{"id":2227,"date":"2024-07-24T11:56:23","date_gmt":"2024-07-24T14:56:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/?p=2227"},"modified":"2024-07-24T11:56:24","modified_gmt":"2024-07-24T14:56:24","slug":"critica-da-sociologia-de-um-brasil-que-nao-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/critica-da-sociologia-de-um-brasil-que-nao-e\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica da sociologia de um Brasil que n\u00e3o \u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Por <strong><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/editorias\/articulistas\/jose-de-souza-martins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\">Jos\u00e9 de Souza Martins<\/mark><\/a><\/strong>, Professor Em\u00e9rito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">H\u00e1 alguns anos publiquei o livro Poder do Atraso \u2013 Ensaios de sociologia da hist\u00f3ria lenta, que cont\u00e9m duas confer\u00eancias que fiz na Universidade de Londres, em 1994. Uma, sobre \u201cClientelismo e corrup\u00e7\u00e3o no Brasil contempor\u00e2neo\u201d e outra sobre \u201cA alian\u00e7a entre capital e propriedade da terra no Brasil: A alian\u00e7a do atraso\u201d. Nelas analiso a dimens\u00e3o pol\u00edtica das peculiaridades estruturais e hist\u00f3ricas da sociedade brasileira, o que muda apenas lentamente, sem supera\u00e7\u00f5es significativas e definitivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Desde minhas primeiras pesquisas, em 1965, tenho me interessado pelos fatores e causas do atraso desta sociedade. Os que discrepam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s sociedades que produziram o conhecimento inaugural de um objeto cient\u00edfico original e primevo, a sociologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A sociologia j\u00e1 estava nascendo quando o Brasil ainda tinha legalmente escravid\u00e3o. E apenas esbo\u00e7ava a ado\u00e7\u00e3o de um pensamento propriamente sociol\u00f3gico em obras at\u00e9 hoje referenciais de Joaquim Nabuco e de Euclides da Cunha. E at\u00e9 numa obra surpreendente de Machado de Assis, O Alienista, um personagem alienado, louco e poderoso ao mesmo tempo. At\u00e9 hoje um persistente tra\u00e7o do nosso car\u00e1ter nacional e das nossas limita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No nascimento da rep\u00fablica antirrepublicana de 1889, os republicanos militares do golpe de Estado contra os republicanos civis do partido nascido em Itu, em 1873, acabou se definindo na bandeira pelo mote positivista e sociol\u00f3gico de \u201cordem e progresso\u201d. Uma op\u00e7\u00e3o estrangeira e estranha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Num cl\u00e1ssico do pensamento social brasileiro, Alberto Torres estranhava as nossas estranhezas, o que em n\u00f3s tem sido posti\u00e7o, ao comentar que s\u00f3 tiv\u00e9ramos ordem na escravid\u00e3o, o que era verdade: a ordem da sujei\u00e7\u00e3o pessoal do escravo e do confinamento estamental dos brancos. Uma ordem antirrepublicana e a ordem diversa da concebida por Augusto Comte e os positivistas. Aqui a ordem foi concebida pelo positivismo militar como express\u00e3o da car\u00eancia de repress\u00e3o, para enquadramento do povo nos rigores da lei para contrabalan\u00e7ar a liberdade mais ou menos inevit\u00e1vel, como a da aboli\u00e7\u00e3o. A ordem desse imagin\u00e1rio fora do lugar era e tem sido o suced\u00e2neo da chibata e do tronco do feitor de senzala. Ainda em 1557, escrevendo de Salvador, diz o padre Manoel da N\u00f3brega sobre os nativos serrem \u201cgente de condi\u00e7\u00e3o mais de feras bravas que de gente racional, e ser gente servil que se quer por medo\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O uso da viol\u00eancia f\u00edsica, ainda hoje, no Brasil, nas situa\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o por d\u00edvida, repete o que se tornou um modo de domina\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es laborais. Uma lenta demora pr\u00f3pria de nossa hist\u00f3ria lenta. N\u00e3o \u00e9 estranho que num Pa\u00eds formalmente capitalista subsistam formas n\u00e3o capitalistas de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O Brasil \u00e9 um Pa\u00eds capitalista de um peculiar capitalismo atrasado, marcado por contradi\u00e7\u00f5es peculiares, subdesenvolvidas, n\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es