Os últimos dois meses foram marcadas por grandes perdas para o pensamento contemporâneo. Em 30 de abril, morreu Fernando Novais, um dos maiores historiadores brasileiros. Menos de um mês depois, em 29 de maio, o grande intelectual francês, Edgar Morin também foi a óbito.
O primeiro semestre de 2026 foi marcado pela despedida de dois nomes fundamentais para a produção do conhecimento nas ciências humanas. O filósofo, sociólogo e antropólogo francês Edgar Morin faleceu em 29 de maio, aos 104 anos, enquanto o historiador brasileiro Fernando Novais morreu em 30 de abril, aos 93 anos. Ambos deixaram legados intelectuais que transformaram a forma como diferentes gerações compreenderam a sociedade, a história e os desafios do mundo contemporâneo.
Nascido em Paris, em 1921, Edgar Morin tornou-se um dos mais influentes pensadores do século XX. Autor de dezenas de livros e formulador da teoria da complexidade, dedicou sua trajetória a questionar visões fragmentadas do conhecimento e a defender uma compreensão integrada dos fenômenos humanos e sociais. Sua obra propôs que os problemas do mundo não podem ser entendidos de forma isolada, mas sim a partir das múltiplas relações que conectam indivíduos, instituições, culturas e sistemas.
Entre seus trabalhos mais conhecidos estão a série O Método, publicada ao longo de quase três décadas, além de obras como Ciência com Consciência, Terra-Pátria, Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, elaborado a convite da Unesco, e Cultura de Massa no Século XX: O Espírito do Tempo. Ao longo da vida, Morin também se destacou pela defesa de uma ciência aberta ao diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e pela reflexão sobre temas como democracia, desigualdade, meio ambiente e cidadania global.
Uma das ideias centrais de seu pensamento estava na valorização da incerteza como elemento constitutivo da experiência humana. Para ele, compreender a realidade exigia reconhecer a complexidade dos fenômenos e os limites do próprio conhecimento, rejeitando explicações simplificadoras e verdades absolutas.
No Brasil, Fernando Novais consolidou-se como uma das mais importantes referências da historiografia nacional. Nascido em Guararema, no interior de São Paulo, em 1933, dedicou sua carreira ao estudo da formação histórica do Brasil e das relações entre a colônia e a metrópole portuguesa, contribuindo decisivamente para renovar a interpretação do período colonial brasileiro.
Professor da Universidade de São Paulo (USP) por mais de duas décadas e posteriormente docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Novais formou gerações de pesquisadores e consolidou uma abordagem histórica que articulava economia, política e sociedade na análise dos processos históricos. Sua obra mais conhecida, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), originou-se de sua tese de doutorado defendida na USP em 1972 e tornou-se um marco da historiografia brasileira. O trabalho permanece como uma das principais referências para os estudos sobre a formação do Brasil e integra o acervo da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da universidade.
Além de sua produção acadêmica, Novais teve papel importante na construção de espaços de reflexão intelectual no Brasil, participando de iniciativas que contribuíram para o desenvolvimento do pensamento crítico e do diálogo entre história, economia e ciências sociais. Também esteve envolvido em projetos de grande alcance público, como a coleção História da Vida Privada no Brasil, que ampliou o acesso ao conhecimento histórico para além do ambiente universitário.
Embora tenham atuado em contextos distintos, Morin e Novais compartilharam uma característica fundamental: a busca por interpretações amplas da realidade. Enquanto Novais defendia uma compreensão histórica capaz de articular as múltiplas dimensões da experiência humana em direção a uma visão de totalidade, Morin propunha a teoria da complexidade como forma de compreender o mundo a partir das relações que conectam diferentes fenômenos e saberes. Em ambos os casos, o objetivo era superar explicações fragmentadas e construir formas mais abrangentes de interpretar a sociedade.
A morte desses dois intelectuais representa uma perda significativa para a produção científica contemporânea. Suas obras, contudo, permanecem vivas em universidades, centros de pesquisa, escolas e espaços de debate público, inspirando novas gerações de pesquisadores. Mais do que autores de trabalhos fundamentais, Edgar Morin e Fernando Novais deixaram contribuições que seguem orientando a compreensão da condição humana, da história e dos desafios do mundo atual.
Texto adaptado de: