{"id":2208,"date":"2024-07-19T13:18:30","date_gmt":"2024-07-19T16:18:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=2208"},"modified":"2024-07-19T13:18:30","modified_gmt":"2024-07-19T16:18:30","slug":"desastre-planetario-negacionismo-e-revolta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/desastre-planetario-negacionismo-e-revolta\/","title":{"rendered":"Desastre planet\u00e1rio, negacionismo e revolta"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>Planeta vive, desde a virada do s\u00e9culo, sucess\u00e3o incomum de crises, guerras e ataques \u00e0 natureza. Governos e corpora\u00e7\u00f5es vendam os olhos diante do abismo. Para evit\u00e1-lo, precisamos de rupturas institucionais recivilizadoras.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>POR: <\/strong>Luiz Marques*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A evid\u00eancia do desastre planet\u00e1rio em curso e a nega\u00e7\u00e3o dessa evid\u00eancia, ou ao menos a recusa em admiti-la plenamente, s\u00e3o os dois tra\u00e7os definidores do nosso tempo. De onde a posi\u00e7\u00e3o central em nossos dias do problema do negacionismo, fomentado pela desinforma\u00e7\u00e3o e pelo autoengano. Negacionismo \u00e9 um termo poliss\u00eamico, que apresenta diversas facetas e grada\u00e7\u00f5es, desde a mais tosca e pueril, t\u00edpica da extrema-direita, \u00e0 mais douta e universit\u00e1ria, camuflada na fic\u00e7\u00e3o do \u201ccrescimento sustent\u00e1vel\u201d. Ao contr\u00e1rio da acep\u00e7\u00e3o original do termo negacionismo, que tentava relativizar ou negar a exist\u00eancia dos campos de exterm\u00ednio criados pelo Terceiro Reich, o negacionismo contempor\u00e2neo tem por foco descreditar o consenso cient\u00edfico. Ele deve ser definido como a recusa cega e irracional em aceitar os alertas cient\u00edficos sobre as causas das cat\u00e1strofes locais e regionais j\u00e1 observadas cotidianamente, sendo que tal recusa implica escolher a pr\u00f3pria ru\u00edna. Essa escolha \u00e9 motivada em geral por interesse econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m pela ideologia do desenvolvimentismo, por um investimento na pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia, por fanatismo religioso e, mais frequentemente, por um misto de todas essas motiva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No quadro geral desse desastre planet\u00e1rio, a emerg\u00eancia clim\u00e1tica e a aniquila\u00e7\u00e3o da biodiversidade s\u00e3o as crises mais sist\u00eamicas. O clima \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade das florestas e as florestas s\u00e3o, por sua vez, a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da estabilidade do clima. Sem um clima minimamente est\u00e1vel e sem florestas n\u00e3o h\u00e1 agricultura, estabilidade dos ciclos hidrol\u00f3gicos e, sobretudo, possibilidade de regula\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica dos organismos. N\u00e3o podemos \u2013 n\u00f3s e as demais esp\u00e9cies \u2013 sobreviver fora de nosso nicho clim\u00e1tico.<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote1sym\"><sup><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">i<\/mark><\/sup><\/a>\u00a0<\/strong>Trata-se de uma impossibilidade biol\u00f3gica, indiferente \u00e0s pretensas balas de prata da tecnologia. Mas h\u00e1 muito mais a nos confrontar do que a emerg\u00eancia clim\u00e1tica e a biodiversidade. O adensamento (intensifica\u00e7\u00e3o e maior frequ\u00eancia) de in\u00fameras crises sist\u00eamicas, agindo em sinergia e refor\u00e7ando-se reciprocamente, indicam de modo cada vez mais inequ\u00edvoco a imin\u00eancia de um desastre coletivo. Esbocemos um quadro geral das mais importantes dessas crises:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">1. aumento cont\u00ednuo do consumo de energia (sobretudo f\u00f3ssil, mas n\u00e3o apenas)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">2. aumento igualmente cont\u00ednuo da minera\u00e7\u00e3o, com inaceit\u00e1veis impactos ambientais<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">3. desestabiliza\u00e7\u00e3o do sistema clim\u00e1tico