{"id":2074,"date":"2024-05-18T14:45:43","date_gmt":"2024-05-18T17:45:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=2074"},"modified":"2024-05-18T14:45:44","modified_gmt":"2024-05-18T17:45:44","slug":"desta-vez-o-capitalismo-vai-mesmo-acabar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/desta-vez-o-capitalismo-vai-mesmo-acabar\/","title":{"rendered":"\u201cDesta vez o capitalismo vai mesmo acabar\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">D\u00favidas sobre o crescimento permanente da economia e da riqueza j\u00e1 existem desde Karl Marx e Friedrich Engels. Mas a mudan\u00e7a clim\u00e1tica d\u00e1 um novo impulso ao debate: ser\u00e1 que a escassez de recursos anuncia o fim do capitalismo? Uma discuss\u00e3o sobre o debate p\u00f3s-crescimento na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Desta vez \u00e9 realmente para valer: desta vez o capitalismo j\u00e1 passou do ponto. O que nem Karl Marx nem Friedrich Engels conseguiram, o que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa n\u00e3o conseguiu manter por muito tempo, o que a Alemanha Oriental, pretensamente o primeiro Estado socialista em terras alem\u00e3s, n\u00e3o conseguiu \u2013 eliminar o mercado livre e suas regras de jogo, bem como as rela\u00e7\u00f5es de poder \u2013 deve acontecer agora, devido ao fim previs\u00edvel das possibilidades naturais de expans\u00e3o. \u201cDesta vez o capitalismo vai mesmo acabar\u201d, acredita a jornalista Ulrike Herrmann, que apresenta sua tese no livro Das Ende des Kapitalismus (O fim do capitalismo), publicado em 2022. Sem revolu\u00e7\u00e3o, sem o levante de massas oprimidas \u2013 na verdade, devido \u00e0 crise do clima, cuja consequ\u00eancia ser\u00e1 uma economia em redu\u00e7\u00e3o. O resultado disso ser\u00e1 a senten\u00e7a de morte de um sistema econ\u00f4mico baseado no crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A cr\u00edtica a crescimento n\u00e3o \u00e9 nova<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A posi\u00e7\u00e3o dessa historiadora e fil\u00f3sofa alinha-se ao movimento de pessoas cr\u00edticas ao crescimento, que ganha tamb\u00e9m na Alemanha cada vez mais simpatizantes. A d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o a uma forma econ\u00f4mica voltada exclusivamente para o crescimento n\u00e3o \u00e9 nova. At\u00e9 mesmo o ministro alem\u00e3o da Economia da \u00e9poca da reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, Ludwig Ehrhard, que era absolutamente insuspeito quanto \u00e0 ideologia socialista, chegou a refletir sobre o assunto depois de anos de grande crescimento: ele especulava se ap\u00f3s esse desenvolvimento n\u00e3o viria uma fase \u201cem que devemos nos perguntar o que \u00e9 realmente mais importante ou valioso\u201d, e esclareceu: \u201ctrabalhar ainda mais ou levar uma vida mais confort\u00e1vel, melhor e com mais liberdade, renunciando talvez conscientemente a alguns prazeres materiais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nas d\u00e9cadas seguintes, houve uma cr\u00edtica repetida e dura em maior ou menor grau \u00e0 doutrina do crescimento, at\u00e9 porque os lados destrutivos do consumo ilimitado de recursos foram se tornando cada vez mais aparentes. O primeiro \u00e1pice aconteceu por ocasi\u00e3o do relat\u00f3rio do Clube de Roma, que previu os \u201climites do crescimento\u201d em 1972. Por outro lado, a economia orientada para o crescimento trazia mais riqueza para a popula\u00e7\u00e3o. Nem as pessoas de esquerda cr\u00edticas ao capitalismo nem o ceticismo quanto ao crescimento por parte da vanguarda conservadora eram p\u00e1reo para isso. O debate voltou a ganhar import\u00e2ncia nos anos da crise financeira internacional e novamente devido \u00e0s quest\u00f5es cada vez mais prementes de prote\u00e7\u00e3o ao clima.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"983\" height=\"431\" src=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2075\" srcset=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-7.png 983w, https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-7-300x132.png 300w, https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-7-768x337.png 768w\" sizes=\"(max-width: 983px) 100vw, 983px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Bra\u00e7o do Rio Reno raso devido \u00e0 seca: a navega\u00e7\u00e3o fluvial no Rio Reno foi limitada e, por vezes, impossibilitada em 2022.<br>Foto (detalhe): \u00a9 picture alliance \/ Daniel Kubirski<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Economia na rota de redu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Foi nesse contexto que o movimento do decrescimento se iniciou. O termo descreve o contr\u00e1rio de uma forma econ\u00f4mica baseada no crescimento permanente: a rota da redu\u00e7\u00e3o. \u201cPrecisamos de uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental na economia\u201d, advoga o soci\u00f3logo Matthias Schmelzer, da Universidade de Jena, em prol de uma despedida dos princ\u00edpios da economia de mercado. The Future is Degrowth (O futuro \u00e9 decrescimento) \u00e9 o t\u00edtulo do livro que publicou com colegas e que pretende ser um guia para um mundo ap\u00f3s o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Schmelzer e Herrmann t\u00eam em comum a suposi\u00e7\u00e3o de que a