram para Mato Grosso na carroceria de um caminh\u00e3o, na qual se equilibravam, durante a viagem, sobre sacos de sal, a\u00e7\u00facar e feij\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em outra viagem, n\u00e3o menos aventureira, o professor Aziz se deslocou com o tamb\u00e9m seu amigo, o bi\u00f3logo e ocean\u00f3grafo Wladimir Besnard, para a cidade de Manaus (Amazonas), conhecendo pela primeira vez a Amaz\u00f4nia. Sobre essa viagem, Ab\u2019S\u00e1ber fez tamb\u00e9m relatos engra\u00e7ados da aventura que foi chegar \u00e0 cidade manauara. Segundo ele, o deslocamento de S\u00e3o Paulo para Manaus ocorreu numa \u201cfortaleza voadora\u201d, nome que se atribu\u00eda aos antigos avi\u00f5es da Segunda Guerra Mundial, cedidos para a For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira (FAB) pelo governo dos Estados Unidos. Entretanto, como relatou o professor no livro referido acima, a aeronave, cujos pilotos ainda estavam em treinamento, com muito custo conseguiu chegar a Salvador (Bahia), onde os passageiros fariam uma escala de voo. Ao aterrissar na capital baiana, a aeronave teve problemas el\u00e9tricos e somente foi consertada com a troca de pe\u00e7as de outra aeronave, n\u00e3o muito mais moderna. De acordo com o professor, os mec\u00e2nicos fizeram uma verdadeira \u201cgambiarra\u201d para colocar o avi\u00e3o no ar novamente, seguindo rumo a Manaus, mas n\u00e3o sem antes realizar mais uma escala em Bel\u00e9m (Par\u00e1). O mais engra\u00e7ado \u00e9 que ele e o amigo fizeram a viagem inteira em um espa\u00e7o muito apertado, localizado no bico da aeronave. Mesmo com todas essas aventuras, o professor Aziz reconhecia que essas duas viagens foram extremamente ricas, por revelarem um Brasil complexo, no que diz respeito tanto \u00e0 natureza quanto \u00e0s pessoas em seus lugares de vida.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cNo que diz respeito a essa quest\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o ambiental, o professor Aziz atuou al\u00e9m da universidade, com influ\u00eancia em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, com proposi\u00e7\u00e3o relevante para a execu\u00e7\u00e3o de planejamentos de pol\u00edticas p\u00fablicas.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O professor Aziz obteve reconhecimento tamb\u00e9m por seus estudos e atua\u00e7\u00f5es em favor da causa ambiental. No Brasil, foi um dos primeiros a ser reconhecido como ambientalista, por sua obstina\u00e7\u00e3o pela preserva\u00e7\u00e3o das \u00e1reas naturais, j\u00e1 prevendo que esse seria um dos grandes problemas que a humanidade enfrentaria no final do s\u00e9culo XX e nas primeiras d\u00e9cadas deste novo mil\u00eanio. Quando foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), de 1993 a 1995, conclamava os pesquisadores brasileiros \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de estudos que tivessem um car\u00e1ter interdisciplinar, bem como os alertava sobre a aten\u00e7\u00e3o que deveriam ter com as nossas riquezas naturais, em um momento em que essa quest\u00e3o ainda n\u00e3o despertava grande interesse da sociedade brasileira. Foi, nesse sentido, um defensor da Amaz\u00f4nia e do uso racional dos seus recursos naturais. Com essa mesma \u00eanfase, defendeu, nos anos 1990, que n\u00e3o ocorresse a privatiza\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o Companhia Vale do Rio Doce, pois acreditava que aquela empresa estatal era um patrim\u00f4nio da sociedade brasileira, que estava sendo usurpado pelos representantes do neoliberalismo, sem que estes esbo\u00e7assem qualquer compromisso pelo bem-estar da nossa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em outros epis\u00f3dios, o professor Aziz tamb\u00e9m convocava os pol\u00edticos, e os brasileiros em geral, para defenderem o patrim\u00f4nio natural brasileiro e para proporcionarem uma vida digna \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais sofrida, revela\u00e7\u00f5es feitas a partir das diversas viagens que realizou ao lado do ent\u00e3o candidato a presidente da rep\u00fablica Luiz In\u00e1cio Lula da Silva pelos rinc\u00f5es deste pa\u00eds, na denominada \u201cCaravana da Cidadania\u201d, no final dos anos 1990 e in\u00edcio dos 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No que diz respeito a essa quest\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o ambiental, o professor Aziz atuou al\u00e9m da universidade, com influ\u00eancia em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, com proposi\u00e7\u00e3o relevante para a execu\u00e7\u00e3o de planejamentos de pol\u00edticas p\u00fablicas. Por exemplo, durante a sua r\u00e1pida gest\u00e3o (de 1982 a 1983) na presid\u00eancia do Conselho de Defesa do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico, Arqueol\u00f3gico, Art\u00edstico e Tur\u00edstico do Estado de S\u00e3o Paulo (CONDEPHAAT), o professor contribuiu para dar continuidade \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o de pautas associadas ao tombamento de \u00e1reas naturais e foi enf\u00e1tico na defesa de que no referido \u00f3rg\u00e3o houvesse uma equipe t\u00e9cnica de apoio aos estudos de tombamento de \u00e1reas naturais, o que aconteceu na gest\u00e3o seguinte \u00e0 sua presid\u00eancia no CONDEPHAAT. Essa demanda de Ab\u2019S\u00e1ber foi realizada sob a gest\u00e3o do professor Antonio Augusto Arantes, de 1983 a 1984, com a nomea\u00e7\u00e3o, em 1983, de tal equipe, a qual, a partir daquele momento, ficou encarregada de apresentar estudos de viabilidade de tombamento de \u00e1reas ambientalmente protegidas em S\u00e3o Paulo, com elas servindo de refer\u00eancia ao patrim\u00f4nio paisag\u00edstico tombado do estado. Foi o caso, na \u00e9poca, do avan\u00e7o das discuss\u00f5es, no referido conselho, sobre o tombamento do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM), cuja proposta se concretizou em 1985. No entanto, foi na gest\u00e3o do professor Aziz que ocorreram os principais encaminhamentos para a concretiza\u00e7\u00e3o dessa importante iniciativa. Antes disso, em 1983, houve o tombamento de outras \u00e1reas naturais, tais como o Parque Estadual da Serra da Cantareira e o da Serra do Japi, no estado de S\u00e3o Paulo, iniciativas que contaram com a participa\u00e7\u00e3o ativa de Ab\u2019S\u00e1ber. O tombamento de \u00e1reas naturais, que se repetiu em diversas outras nos anos seguintes, significou a prote\u00e7\u00e3o de importantes remanescentes de Mata Atl\u00e2ntica e tamb\u00e9m contribuiu para a conten\u00e7\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e de outros interesses econ\u00f4micos por esses espa\u00e7os, evitando, assim, que ocorressem grandes interven\u00e7\u00f5es decorrentes da expans\u00e3o urbana, da explora\u00e7\u00e3o mineral e de outros mecanismos de apropria\u00e7\u00e3o das \u00e1reas naturais paulistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O professor Aziz pertencia a um grupo de expoentes intelectuais que n\u00e3o viam a academia apenas como um lugar de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento destinada a uma parcela privilegiada da popula\u00e7\u00e3o ou a poucas empresas hegem\u00f4nicas, mas acreditavam que a universidade deveria cumprir o seu papel social de produzir conhecimento tamb\u00e9m para os exclu\u00eddos, exatamente para aqueles que mais necessitavam dos avan\u00e7os conquistados pela academia. Por isso, ele pregava uma democratiza\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, rompendo os seus muros e irradiando os saberes produzidos para os diversos cantos do pa\u00eds. Essa democratiza\u00e7\u00e3o, entretanto, passava tamb\u00e9m, conforme avaliava, pelo acesso dos filhos de trabalhadores \u00e0 universidade, e, nesse sentido, ele foi um incans\u00e1vel defensor de melhorias nas escolas p\u00fablicas do ensino b\u00e1sico, por acreditar que essa seria a melhor alternativa para que o Brasil verdadeiramente se transformasse numa na\u00e7\u00e3o. Foi com esse esp\u00edrito humanista e de sensibilidade social que ele tamb\u00e9m se juntou aos movimentos sociais, buscando apoi\u00e1-los em suas manifesta\u00e7\u00f5es, especialmente naquelas que davam a esses movimentos mais possibilidades de exercerem a sua cidadania, conquista que, segundo ele, necessariamente passava pela escola e pela leitura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O acesso das pessoas ao livro, por exemplo, foi uma das suas buscas obstinadas. Ele considerava que a leitura poderia seduzir as pessoas para que valorizassem o conhecimento de maneira integrada, na medida em que ela ajudaria os seres humanos a alcan\u00e7arem novas descobertas e a se emanciparem das amarras das classes dominantes. Por isso, empreendeu uma luta para ampliar os canais de leitura tanto na universidade quanto nas periferias das grandes cidades, especialmente no estado de S\u00e3o Paulo. Durante muitos anos auxiliou na instala\u00e7\u00e3o de bibliotecas comunit\u00e1rias em associa\u00e7\u00f5es de bairro, em cursinhos pr\u00e9-vestibulares nas periferias urbanas, em \u00e1reas debaixo dos viadutos, em penitenci\u00e1rias, em escolas de samba, em quadras de torcidas organizadas de futebol, etc. Essa li\u00e7\u00e3o de cidadania foi outro legado importante deixado pelo professor Aziz para esta e as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A