sobretudo pela queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">4. desregula\u00e7\u00e3o dos ciclos hidrol\u00f3gicos (secas e inunda\u00e7\u00f5es) como efeito dessa desestabiliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">5. eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, afetando infraestrutura, recursos h\u00eddricos e ecossistemas costeiros<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">6. substitui\u00e7\u00e3o da agricultura pelo agroneg\u00f3cio no \u00e2mbito da globaliza\u00e7\u00e3o do sistema alimentar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">7. destrui\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o das florestas e demais mantas vegetais naturais pelo agroneg\u00f3cio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">8. antropiza\u00e7\u00e3o, artificializa\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica dos solos sobretudo pelo agroneg\u00f3cio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">9. maior risco de epidemias e pandemias com maior extens\u00e3o geogr\u00e1fica de seus vetores<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">10. facilita\u00e7\u00e3o de zoonoses pela cria\u00e7\u00e3o intensiva de animais para a alimenta\u00e7\u00e3o humana<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">11. aumento explosivo da gera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos, inclusive na estratosfera<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">11. intoxica\u00e7\u00e3o qu\u00edmico-industrial da biosfera, com adoecimento crescente dos organismos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">12. diminui\u00e7\u00e3o acentuada da fertilidade humana e de outras esp\u00e9cies<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">13. sobrepesca e destrui\u00e7\u00e3o generalizada da vida mar\u00edtima<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">14. aumento das esp\u00e9cies invasoras em escala global<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">15. empobrecimento gen\u00e9tico das esp\u00e9cies selecionadas pelo agroneg\u00f3cio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">16. crescente resist\u00eancia bacteriana ao uso de antibi\u00f3ticos em humanos e outros animais<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>17. aniquila\u00e7\u00e3o da biodiversidade decorrente dos dezesseis fatores precedentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">19. riscos crescentes de novas tecnologias (geoengenharia, nanotecnologia, nuclear etc.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">20. opacidade e transfer\u00eancia crescente de poder decis\u00f3rio aos algoritmos de IA<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">21. emprego desses algoritmos para a substitui\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">22. manipula\u00e7\u00e3o de comportamentos por esses algoritmos, exacerbando o individualismo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">23. emprego desses algoritmos para fomentar o descr\u00e9dito \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 democracia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">24. surtos de irracionalismo e, em particular, do fanatismo religioso<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">25. aumento das desigualdades e concentra\u00e7\u00e3o de poder nas m\u00e3os de oligarquias econ\u00f4micas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">26. financeiriza\u00e7\u00e3o extrema da esfera econ\u00f4mica<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">27. preponder\u00e2ncia da economia como crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o do sucesso das sociedades<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">28. redu\u00e7\u00e3o dos Estados \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de facilitadores e gestores das demandas do mercado<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">29. recrudescimento do patriarcalismo, do racismo e de ideologias nacionalistas e nazifascistas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>30. prolifera\u00e7\u00e3o de guerras e de conflitos