A Língua Guarani
Língua, luta e resistência na trajetória dos povos originários e sua profunda influência na identidade e no português falado no Brasil.
Preservação Pela Oralidade
Quando os portugueses desembarcaram no litoral do "Novo Mundo", perceberam que esta terra já abrigava rica diversidade social. Naquele tempo, grande parte dos povos que habitavam a costa falava o idioma Tupinambá, que foi adotado pelos colonizadores como base de comunicação. Ao longo dos séculos, a política colonial buscou homogenizar a comunicação e apagar a pluralidade linguística local.
Para tentar sistematizar o aprendizado, o padre José de Anchieta publicou em 1595 a "Arte de Gramática da Língua mais usada na Costa do Brasil". Mais tarde, em 1618, foi impresso o primeiro catecismo na chamada "língua brasílica", e em 1621 a Companhia de Jesus consolidou o primeiro dicionário elaborado pelos jesuítas. Esse idioma gerado do contato servia para a catequização e para o cotidiano colonial, ficando conhecido como "Língua Geral".
A Língua Geral dividiu-se entre a vertente Paulista e a Amazônica. Esta última, denominada de *Nheengatu* ("língua boa"), resiste até hoje, sendo falada ativamente por populações na bacia do Rio Negro.
A Palavra e a Alma (Nhee)
Para os Guarani Mbyá, a arte da palavra é a arte da vida. O conceito de palavra compartilha o mesmo radical e significado da palavra "alma" (*nhee*). Aquele que possui um corpo físico e uma alma deve agir como suporte e fundamento de palavras verdadeiras.
Eles conservam uma linguagem ritual extremamente elaborada chamada ayvu porã ("belas palavras"), proferida pelos dirigentes espirituais apenas em rituais e ocasiões especiais.
A oralidade tem garantido a sobrevivência dos Guarani ao longo de séculos de pressões territoriais e sociais. O idioma Guarani Mbyá foi reconhecido oficialmente pelo IPHAN em 2014 como referência cultural e patrimônio imaterial brasileiro, valorizando a sua importância histórica e contemporânea.
Multilinguismo e Coexistência
Ao contrário do mito popular do monolinguismo (a ideia de que o Brasil só fala português), o país abriga cerca de 160 línguas indígenas vivas. Na Terra Indígena Ribeirão Silveira, essa riqueza se faz presente na divisão espacial e social do território entre os subgrupos **Guarani Mbyá** e **Guarani Nhandewa**.
A proximidade e o contato diário geram fenômenos de multilinguismo, onde indivíduos transitam fluentemente entre o Mbyá, o Nhandewa e o Português. Essa convivência estimula diferenciações dialetais locais e enriquece o repertório cultural de toda a comunidade.
Estudo e Revitalização
Para os pesquisadores, a preservação e a revitalização das línguas exigem documentação e fomento ativo. Desde 2013, projetos de extensão da UNICAMP (como os liderados pelo professor e indigenista Wilmar D'Angelis) trabalham em parceria com a comunidade para registrar e apoiar o fortalecimento do idioma no cotidiano escolar e nas mídias digitais.
Influência do Guarani no Nosso Dia a Dia
Muitos juruás (não indígenas) não sabem que, ao conversar, utilizam centenas de palavras e expressões de origem indígena. A flora, a fauna e a geografia brasileira foram nomeadas pelos povos nativos.
Nomes de Animais (Fauna)
Os colonizadores portugueses não tinham nomes para os animais exóticos das matas tropicais, adotando a nomenclatura nativa:
- Capivara: Originado de *kapi'wara* (comedor de capim).
- Jacaré: Vindo de *yakaré* (aquele que olha de lado).
- Piranha: De *pira-anha* (peixe dente).
- Arara, Sagui, Tucano, Tamanduá, Cutia, Jabuti.
Alimentos e Plantas (Flora)
A riqueza vegetal e a agricultura de subsistência indígena batizaram inúmeros elementos do nosso cardápio nacional:
- Mandioca: Vindo de *mandioka* (casa de Mani, entidade mítica).
- Pipoca: Originado de *pypoka* (pele estourada).
- Maracujá: De *mbarakuya* (alimento em cuia).
- Abacaxi, Caju, Pitanga, Guaraná, Mandacaru, Jacarandá.
Geografia e Cidades (Topônimos)
Estados, rios, praias e cidades de norte a sul do Brasil carregam significados geográficos na língua Tupi e Guarani:
- Ipanema: Significa "água ruim" ou "rio imprestável" para a pesca.
- Itamarati: Rio das pedras pequenas.
- Tietê: Água ou rio verdadeiro.
- Piracicaba: Lugar onde o peixe para.
Expressões e Verbos cotidianos
Além de nomes, muitos termos que expressam sentimentos ou estados corporais são de herança indígena direta:
- Cutucar: Do verbo *kutuk* (furar, espetar).
- Serelepe: Rápido, ágil (associado ao esquilo da mata).
- Carioca: De *kari'oka* (casa do homem branco).
- Nhenhenhém: Vindo de *nhe'eng* (falar repetidamente).
Referências e Leituras Recomendadas
ABDALLA, Vitor. Tupi deu importantes contribuições ao português. Agência Brasil, 2014.
DUARTE, Fábio Bonfim. Diversidade Linguística no Brasil: A Situação das Línguas Ameríndias. Caletroscópio, v. 4, n. Especial, p. 27-62, 2016.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Povo Guarani Mbyá / Línguas. Povos Indígenas no Brasil (PIB), 2020.
IPHAN. Língua Guarani M’bya. Inventário Nacional de Diversidade Linguística (INDL), 2014.
MOORE, Denny. Línguas indígeneas. In: MELLO, H. et al. *Os contatos linguísticos no Brasil*. Belo Horizonte: UFMG, 2011. p. 217-239.