t\u00edpicas das cita\u00e7\u00f5es e reprodu\u00e7\u00f5es contidas nos manuais de ideologia pol\u00edtica nem nos manuais de economia desenvolvimentista determinantes de uma sociedade condenada \u00e0 ordem, mas sem progresso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nesse plano, as ci\u00eancias sociais, entre n\u00f3s, n\u00e3o t\u00eam enfrentado o desafio de interpretar nossa sociedade como ela \u00e9, optando sobretudo pela interpreta\u00e7\u00e3o do que ela n\u00e3o \u00e9 e provavelmente n\u00e3o ser\u00e1. N\u00f3s tendemos a analis\u00e1-la como se fosse de fato uma sociedade capitalista porque achamos que o \u00e9. Mas achar n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As sociedades t\u00eam singularidades que as tornam diferentes dos modelos cl\u00e1ssicos de defini\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do que a sociedade \u00e9. At\u00e9 no senso comum acad\u00eamico, isto \u00e9, no que \u00e9 o nosso achismo universit\u00e1rio. Portanto, caracter\u00edsticas que expressam singularmente os desafios interpretativos de suas diferen\u00e7as e n\u00e3o s\u00f3 daquilo que aparentemente repete o que tamb\u00e9m s\u00e3o as sociedades dominantes de refer\u00eancia do soci\u00f3logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nesse sentido, a expectativa do inesperado \u00e9 uma refer\u00eancia que os cientistas sociais, especialmente o soci\u00f3logo, num Pa\u00eds como este, n\u00e3o podem dispensar no elenco dos seus procedimentos de pesquisa. O Brasil que esperamos encontrar no trabalho cient\u00edfico \u00e9 mais o Brasil que fala a l\u00edngua mesti\u00e7a de portugu\u00eas e nheengatu do que, propriamente, o portugu\u00eas de Cam\u00f5es e do Padre Antonio Vieira. E isso quer dizer uma l\u00edngua de seres humanos dominados, fala de sujei\u00e7\u00e3o e medo, dissimula\u00e7\u00e3o e duplo sentido. L\u00edngua do faz de conta, do acho e da incerteza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O autoritarismo brasileiro, particularmente agudo nas nossas incertezas desta hora, prenhe de mentiras, em que o povo tem estado sujeito \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o social, com base no pressuposto de que \u00e9 povo vulner\u00e1vel ao poder do outro. Os poderosos e manipuladores acreditam nisso como se v\u00ea em suas a\u00e7\u00f5es. Mas o nosso car\u00e1ter social duplo e da duplicidade permite ao povo manipular o manipulador. No duplo sentido existe o outro lado, o lado invis\u00edvel e ativo da sociedade e da pr\u00e1xis. O que, com Henri Lefebvre, podemos definir como o avesso do visto e percebido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<br>Texto &#8211;<\/strong> <strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/articulistas\/jose-de-souza-martins\/critica-da-sociologia-de-um-brasil-que-nao-e\/?fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTAAAR0DukANrbI_8w8rLlo_srrVtmlK0avpclxc0fPsS-GTEj82QOyS1dQDHXQ_aem_N_Us2wDfWBSXdRkmSEmb6A\">Jos\u00e9 de Souza Martins para o Jornal da USP.<\/a><\/mark><\/strong><br><strong>Imagem &#8211; <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><a href=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/82\/2018\/02\/08\/6fev2018---o-sociologo-jose-de-souza-martins-professor-emerito-da-usp-universidade-de-sao-paulo-durante-entrevista-no-departamento-de-sociologia-da-usp-1518133401628_615x300.jpg.webp\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Simon Plestenjak\/UOL Politica<\/a><\/mark><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 de Souza Martins, Professor Em\u00e9rito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP H\u00e1 alguns anos publiquei o livro Poder do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":169,"featured_media":2228,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,12],"tags":[],"class_list":["post-2227","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo-de-opiniao","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/users\/169"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2227"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2227\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2229,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2227\/revisions\/2229"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2228"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}