armados, decorrente dos 29 fatores precedentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Embora de tipos e naturezas muito diversas, essas crises representam facetas interligadas de uma \u00fanica crise planet\u00e1ria da civiliza\u00e7\u00e3o a que se d\u00e1 o nome de capitalismo globalizado (a\u00ed inclu\u00eddos, obviamente, a R\u00fassia e a China). Essa crise planet\u00e1ria pode ser melhor caracterizada como a crise de nossa civiliza\u00e7\u00e3o termo-f\u00f3ssil, uma civiliza\u00e7\u00e3o baseada na queima de carbono, na destrui\u00e7\u00e3o da biosfera, na acumula\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de capital por megacorpora\u00e7\u00f5es, na dissocia\u00e7\u00e3o homem-natureza, na ilus\u00e3o da potencia\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica ilimitada e na ideologia de que n\u00e3o h\u00e1 outro mundo poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No quadro geral desse elenco de crises, a emerg\u00eancia clim\u00e1tica, a aniquila\u00e7\u00e3o da biodiversidade, a intoxica\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria e as guerras (com risco agora extremo de uma guerra nuclear entre a R\u00fassia e a OTAN) t\u00eam potencial, mesmo consideradas isoladamente, para amea\u00e7ar existencialmente as civiliza\u00e7\u00f5es humanas e a sobreviv\u00eancia de milh\u00f5es de esp\u00e9cies, a nossa inclu\u00edda. Mas elas est\u00e3o associadas entre si e agem em sinergia com as demais crises acima enunciadas, de modo que o caos irrevers\u00edvel que elas est\u00e3o em vias de engendrar torna-se uma quase certeza. Ocorre que h\u00e1 um bloqueio cognitivo, ideol\u00f3gico, emocional e psicol\u00f3gico das sociedades em aceitar e compreender essa quase certeza. E esse bloqueio, vale dizer, o negacionismo contempor\u00e2neo em todas as suas facetas e grada\u00e7\u00f5es, \u00e9, ele pr\u00f3prio, o fator decisivo na passagem da quase certeza para a certeza. O negacionismo contempor\u00e2neo torna-se, assim, o fator decisivo a nos precipitar nesse caos. Ele \u00e9 o maior respons\u00e1vel pela baixa reatividade das sociedades face \u00e0 ru\u00edna que j\u00e1 come\u00e7a a se abater sobre a vida na Terra. Se n\u00e3o houver uma revolta pol\u00edtica das sociedades \u00e0 altura da extrema gravidade dessa poli\u00e9drica crise planet\u00e1ria, a condena\u00e7\u00e3o ao pior num futuro cada vez mais pr\u00f3ximo \u00e9 inapel\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>A recusa da guerra e a revaloriza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Essa revolta pol\u00edtica contra o caos tem por condi\u00e7\u00e3o primeira de possibilidade a revaloriza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e a recusa de sua substitui\u00e7\u00e3o pela guerra. Clausewitz est\u00e1 errado quando afirma que a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote2sym\"><sup>ii<\/sup><\/a>&nbsp;Essa tese \u00e9 repetida&nbsp;<em>ad nauseam&nbsp;<\/em>pelos que lucram com a guerra ou, mais amplamente, pelos que a consideram inevit\u00e1vel, posto que resultante da agressividade de nossa esp\u00e9cie. Ningu\u00e9m ignora que nossa esp\u00e9cie \u00e9 extremamente agressiva e que a guerra \u00e9 parte constitutiva da hist\u00f3ria humana. Mas justamente por isso a pol\u00edtica \u00e9 a mais importante inven\u00e7\u00e3o de nossa esp\u00e9cie, pois sua finalidade \u00e9 dupla. Antes de mais nada, a pol\u00edtica permite conter e controlar essa agressividade, sublim\u00e1-la e canaliz\u00e1-la para o jogo de enfrentamentos extremos,&nbsp;<em>mas civis e pac\u00edficos<\/em>, entre grupos sociais, entre alian\u00e7as partid\u00e1rias, parlamentares e eleitorais. \u00c9 justa a invers\u00e3o da f\u00f3rmula de Clausewitz proposta por Michel Foucault, quando afirma em 1976 que \u201ca pol\u00edtica \u00e9 a guerra continuada por outros meios\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote3sym\"><sup>iii<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mas se a pol\u00edtica \u00e9 uma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra, ela \u00e9 tamb\u00e9m a inven\u00e7\u00e3o pela qual \u00e9 poss\u00edvel