redu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de di\u00f3xido de carbono n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada apenas atrav\u00e9s das energias renov\u00e1veis e do progresso tecnol\u00f3gico. \u201cO \u2018crescimento verde\u2019 \u00e9 uma ilus\u00e3o, pois a energia ecol\u00f3gica n\u00e3o ser\u00e1 suficiente\u201d, afirma categoricamente Herrmann. Schmelzer indica o fato de que as emiss\u00f5es de gases causadores do efeito estufa teriam que ser reduzidas em 10% anualmente. \u201cMas isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d, afirma ele. Assim, mais crescimento n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o nem para ela nem para ele. Mas os pontos em comum acabam na hora de se tirar as conclus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201ceconomia de sobreviv\u00eancia\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Hermann considera necess\u00e1ria a reestrutura\u00e7\u00e3o do capitalismo em uma \u201ceconomia de sobreviv\u00eancia\u201d. Como modelo concreto, ela indica a economia brit\u00e2nica durante a Segunda Guerra Mundial. Na \u00e9poca, o Estado assumiu grande parte do controle econ\u00f4mico, pois uma boa parte das unidades de produ\u00e7\u00e3o era necess\u00e1ria para as for\u00e7as armadas. O governo estabelecia diretrizes para o consumo e a produ\u00e7\u00e3o civil. \u00c9 fato que n\u00e3o houve uma estatiza\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas, fazendas ou oficinas artesanais, a economia continuou a ser privada. Mas o Estado assumiu a atribui\u00e7\u00e3o de material, energia e m\u00e3o de obra, levando assim a economia civil para uma rota de redu\u00e7\u00e3o. Mercadorias e bens foram racionalizados, mas continuaram dispon\u00edveis para cada moradia. \u201cGerir com escassez\u201d, \u00e9 como Herrmann resume esse modelo para uma futura economia circular com neutralidade clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"983\" height=\"432\" src=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2076\" srcset=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-8.png 983w, https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-8-300x132.png 300w, https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2024\/05\/image-8-768x338.png 768w\" sizes=\"(max-width: 983px) 100vw, 983px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>As ideias para o decrescimento v\u00e3o de uma redu\u00e7\u00e3o controlada pelo Estado a uma economia de subsist\u00eancia mais regional. As galinhas em uma vitrine em Col\u00f4nia s\u00e3o pensadas provavelmente para a \u00faltima alternativa. Foto (detalhe): \u00a9 picture alliance \/ imageBROKER \/ scully<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O soci\u00f3logo Schmelzer prefere falar de uma era p\u00f3s-crescimento do que do fim do capitalismo. O movimento do decrescimento imagina um mundo que reduz consideravelmente o consumo atrav\u00e9s, por exemplo, de cooperativas de produ\u00e7\u00e3o em pequenas comunidades ou do compartilhamento de bens de consumo. A ideia \u00e9 dar um toque positivo ao consumo reduzido de recursos, porque, por exemplo, menos trabalho significa menos dinheiro, mas mais qualidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>As vis\u00f5es ainda est\u00e3o em fase inicial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Basicamente o importante para Schmelzer \u00e9 abordar os pontos cr\u00edticos essenciais da m\u00e1xima do crescimento: ela destr\u00f3i o fundamento ecol\u00f3gico da vida humana, aliena as pessoas de seu trabalho, de seus relacionamentos e da natureza e incentiva a acumula\u00e7\u00e3o capitalista e a explora\u00e7\u00e3o, especialmente de mulheres e pessoas do Sul Global. De acordo com sua vis\u00e3o, tudo isso acabaria se a economia dos pa\u00edses industriais fosse reduzida e a utiliza\u00e7\u00e3o de recursos fosse distribu\u00edda de forma justa pelo mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cA procura de conceitos ainda est\u00e1 come\u00e7ando\u201d, admite Schmelzer. E Herrmann tampouco oferece um caminho concreto rumo a uma economia independente do crescimento e que se distancie das m\u00e1ximas do capitalismo, como concorr\u00eancia, desenvolvimento tecnol\u00f3gico e tamb\u00e9m a gan\u00e2ncia. O necess\u00e1rio agora s\u00e3o conceitos vi\u00e1veis para que o debate sobre o decrescimento possa continuar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<br>Imagem \u2013<\/strong>\u00a0<strong><mark><a href=\"https:\/\/www.goethe.de\/prj\/hum\/pt\/nac\/24740953.html?fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTAAAR3nZs6mmap8wFQL3bRB2GmGjW5hTjgJS0zNZqK_Hv-VoZQmqufVzMtSLOo_aem_AUyFWIGVK457A-TLW8RXWOKlVv4xAqB28vUrF_SlLNmUB43jeRMZrNix4xHYrtEtEMh4JHCfrXarNqAvvIvQS58k\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Goethe Institut<\/a><\/mark><\/strong>.<br><strong>Texto \u2013\u00a0<\/strong><mark><mark class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><strong><a href=\"https:\/\/www.goethe.de\/prj\/hum\/pt\/aut\/mul.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wolfgang Mulke.<\/a><\/strong><\/mark><\/mark><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00favidas sobre o crescimento permanente da economia e da riqueza j\u00e1 existem desde Karl Marx e Friedrich Engels. 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