Reunião anual do IGCP 732

Reunião anual do IGCP 732 – LANGUAGE of the Anthropocene (Lessons in anthropogenic impact: a knowledge network of geological signals to unite and assess global evidence of the Anthropocene): um espaço para trocas e aprendizado.

por: Érika C.N. Silva


A temática do Antropoceno tem sido debatida em diversos meios e por diferentes óticas, como já discutido em postagens anteriores nesse blog. Como pesquisadora interessada na temática, e que tem desenvolvido pesquisas referentes a deposições tecnogênicas/antropogênicas nos últimos anos, tive a oportunidade de participar, pelo terceiro ano consecutivo, da reunião científica do IGCP 732 – LANGUAGE of the Anthropocene. Participo das reuniões como colaboradora a convite do Professor Doutor Michael Wagreich, da Universidade de Viena. E neste ano, pela primeira vez, participei de forma presencial da reunião, apresentando trabalho na cidade de Xi’an, na China. Mas o que é um IGCP?

IGCP (International Geoscience Programme), conforme o site da UNESCO [1], é o carro-chefe da entidade referente ao apoio para investigações em geologia e geofísica. Em tradução livre, o IGCP serve como um centro de conhecimento da UNESCO para facilitar a cooperação científica internacional nas geociências, e a missão do IGCP inclui a promoção do uso sustentável dos recursos naturais, avançando em novas iniciativas como a geodiversidade e “geo-heritage”, além da mitigação dos “geohazards risks”. Ainda de acordo com o site, desde 1972 o IGCP estabeleceu uma parceria com a IUGS (União Internacional de Ciências Geológicas) com o intuito de reunir milhares de cientistas da Terra de todo o mundo, permitindo-lhes o benefício do espírito cooperativo gerado sob a égide da UNESCO. Ao todo são cinco temas do Programa, e o IGCP 732 está incluído no tema “Global Change and Evolution of Life – evidence from the geological record” [2].

Um pouco sobre o IGCP 732

O IGCP 732 (LANGUAGE of the Anthropocene) refere-se, como o próprio nome já possibilita interpretar, às discussões em torno da temática do Antropoceno, com a participação de pesquisadores que se dedicam a diferentes aspectos que são abrangidos nos estudos do Antropoceno. O objetivo, conforme consta na página da UNESCO referente a esse IGCP, é o desenvolvimento de ideias e redes acerca do conceito do Antropoceno, através de um ambiente de cooperação global entre cientistas, focando especialmente nos países considerados em desenvolvimento ou menos desenvolvidos. Complementam, ainda, mencionando a união e avaliação de evidências globais do Antropoceno e o estabelecimento desse conceito enquanto estrutura fértil para as geociências, através da elaboração de uma rede global de especialistas e parceiros de projeto, realização de workshops em países considerados em desenvolvimento, e estabelecimento de um banco de dados aberto de informações e conhecimentos acerca do Antropoceno [3].  Este IGCP entrou em vigor em 2021, e estará em plena atividade até 2026, sob a liderança do Prof. Dr. Michael Wagreich, da Universidade de Viena. Tem como Principal Investigators (PIs) as pesquisadoras Doutoras Mehwish Bibi (Paquistão), Barbara Fiałkiewicz-Kozieł (Polônia), Juliana A. Ivar Do Sul (Brasil/Alemanha), Lydia Olaka (Quênia), Catherine Russell (Inglaterra), Maria Luisa Tejada (Filipinas), Luyuan Zhang (China) e Veronika Koukal (pesquisadora e secretária desse IGCP). Além dos PIs, o IGCP conta com a participação de diversos colaboradores, dentre os quais me incluo e, por isso, tenho participado das reuniões anuais com a finalidade de divulgação, a nível internacional, do trabalho que temos desenvolvido no Brasil nos últimos anos (parcerias entre profissionais da UNICAMP, UFR, UNESP e pesquisadores independentes), além das possibilidades de aprendizado de novas abordagens e estabelecimento de redes de cooperação.

