Meliponaverso

A tribo Meliponini

O que são as abelhas meliponini?

A tribo Meliponini reúne as chamadas abelhas sem ferrão. Embora possuam vestígios anatômicos do aparelho de ferrão, essa estrutura é reduzida e não funcional como arma de defesa (Engel et al., 2023).

As abelhas sem ferrão vivem em colônias cujo tamanho pode atingir uma densidade populacional de dezenas ou centenas de milhares de operárias, e com apenas uma rainha. Comumente, machos também estão presentes – contudo, diferente das abelhas melíferas, nos Meliponini estes são semelhantes às operárias em tamanho e aparência.

Elas pertencem à mesma família das abelhas com ferrão, como Apis mellifera (tribo Apini), mas diferem em sua história evolutiva dentro da família Apidae. Segundo Michener (2007), elas constituem, ao lado das verdadeiras abelhas melíferas, o único outro grupo de abelhas altamente sociais conhecido, o que evidencia sua importância evolutiva entre os insetos sociais.

Organização social

As abelhas sem ferrão são eusociais, ou seja, vivem em sociedades altamente organizadas, com divisão de trabalho entre os indivíduos da colônia.

Cada colônia apresenta:

  • Uma rainha, responsável pela postura de ovos;
  • Operárias, que realizam tarefas como coleta de alimento, construção do ninho e defesa;
  • Machos, cuja principal função está relacionada à reprodução.

Além da divisão de trabalho, apresentam cuidado cooperativo com a prole, característica marcante da eussocialidade.

Pertencentes ao grupo das abelhas eussociais, não há fase solitária no ciclo de vida dos meliponíneos. Quando a colônia atinge uma densidade populacional elevada, as operárias da colônia-mãe se encontram e preparam um novo ninho, transportando materiais de construção e alimento, permitindo que a colônia se divida. Para viabilizar esse processo, uma nova rainha jovem, geralmente virgem, passa a habitar o novo ninho, acasalando e dando início a novas posturas (Michener, 2007; Grüter, 2020).

Diversidade e distribuição

As abelhas sem ferrão formam um grupo altamente diverso, com mais de 600 espécies descritas no mundo (Engel et al., 2023).

Essas espécies ocorrem principalmente em regiões tropicais da:

  • América;
  • África;
  • Sudeste Asiático;
  • Oceania.

O Brasil é um dos principais centros de diversidade desse grupo, com cerca de 250 espécies registradas, muitas delas endêmicas (Michener, 2007; Camargo & Pedro, 2013).

Posição evolutiva

As abelhas sem ferrão fazem parte de um grupo conhecido como abelhas corbiculadas, caracterizado pela presença da corbícula — uma estrutura localizada na perna traseira das fêmeas, utilizada para transportar pólen e outros materiais.

Além dos Meliponini, esse grupo inclui:

  • Abelhas melíferas (Apini);
  • Abelhões (Bombini);
  • Abelhas das orquídeas (Euglossini).

Entre esses grupos, as abelhas sem ferrão se destacam por sua grande diversidade e longa história evolutiva (Engel et al., 2023).

Operária de jataí (Tetragonisca angustula) transportando pólen na corbícula, estrutura localizada nas pernas traseiras conhecida como “cesta de pólen”.

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 23).

Características gerais do grupo

De forma geral, as abelhas sem ferrão apresentam:

  • Corpo geralmente pequeno, com grande variação entre espécies;
  • Comportamento social altamente organizado;
  • Uso de cavidades naturais para construção de ninhos;
  • Comunicação baseada em sinais químicos;
  • Coleta de néctar, pólen e resinas vegetais.

Essas características contribuem para seu sucesso ecológico, especialmente em ambientes tropicais.

Importância ecológica

As abelhas sem ferrão estão entre os principais polinizadores dos ecossistemas tropicais.

Ao visitar flores, contribuem para a reprodução de inúmeras espécies de plantas, influenciando diretamente a manutenção da biodiversidade.

Seu papel ecológico é especialmente relevante em florestas tropicais, onde muitas plantas dependem desses polinizadores para completar seu ciclo de vida (Roubik, 1989; Grüter, 2020).

Espécies comuns de abelhas sem ferrão no Brasil

O Brasil abriga uma grande diversidade de abelhas sem ferrão. Algumas das espécies mais conhecidas incluem:

Jataí

(Tetragonisca angustula)

Pequena e amarelada, muito comum em cidades. Possui tubo de entrada característico.

Entrada do ninho da abelha Jataí (Tetragonisca angustula).

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 20).

Abelhas jataí (Tetragonisca angustula) na entrada do ninho.

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 20).

Mandaçaia

(Melipona quadrifasciata)

Maior, com listras no abdômen. Bastante conhecida pela produção de mel.

Operárias de Mandaçaia (Melipona quadrifasciata) se alimentando de mel dos potes dentro da colônia. Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 305).