fortalecer a outra componente constitutiva de nossa esp\u00e9cie e de nossa hist\u00f3ria: a coopera\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica permite imaginar outras formas de civiliza\u00e7\u00e3o nas quais a linguagem, a l\u00f3gica, o conhecimento da experi\u00eancia hist\u00f3rica, os padr\u00f5es de causalidade, a argumenta\u00e7\u00e3o, o direito e as aspira\u00e7\u00f5es \u00e0 justi\u00e7a t\u00eam melhores condi\u00e7\u00f5es de prevalecer sobre nossa agressividade. Pol\u00edtica e linguagem s\u00e3o duas faces da mesma moeda. Ambas constituem em geral o dom\u00ednio do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio e \u00e9 delas que se faz a subst\u00e2ncia do melhor de qualquer civiliza\u00e7\u00e3o. A guerra, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do poder da linguagem e, portanto, a desist\u00eancia do projeto humano. Al\u00e9m de negar esse projeto, a guerra funciona, hoje, como: (1) uma poderosa al\u00e7a de retroalimenta\u00e7\u00e3o de todas as crises acima enunciadas e (2) um obst\u00e1culo fundamental a qualquer esfor\u00e7o de concerta\u00e7\u00e3o entres as sociedades para atenuar os impactos atuais e vindouros das crises planet\u00e1rias, de modo a torn\u00e1-los menos adversos \u00e0s sociedades e \u00e0 vida pluricelular em geral. Hoje, mais que nunca, a guerra deve ser evitada, se temos, de fato, alguma inten\u00e7\u00e3o de sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>O tri\u00eanio 2006-2008<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As torres g\u00eameas de 2001, a guerra do Afeganist\u00e3o (2001-2020), os massacres da OTAN no Kosovo e sua expans\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao leste europeu (1999 \u2013 2009) e, sobretudo, a invas\u00e3o do Iraque em 2003 pelos EUA, que engendrou as guerras sucessivas do autodenominado Estado Isl\u00e2mico (2004-2019), encerraram de vez o per\u00edodo em que o capitalismo globalizado podia gerar ao menos a ilus\u00e3o de que algum consenso pol\u00edtico era poss\u00edvel. Nesse contexto de guerras, o tri\u00eanio 2006 \u2013 2008 v\u00ea a conjun\u00e7\u00e3o de tr\u00eas grandes crises intimamente interligadas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(1) A ultrapassagem do pico da curva ascendente de oferta do petr\u00f3leo convencional em 2006. Como afirma a Ag\u00eancia Internacional de Petr\u00f3leo (AIE) em seu relat\u00f3rio de 2010: \u201ca oferta de petr\u00f3leo cru atinge um plat\u00f4 ondulante entre 68 e 69 milh\u00f5es de barris por dia (mb\/d) at\u00e9 2020, mas nunca mais ultrapassa seu pico de 70 mb\/d atingido em 2006, enquanto a produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s natural l\u00edquido (NGLs) e de petr\u00f3leo n\u00e3o convencional cresce fortemente\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote4sym\"><sup>iv<\/sup><\/a>\u00a0A ultrapassagem desse pico da curva de oferta de petr\u00f3leo convencional representa o fim da era do petr\u00f3leo barato e facilmente acess\u00edvel, com duas implica\u00e7\u00f5es: (a) um EROI (Energy Returned on Investement, ou seja, a taxa de energia recuperada por energia investida) cada vez mais desfavor\u00e1vel e (b) crescentes emiss\u00f5es de gases de efeito estufa por cada barril de petr\u00f3leo n\u00e3o convencional extra\u00eddo. Entre outros fatores mais conjunturais, a percep\u00e7\u00e3o do fim dessa era do petr\u00f3leo barato e facilmente acess\u00edvel causou um salto sem precedentes dos pre\u00e7os do barril do Brent (US$ 146,00 em julho de 2008). A crise financeira de 2008, em parte causada por esses pre\u00e7os estratosf\u00e9ricos, precipitou uma queda n\u00e3o menos brutal desses pre\u00e7os e, sucessivamente, uma cr\u00f4nica instabilidade nesse mercado, como mostra a <strong>Figura 1<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 1 \u2013 Pre\u00e7os do barril de petr\u00f3leo cru (Brent) em d\u00f3lares entre 2006 e 2022<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3096747\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.statista.com\/chart\/27000\/brent-crude-barrel-price-timeline\/\">Statista, baseado em