Reunião em Xi’an

As principais reuniões relativas ao IGCP ocorrem anualmente, onde todos os participantes têm a oportunidade de apresentar seus trabalhos desenvolvidos na temática, com suas diferentes abordagens e áreas de investigação, como por exemplo análise de dados geoquímicos referentes a diversos tipos de ambientes sedimentares [4]. Esta reunião teve formato híbrido, com participantes em Xi’an e online. Somados à apresentação de trabalhos, sempre há palestrantes convidados, como por exemplo algum pesquisador diretamente envolvido no Anthropocene Working Group (este ano a fala foi proferida por Simon Turner, ocupante do cargo de secretário no AWG), que nos informa sobre o andamento de trabalhos relativos à proposta do Antropoceno enquanto época geológica [5].

Neste ano, no contexto do estágio que estou realizando aqui em Viena [6], tive a possibilidade de participar de forma presencial da reunião realizada em Xi’an, apresentando alguns resultados preliminares que temos alcançado na investigação de deposições antropogênicas/tecnogênicas. Nesta ocasião, focamos nos resultados de análises químicas e físicas e comparamos os resultados entre as deposições e solos na área investigada em Rondonópolis-MT. Foram destacadas, por exemplo, as evidências, em algumas camadas de deposições antropogênicas/tecnogênicas, relativas aos dados de campo e laboratório que sugerem pedogênese, ou seja, formação, mesmo que incipiente, de solo.

O trabalho apresentado, com o título “Comparisons of lab results of anthropogenic formation and “natural” soil: granulometry, sand fractioning and pedological chemical analyses” possui autoria minha, do Prof. Dr. Caio Augusto Marques dos Santos (UFR) e do Prof. Dr. Francisco Sérgio Bernardes Ladeira (UNICAMP). Além da apresentação, assistir presencialmente as apresentações de demais pesquisadores e ter a oportunidade de conversar nos demais momentos de interação, possibilitou que novas ideias surgissem para a continuação das pesquisas que temos desenvolvido no Brasil, além de divulgar possibilidades procedimentais e analíticas que os demais pesquisadores possam vir a utilizar em suas áreas de estudo. A pesquisa é supervisionada pelo Prof. Dr. Francisco Sérgio Bernardes Ladeira, com co-supervisão do Prof. Dr. João Osvaldo Rodrigues Nunes (UNESP), com parceria do Prof. Dr. Caio Augusto Marques dos Santos. Já o estágio em Viena é supervisionado no exterior pelo Prof. Dr. Michael Wagreich (Universidade de Viena).

Os anfitriões na reunião desse ano foram: Institute of Earth Environment da Chinese Academy of Sciences, State Key Laboratory of Loess Science. E os co-anfitriões: IEECAS Group of Youth Innovation Promotion Association CAS, Anthropocene Research Branch da Geological Survey of China, Xi’an Institute for Innovative Earth Environment Research, Shaanxi Association for Science and Technology. A reunião ocorreu na semana do dia 14 de novembro de 2023, no Qujiang Huibinyuan Hotel.

Foto da apresentação em Xi’an (foto enviada por Luyuan Zhang)
Foto oficial da reunião – Fonte: https://news.sciencenet.cn/htmlnews/2023/11/512399.shtm

Os participantes que puderam estar de forma presencial em Xi’an fizeram, no primeiro dia, um passeio cultural que permitiu conhecer um pouco sobre os aspectos históricos dessa importante cidade na China. Esse passeio cultural incluiu conhecer a muralha da cidade e o Exército de Terracota, este último parte integrante do Mausoléu de Qin Shi Huang, fundador do primeiro império unificado da China durante o século III a.C, localizado no sopé norte da montanha Lishan, tendo sido descoberto em 1974 [7]. Conforme nos foi informado durante a visita, os trabalhos de escavações e reconstruções/restaurações continuam até os dias atuais, exigindo esforços de vários profissionais. As imagens a seguir apresentam um pouco do que esse passeio permitiu conhecer.

Outra visita interessante foi no Institute of Earth Environment da Chinese Academy of Sciences, que foram os anfitriões dessa reunião. Nesta ocasião pudemos visitar diferentes laboratórios e conhecer um pouco das diferentes pesquisas que têm sido desenvolvidas, com diferentes abordagens e metodologias, que podem ser relacionadas direta e indiretamente à perspectiva do Antropoceno em termos de mudanças ocasionadas nos diferentes ambientes. As fotos a seguir foram enviadas pela PI responsável por essa reunião na China (Luyuan Zhang), e apresentam registros da nossa visita em alguns dos diferentes laboratórios que conhecemos na instituição.