Geografia em sala<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A mesma dedica\u00e7\u00e3o que tinha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa, ao trabalho de difundir as atividades de leitura ou \u00e0 defesa da nossa biodiversidade, o professor Aziz tamb\u00e9m demonstrava em rela\u00e7\u00e3o ao ensino de Geografia. Preocupou-se sempre em tornar mais acess\u00edveis \u00e0s pessoas os estudos produzidos por ele, atrav\u00e9s, por exemplo, de materiais did\u00e1ticos que pudessem ser utilizados no ensino da disciplina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os seus textos e cadernos de atividades voltados para essa \u00e1rea eram cuidadosamente preparados e com frequ\u00eancia apresentavam textos de f\u00e1cil entendimento e com muitas ilustra\u00e7\u00f5es (perfis topogr\u00e1ficos, bloco-diagramas, desenhos esquem\u00e1ticos, fotografias, mapas, etc.), para que o leitor pudesse compreender de maneira mais agrad\u00e1vel \u00e0 teoria. A lousa utilizada em suas aulas era sempre bem ilustrada, com desenhos representando formas de relevo, esquemas de vegeta\u00e7\u00e3o e de bacias hidrogr\u00e1ficas com as orienta\u00e7\u00f5es dos cursos d\u2019\u00e1gua, etc. A capacidade de desenhar era uma heran\u00e7a que ele carregava desde o ensino b\u00e1sico, quando teve uma professora de desenho que o incentivou nessa habilidade. Ali\u00e1s, segundo ele, foi essa habilidade que possibilitou o seu ingresso no vestibular da USP: foi uma nota mais elevada nessa \u00e1rea do conhecimento que lhe permitiu a segunda coloca\u00e7\u00e3o na prova geral de ingresso.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cEle pregava uma democratiza\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, rompendo os seus muros e irradiando os saberes produzidos para os diversos cantos do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como professor, tamb\u00e9m manteve uma postura exemplar em suas aulas na universidade, em palestras ministradas ou em qualquer outra situa\u00e7\u00e3o em que ele era chamado para expor suas ideias. N\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o se o local era uma universidade renomada ou um pequeno sal\u00e3o coberto por lona, se era para alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ou para jovens de cursinhos pr\u00e9-vestibulares populares da periferia, a postura sempre foi a mesma, e com o mesmo entusiasmo discutia seus apontamentos. Al\u00e9m disso, era extremamente acess\u00edvel em sala de aula ou nas atividades de que participava fora da universidade. Dificilmente ele se recusava a atender a um convite para uma palestra em universidades ou para participar de eventos p\u00fablicos na periferia das grandes cidades. \u00c0s vezes ele se deslocava de transporte p\u00fablico at\u00e9 o local da atividade, onde costumava levar pessoalmente os livros para as bibliotecas comunit\u00e1rias. Ao chegar aos lugares, logo interagia com as outras pessoas. Percebia-se que a maior alegria dele nessas ocasi\u00f5es era quando algu\u00e9m perguntava algo sobre algum assunto que estudou durante a sua vida; isso era motivo para estabelecer um longo di\u00e1logo, que, \u00e0s vezes, se estendia por horas em divertidas conversas, sem que ele demonstrasse qualquer arrog\u00e2ncia sobre o seu profundo conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A erudi\u00e7\u00e3o era ponto de destaque em suas aulas, sem, entretanto, que a an\u00e1lise de uma teoria se transformasse em algo que pudesse caminhar para a incompreens\u00e3o de seus alunos e\/ou ouvintes. Ab\u2019S\u00e1ber tinha uma did\u00e1tica invej\u00e1vel. Nas suas exposi\u00e7\u00f5es, eram transmitidos os conceitos de determinados fen\u00f4menos f\u00edsicos ou humanos com todo o rigor acad\u00eamico, mas tamb\u00e9m para ensin\u00e1-los recorria a situa\u00e7\u00f5es do cotidiano, contadas frequentemente com muito bom humor. Eram recorrentes em suas exposi\u00e7\u00f5es refer\u00eancias de experi\u00eancias vividas nas muitas viagens que realizou pelo Brasil e pelo mundo, de sua inf\u00e2ncia em S\u00e3o Luiz do Paraitinga ou da vida de seus familiares que vieram do L\u00edbano, muitas vezes contadas com riqueza de detalhes e de um jeito engra\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Essa maneira de ensinar do professor Ab\u2019S\u00e1ber, combinada com o seu amplo conhecimento te\u00f3rico e emp\u00edrico das din\u00e2micas geogr\u00e1ficas especialmente do territ\u00f3rio brasileiro, fazia com que as salas de aula, os anfiteatros ou qualquer outro recinto estivessem sempre lotados por distintos tipos de p\u00fablicos, sobretudo por jovens estudantes que viam no discurso do velho professor a