investing.com<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(2) A crise dos \u201csubprimes\u201d nos EUA foi o estopim de um colapso financeiro mundial e possivelmente de uma desestabiliza\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel da ordem financeira global, assim como um ponto de n\u00e3o retorno no processo de concentra\u00e7\u00e3o de capital e renda. Nos EUA, desde 2008, como bem salienta Victoria Finkle:<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote5sym\"><sup>v<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u201cO fosso entre os ricos e todos os outros tamb\u00e9m aumentou. O 1% mais rico dos americanos controla agora [2018] quase 40% da riqueza do pa\u00eds, enquanto os pr\u00f3ximos 9% controlam quase a mesma quantidade. A grande maioria dos americanos, entretanto, viu a sua quota cair desde a crise \u2013 os 90% mais pobres detinham pouco mais de 20% da riqueza total em 2016, abaixo dos cerca de 30% no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Outro efeito dessa crise foi a maior polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na sociedade norte-americana, com seus reflexos nos estados sat\u00e9lites da Europa. A incapacidade das sociedades de vislumbrar uma alternativa sist\u00eamica e radical ao capitalismo causou o paradoxo maior dessa crise no \u00e2mbito pol\u00edtico e ideol\u00f3gico: os protagonistas do neoliberalismo mais predat\u00f3rio assumiram aos olhos de segmentos importantes da sociedade a imagem salv\u00edfica de pol\u00edticos \u201cantissistema\u201d. Em alguma medida, Trump, o Tea Party e a extrema-direita europeia e latino-americana (Bolsonaro, Milei etc.) s\u00e3o o resultado \u00faltimo da crise de 2008 ou, mais precisamente, do rancor das sociedades em face de um capitalismo financeiro globalizado incapaz de atender \u00e0s suas m\u00ednimas expectativas de seguran\u00e7a econ\u00f4mica. Neste terceiro dec\u00eanio, cresce entre os analistas do sistema financeiro internacional o temor de uma pr\u00f3xima crise financeira de magnitude igual ou superior \u00e0 de 2008.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote6sym\"><sup>vi<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(3) Em 2007-2008, registra-se um primeiro surto nos pre\u00e7os dos alimentos, repetido em 2011, decorrente de secas exacerbadas pela emerg\u00eancia clim\u00e1tica, de especula\u00e7\u00e3o financeira sobre as \u201ccommodities\u201d agropecu\u00e1rias e de carteliza\u00e7\u00e3o dos insumos agr\u00edcolas por megacorpora\u00e7\u00f5es agroqu\u00edmicas, surto este que gerou as revoltas da fome em mais de 40 pa\u00edses e a chamada primavera \u00e1rabe. A <strong>Figura 2<\/strong> mostra esses dois saltos (2008 e 2011) nos pre\u00e7os dos alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 2 \u2013 \u00cdndice de pre\u00e7os dos alimentos da FAO (FFPI) entre 1990 e 2013.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3096746\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Observa\u00e7\u00e3o: o FFPI \u00e9 uma medida da varia\u00e7\u00e3o mensal dos pre\u00e7os internacionais de uma cesta de produtos alimentares.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>A prolifera\u00e7\u00e3o de guerras no segundo dec\u00eanio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em parte como resultado desses tr\u00eas fatores, rebentam a partir de 2011 as guerras ainda em curso na S\u00edria, na L\u00edbia (com o massacre da popula\u00e7\u00e3o civil por sete mil incurs\u00f5es de bombardeio da OTAN em 2011), no I\u00eamen (a partir de 2014) e em diversos pa\u00edses da \u00c1frica subsaariana. Segundo a FAO, ap\u00f3s dec\u00eanios de progressos cont\u00ednuos na diminui\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a alimentar, inverte-se ap\u00f3s 2014 essa tend\u00eancia com maior generaliza\u00e7\u00e3o da fome, intensificadas por governos neoliberais e, mais recentemente, pela pandemia, pela guerra da Ucr\u00e2nia e demais guerras. A partir do terceiro dec\u00eanio, guerras e conflitos armados internos ou entre dois ou mais estados nacionais alastram-se ainda mais pela \u00c1frica, \u00c1sia e Europa. Alguns exemplos disso s\u00e3o as guerras que eclodem entre 2021 e 2023 em Mianmar, Ucr\u00e2nia, Sud\u00e3o e Eti\u00f3pia, bem como o genoc\u00eddio do povo palestino pelo Estado de Israel com armas e apoio dos EUA e da Europa e com a mais total indiferen\u00e7a dos pa\u00edses \u00e1rabes (2023-2024). Essas guerras e as tens\u00f5es crescentes entre Israel e o Ir\u00e3 adicionam ainda mais instabilidade \u00e0 seguran\u00e7a energ\u00e9tica e alimentar. O Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) inventariou 56 Estados nacionais em conflito armado em 2022, cinco a mais do que em 2021.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote7sym\"><sup>vii<\/sup><\/a>\u00a0O relat\u00f3rio de 2024 do SIPRI registra despesas militares globais de mais de 2,4 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2023, um aumento de 6,8% em termos reais em rela\u00e7\u00e3o a 2022 e o maior aumento desde 2009. As despesas em \u201cdefesa\u201d dos EUA montam a US$ 916 bilh\u00f5es em 2023 (US$ 778 bilh\u00f5es em 2020) e dos 31 pa\u00edses da OTAN, a mais de US$ 1,3 trilh\u00e3o ou 55% das despesas militares globais. E posto que armas pedem guerras, a <strong>Figura 3<\/strong> mostra o alastramento global de conflitos armados a partir do segundo dec\u00eanio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Figura 3 \u2013 N\u00famero de conflitos armados em escala global entre 1990 e 2022.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3096745\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Fonte: Joshua Keating, \u201cIt\u2019s not your imagination. There has been more war lately\u201d. Vox, 25\/I\/2024, baseado em dados do Uppsala Conflict Data Program e do Peace Research Institute Oslo (2023)<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Guerras entre humanos e guerra contra a natureza s\u00e3o as duas faces interligadas do desastre planet\u00e1rio em curso, com suas v\u00edtimas cada vez mais numerosas. O Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC), de Genebra, contabiliza apenas em 2023 deslocamentos internos de 75,9 milh\u00f5es de pessoas no mundo todo, o que representa um novo recorde mundial, sendo que desse total, 68,3 milh\u00f5es perderam seus locais de resid\u00eancia por causa de guerras e conflitos armados e 7,7 milh\u00f5es em decorr\u00eancia de desastres, a maior parte deles causados ou exacerbados pela emerg\u00eancia clim\u00e1tica e pelo desmatamento. O n\u00famero de deslocados internos cresceu 50% nos \u00faltimos cinco anos.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote8sym\"><sup>viii<\/sup><\/a>\u00a0De seu lado, o Global Report on Food Crises 2024 contabiliza 90,2 milh\u00f5es de pessoas desalojadas em 2023, sendo 64,3 milh\u00f5es em deslocados internamente em 38 pa\u00edses ou territ\u00f3rios e 26 milh\u00f5es de refugiados em busca de abrigo em outros pa\u00edses, um aumento ininterrupto de v\u00edtimas desde 2013, conforme mostra a <strong>Figura 4<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Figura 4 \u2013 Deslocados (em milh\u00f5es) em 59 pa\u00edses\/territ\u00f3rios, v\u00edtimas de crises alimentares entre 2013 e 2023.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3096744\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Fonte:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.fsinplatform.org\/sites\/default\/files\/resources\/files\/GRFC2024-full.pdf\">Global Report on Food Crises 2024. Food Security Information Network.<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O \u00fanico denominador comum em meio \u00e0s guerras, ao imenso sofrimento e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental imperante \u00e9 o negacionismo, ou seja, a incompreens\u00e3o de que o que est\u00e1 em jogo, aqui e agora, \u00e9 nossa sobreviv\u00eancia como sociedades organizadas bem como a de grande parte das esp\u00e9cies (das quais, de resto, dependemos existencialmente). Dito em outras palavras, as guerras e a energia dispendida em acusa\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e em ret\u00f3ricas nacionalistas de confronto relegam \u00e0s calendas gregas a