Operária Mandaçaia (Melipona quadrifasciata) manipulando barro para confeccionar a entrada da colônia.

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 1061).

Iraí

(Nannotrigona testaceicornis)

Pequena e escura, forma colônias populosas e adapta-se bem a ambientes urbanos.

Operárias de Iraí (Nannotrigona testaceicornis) coletando mel no pote.

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 340).

Guardas de Iraí (Nannotrigona testaceicornis) fechando a entrada da colônia ao anoitecer.

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 266).

Uruçu

(Melipona scutellaris)

Uma das maiores espécies brasileiras, com alta produção de mel.

Operárias de Uruçu (Melipona scutellaris) se alimentando de mel dentro da colônia.

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 229).

Guarda de Uruçu (Melipona scutellaris) na entrada da colônia.

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 1062).

Tubuna

(Scaptotrigona bipunctata)

Espécie mais defensiva, utiliza resinas pegajosas na proteção do ninho.

Colônia de Tubuna (Scaptotrigona bipunctata). Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 366).

Entrada da colônia de Tubuna (Scaptotrigona bipunctata).

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 452).

Jataí, Iraí, Mandaçaia, Uruçu, Tubuna… Pelos nomes indígenas dá para perceber que estes insetos têm uma longa relação com os povos originários do Brasil.

Dicas para identificação

A identificação das espécies pode ser desafiadora, especialmente entre abelhas pequenas.

Além da aparência, observe:

  • O tamanho e a coloração do corpo;
  • O formato da entrada do ninho;
  • O comportamento (mais dócil ou defensivo);
  • O local onde o ninho está instalado.

Você sabia?

As abelhas sem ferrão são muito antigas.

Fósseis da tribo Meliponini encontrados em âmbar mostram que esse grupo já existia há mais de 100 milhões de anos, no período Cretáceo — quando os dinossauros ainda viviam (Camargo; Grimaldi; Pedro, 2000).

Algumas espécies podem viver dentro de ninhos de outros insetos.

Há abelhas sem ferrão que constroem seus ninhos associados a cupins ou formigas, utilizando estruturas já existentes.

Algumas abelhas da tribo Meliponini podem ser confundidas com moscas?

Apesar de os Meliponini do gênero Melipona serem reconhecidos por seu tamanho semelhante, ou até maiores que a abelha melífera, as abelhas sem ferrão são majoritariamente pequenas. Um bom exemplo é a Leurotrigona muelleri, popularmente conhecida como “Lambe-olhos”, que com cerca de 1,5 milímetros é comumente confundida com moscas ao “lamber” as secreções que umedecem nossos globos oculares.

Potes de mel dentro da colônia de Lambe-olhos (Leurotrigona muelleri).

Fotografia: Fototeca Cristiano Menezes (FCM 331).

Glossário

Âmbar: Resina vegetal fossilizada que pode preservar organismos antigos, como insetos.

Bombini: Tribo da família Apidae que reúne os abelhões.

Corbícula: Estrutura localizada na tíbia posterior das fêmeas, conhecida como “cesta de pólen”, usada para transportar pólen e outros materiais.

Espécie endêmica: espécie que ocorre naturalmente em uma região específica.

Euglossini: Tribo da família Apidae conhecida como abelhas das orquídeas.

Eussocialidade: organização social com divisão de trabalho e cuidado coletivo da prole.

Fóssil: Registro preservado de organismos do passado geológico.

Período Cretáceo: Intervalo da história geológica que ocorreu entre aproximadamente 145 e 66 milhões de anos atrás, marcado pela grande diversidade de dinossauros e pelo surgimento de muitas linhagens modernas de plantas e insetos.

Vestígios anatômicos: Estruturas reduzidas que perderam total ou parcialmente sua função original ao longo da evolução.


Referências Bibliográficas

CAMARGO, João M. F.; GRIMALDI, David A.; PEDRO, Silvia R. M. The extinct fauna of stingless bees (Hymenoptera: Apidae: Meliponini) in Dominican amber: two new species and redescription of the male of Proplebeia dominicana (Wille and Chandler). American Museum Novitates, New York, n. 3293, p. 1–24, 2000.

ENGEL, Michael S. et al. Stingless bees (Hymenoptera: Apidae: Meliponini): systematics, biology and evolution. Annual Review of Entomology, Palo Alto, v. 68, p. 231–252, 2023. DOI: https://doi.org/10.3897/zookeys.1172.104944.

GRÜTER, Christoph. Stingless Bees: Their Behaviour, Ecology and Evolution. Cham: Springer, 2020.

MICHENER, Charles D. The Bees of the World. 2. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2007.

MICHENER, Charles D. The Meliponini. In: VIT,

P.; PEDRO, S.; ROUBIK, D. (org.). Pot-Honey: a legacy of stingless bees. New York: Springer, 2013. DOI: https://doi.org/10.1007/978-1-4614-4960-7_1.

ROUBIK, David W. Ecology and natural history of tropical bees. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

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