proposi\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es muito atuais sobre os problemas do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Uma breve conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c9 poss\u00edvel concluir que Aziz Ab\u2019S\u00e1ber deixou legados importantes para esta e as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros no campo da ci\u00eancia, da educa\u00e7\u00e3o e do acesso \u00e0 cidadania. No campo do conhecimento cient\u00edfico, aportou importantes ensinamentos, especialmente \u00e0s ci\u00eancias da natureza e \u00e0s ci\u00eancias humanas, com destaque para a Geografia e a Biologia. No caso da Geografia, trouxe grandes contribui\u00e7\u00f5es para os estudos dessa disciplina, a partir da constru\u00e7\u00e3o de reflex\u00f5es te\u00f3ricas, amparadas em estudos emp\u00edricos de suas incont\u00e1veis viagens pelo territ\u00f3rio brasileiro, que valorizavam os processos din\u00e2micos na constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o geogr\u00e1fico, transformado tanto pela a\u00e7\u00e3o da natureza quanto pela sociedade humana.<br><br>A sua hist\u00f3ria \u00e9 um exemplo para as novas gera\u00e7\u00f5es de pesquisadores, uma demonstra\u00e7\u00e3o de que o conhecimento produzido nas universidades n\u00e3o pode ser para poucos e muito menos ocorrer de maneira fragmentada pela hiperespecializa\u00e7\u00e3o e pelo carreirismo acad\u00eamico, t\u00e3o comuns nos dias de hoje na universidade, sendo ela cada vez mais burocr\u00e1tica e produtivista.<br><br>No \u00e2mbito da Geografia, \u00e9 um alerta para os jovens estudantes desse campo do conhecimento, muitos deles refrat\u00e1rios \u00e0s viagens aos rinc\u00f5es do pa\u00eds ou \u00e0s periferias das grandes cidades, \u00e0s vezes simplesmente pelo desinteresse em conhecer as realidades do Brasil e dos pa\u00edses pobres, as quais s\u00e3o permeadas por seus diversos contrastes, mas que s\u00e3o elucidativas dos processos contradit\u00f3rios, naquilo que o professor Aziz chamava de falta de \u00e9tica dos grandes agentes econ\u00f4micos, que s\u00f3 pensam no lucro e que s\u00e3o geradores de mis\u00e9ria de uma parcela cada vez maior da nossa sociedade. Em outras situa\u00e7\u00f5es os jovens estudantes s\u00e3o inibidos aos trabalhos de campo, motivados pela cultura do medo, t\u00e3o presente atualmente, difundida pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. A esses futuros ge\u00f3grafos, termino este texto com uma passagem do depoimento do professor Aziz a respeito do que ele pensava sobre a arte e a \u00e9tica na Geografia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-medium-font-size is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>\u201cToda vez que o conhecimento geogr\u00e1fico \u00e9 projetado para um conjunto de pessoas que vai trabalhar com planejamento, ele passa a ser altamente \u00e9tico e humanit\u00e1rio. S\u00e3o os ge\u00f3grafos que cuidam das rela\u00e7\u00f5es entre os homens, comunidades, sociedades e meio ambiente em que esses componentes b\u00e1sicos do planeta, junto com a vida vegetal e animal, t\u00eam o seu habitat\u201d<\/em><\/p>\n<cite>(Ab\u2019S\u00e1ber, 2007, p. 145).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<br>Imagem &#8211;<\/strong> <strong><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/agb.org.br\/selo-comemorativo-centenario-aziz-absaber\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SELO COMEMORATIVO \u2013 CENTEN\u00c1RIO AZIZ AB\u2019SABER<\/a><\/mark><\/strong>.<br><strong>Texto &#8211; <\/strong><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/educacao\/aziz-absaber-o-geografo-humanista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><strong>Prof. Vicente Eudes Lemos Alves para a Carta Capital<\/strong>.<\/mark><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisador atuou al\u00e9m da universidade, influenciando \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e sociedade com proposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. O professor Aziz Ab\u2019S\u00e1ber apresenta uma importante trajet\u00f3ria intelectual associada&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":169,"featured_media":2021,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-2016","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo-de-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/users\/169"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2016"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2016\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2030,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2016\/revisions\/2030"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}