aplica\u00e7\u00e3o dos acordos globais para cessar a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e a destrui\u00e7\u00e3o da biosfera pelo agroneg\u00f3cio e pela minera\u00e7\u00e3o. A brutalidade das guerras e a estupidez das ideologias nacionalistas ocultam tragicamente a percep\u00e7\u00e3o do essencial: a destrui\u00e7\u00e3o vertiginosa das bases f\u00edsico-qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas planet\u00e1rias que viabilizam&nbsp;<em>qualquer<\/em>&nbsp;projeto social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Contra essa engrenagem, que nada tem de inevit\u00e1vel, \u00e9 preciso reagir. \u00c9 preciso revoltar-se contra o negacionismo dos governantes e das corpora\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso afirmar que somos capazes, como sociedades, de p\u00f4r um ponto final na procrastina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e nesse estado de guerra permanente. Essa revolta \u00e9 uma aposta numa alian\u00e7a renovada entre princ\u00edpios herdados da hist\u00f3ria e a imagina\u00e7\u00e3o de um planeta futuro habit\u00e1vel para os jovens de hoje e para as gera\u00e7\u00f5es vindouras. Ela pode se expressar em cinco pontos program\u00e1ticos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(a) a democracia, entendida como soberania popular participativa e como controle efetivo dos governantes pelos governados, tem o poder de vencer as oligarquias, sejam estas exercidas por regimes ditatoriais ou pelas engrenagens corporativas e financeiras. A pol\u00edtica e a democracia s\u00e3o a \u00fanica nega\u00e7\u00e3o v\u00e1lida e poss\u00edvel da injusti\u00e7a, da anomia e da guerra;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(b) as sociedades t\u00eam a faculdade de compreender seus pr\u00f3prios desafios, por mais complexos que sejam, e essa compreens\u00e3o \u00e9 um passo fundamental no processo de seu enfrentamento. Decis\u00f5es coletivas racionais podem prevalecer sobre as puls\u00f5es agressivas de nossa esp\u00e9cie;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(c) a quest\u00e3o social e a quest\u00e3o ecol\u00f3gica s\u00e3o indissoci\u00e1veis. No s\u00e9culo XXI, elas se tornaram uma \u00fanica e mesma quest\u00e3o, ainda pouco assimilada por setores hegem\u00f4nicos das esquerdas. Em outras palavras, todo problema social s\u00f3 pode ser considerado resolvido se redundar em diminui\u00e7\u00e3o do impacto antr\u00f3pico sobre o sistema Terra e se redundar tamb\u00e9m em diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades entre os humanos e entre estes e as demais esp\u00e9cies;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(d) resolver problemas da magnitude dos que hoje nos confrontam sup\u00f5e abandonar gradualismos e aceitar o desafio de empreender uma muta\u00e7\u00e3o civilizacional, a qual requer rupturas institucionais, com seus riscos altos e inevit\u00e1veis, dada a natureza inerentemente conflituosa do processo hist\u00f3rico. Essas rupturas, contudo, s\u00f3 ser\u00e3o poss\u00edveis e efetivas se forem pol\u00edticas, isto \u00e9, sem interven\u00e7\u00e3o de militares, setor primitivo e parasit\u00e1rio (US$ 2,4 trilh\u00f5es em 2023) da sociedade que pode e deve, enfim, se extinguir no curso dessa muta\u00e7\u00e3o civilizacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">(e) os que consideram essa muta\u00e7\u00e3o civilizacional irrealista devem entender que n\u00e3o tentar realiz\u00e1-la \u00e9 ainda mais irrealista, pois a trajet\u00f3ria atual, com suas mudan\u00e7as cosm\u00e9ticas e a passo de lesma, nos condena com certeza a um planeta inabit\u00e1vel no horizonte dos pr\u00f3ximos dec\u00eanios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3503548197931071\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">Luiz Marques<\/mark><\/strong>*<\/a>: Professor livre-docente aposentado e colaborador do Departamento de Hist\u00f3ria do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde foi cofundador do curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Arte. Foi pesquisador convidado no Institut Fran\u00e7ais de Florence e \u00e9 autor de ensaios, livros e cat\u00e1logos sobre a tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, sobretudo no \u00e2mbito da hist\u00f3ria da arte da It\u00e1lia dos s\u00e9culos XIII ao XVI. Entre 1995 e 1997, foi curador-chefe do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (Masp). Nos \u00faltimos quinze anos, tem se dedicado \u00e0 doc\u00eancia e a pesquisas sobre as crises socioambientais contempor\u00e2neas. Nessa qualidade, foi professor convidado na Universidade de Leiden, na Holanda, e publicou artigos e livros, entre os quais Capitalismo e colapso ambiental (Editora da Unicamp, 2015; publicado em ingl\u00eas pela Springer, 2020), que em 2016 obteve o Pr\u00eamio Jabuti e o segundo lugar no Pr\u00eamio da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Editoras Universit\u00e1rias (Abeu). Entre 2017 e 2021, contribuiu regularmente com artigos para o Jornal da Unicamp. \u00c9 atualmente professor s\u00eanior da Ilum \u2014 Escola de Ci\u00eancia, vinculada ao Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), e membro do Coletivo 660, nascido do F\u00f3rum Social Mundial.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator alignwide has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote1anc\">i<\/a>&nbsp;Cf. Chi Xu&nbsp;<em>et al<\/em>., \u201cFuture of the Human Climate Niche\u201d,&nbsp;<em>PNAS<\/em>, 117, 21, p. 11350-5, 26\/V\/2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote2anc\">ii<\/a>&nbsp;Cf. K. von Clausewitz,&nbsp;<em>De la guerre<\/em>&nbsp;[1832], D.&nbsp;Naville (trad.), Paris, 1955, p.&nbsp;67.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote3anc\">iii<\/a>&nbsp;Cf. Michel Foucault, \u201cIl faut d\u00e9fendre la soci\u00e9t\u00e9\u201d. Cours au Coll\u00e8ge de France, 1975-1976, Paris, 1997, pp. 15-16, citado por Audrey H\u00e9risson, \u201cClausewitz versus Foucault : regards crois\u00e9s sur la guerre\u201d. Cahiers de philosophie de l\u2019Universit\u00e9 de Caens, 55, 2018, pp. 143-162: \u201cLe pouvoir, c\u2019est la guerre, c\u2019est la guerre continu\u00e9e par d\u2019autres moyens. Et \u00e0 ce moment-l\u00e0, on retournerait la proposition de Clausewitz et on dirait que la politique, c\u2019est la guerre continu\u00e9e par d\u2019autres moyens\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote4anc\">iv<\/a>&nbsp;Cf. AIE, World Energy Outlook, 2010, p. 48 &lt;<a href=\"http:\/\/www.iea.org\/publications\/freepublications\/publication\/weo2010.pdf\">http:\/\/www.iea.org\/publications\/freepublications\/publication\/weo2010.pdf<\/a>&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote5anc\">v<\/a>&nbsp;Cf. Victoria Finkle, \u201cThe crisis isn\u2019t over\u201d, American Banker, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">&lt;<a href=\"https:\/\/www.americanbanker.com\/news\/the-crisis-isnt-over\">https:\/\/www.americanbanker.com\/news\/the-crisis-isnt-over<\/a>&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote6anc\">vi<\/a>&nbsp;Cf. A. Leparmentier, \u201cAux \u00c9tats-Unis, les nuages d\u2019une crise financi\u00e8re s\u2019amoncellent \u00e0 l\u2019horizon\u201d.&nbsp;<em>Le Monde<\/em>, 1\/VI\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote7anc\">vii<\/a>&nbsp;Cf. Stockholm International Peace Research Institute,&nbsp;<em>SIPRI Yearbook 2023. Armaments, Disarmament and International Security<\/em>, SIPRI, 2023. &lt;<a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/sites\/default\/files\/2023-06\/yb23_summary_en_0.pdf\">https:\/\/www.sipri.org\/sites\/default\/files\/2023-06\/yb23_summary_en_0.pdf<\/a>&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/#sdendnote8anc\">viii<\/a>\u00a0Cf. \u201cConflicts drive new record of 75.9 million people living in internal displacement\u201d. IDMC, 14\/V\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<br>Texto e imagens:<\/strong> <strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Outras Palavras<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Planeta vive, desde a virada do s\u00e9culo, sucess\u00e3o incomum de crises, guerras e ataques \u00e0 natureza. 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