Último destaque é dado para o trabalho de campo realizado no Geoparque Nacional de Loess em Luochuan. A organização do evento preparou essa investigação de campo com o intuito de nos proporcionar conhecimento sobre esse tipo de formação superficial, denominada de Loess, que tem chamado a atenção dos cientistas no que diz respeito a investigações relativas à geoconservação, estudo de mudanças climáticas, entre outros focos. Em tradução livre do material de apoio preparado pelos anfitriões, a seguinte explicação sobre a área que visitamos é oferecida:

O Geoparque Nacional de Loess em Luochuan é um projeto de conservação ambiental na China que responde ao Programa Global de Geoparques da UNESCO com o objetivo de promoção do desenvolvimento sustentável para a sociedade. A construção do parque serve ao propósito de beneficiar a sociedade, protegendo o ambiente. O Geoparque Nacional de Loess em Luochuan é caracterizado por perfil clássico de Loess e por geomorfologia relativa a Loess. Também preserva fósseis de vertebrados e abundantes informações sobre paleoclima, paleoambiente, paleontologia e outros importantes eventos relativos ao período Quaternário.

Visitamos o geoparque e o museu referente ao geoparque, com diversas explicações sobre a instituição do geoparque e sobre os projetos e pesquisas em andamento, que abarcam simulações e observações referentes aos aspectos climáticos, biológicos (vegetação) e geomorfológicos. Dentre os objetivos estão a simulação da resposta do Loess em decorrência de mudanças de características ambientais, como o clima (intensificação-redução da pluviosidade, por exemplo). As fotografias a seguir são da área visitada. A alternância de cores, ora mais clara e ora mais avermelhada, é atribuída a mudanças ambientais que permitiram o desenvolvimento de solos (hoje paleossolos). As duas últimas fotos foram enviadas por Luyuan Zhang, o restante é do meu acervo pessoal.

A experiência de participação na reunião de forma presencial proporcionou muitos ganhos em termos de conhecimento, tanto durante as apresentações e palestras, quanto nos outros momentos do evento (nas visitas de campo, passeio cultural e visita aos laboratórios). A oportunidade de conhecer um país como a China, com suas culturas e paisagens, também foi muito gratificante, em particular por ser a minha primeira oportunidade de conhecer um país asiático, que recebeu esse grupo de pesquisadores de nacionalidades diversificadas de forma que nos fizeram nos sentir bem-vindos e de portas abertas para possibilidades futuras de pesquisa em parceria.


Para saber mais!


Lista de links

[1] Site oficinal da UNESCO: https://www.unesco.org/en/iggp/igcp

[2] IGCP Projects – Global change and the evolution of life evidence from the geological record: https://www.unesco.org/en/iggp/igcp-projects?hub=67817#global-change-and-the-evolution-of-life

[3] IGCP Project 732 – Language of the Anthropocene: https://www.unesco.org/en/iggp/igcp-projects/732

[4] Para maiores informações sobre essa reunião e as anteriores, consultar o site do IGCP: https://igcp732.univie.ac.at/meetings/

[5] Para maior detalhamento sobre o Anthropocene Working Group, sugiro a leitura de outro texto desse blog (https://www.ige.unicamp.br/pedologia/2023/06/06/antropoceno-epoca-do-quaternario/).

[6] Tanto a pesquisa de pós-doutorado quanto o estágio relativo a ele, em desenvolvimento na Universidade de Viena, possuem apoio da FAPESP: Processo FAPESP no 2019/21885-7; Processo FAPESP no 2023/03963-6. Sem esse financiamento, as pesquisas que temos desenvolvido e a participação presencial em eventos como este não seriam possíveis.

[7] https://whc.unesco.org/en/list/441


Texto: Érika Cristina Nesta Silva

Edição: Diego Fernandes Terra Machado

Arte da Capa: Diego Fernandes Terra Machado


Antropoceno: Época do Quaternário?

por: Érika C.N. Silva e Caio A.M. dos Santos –

O debate acalorado que traz para o centro do palco a extensão das ações humanas no espaço e no tempo.


Os avanços e descobertas científicas ocorrem a partir de uma gama de fatores que não são, de forma alguma, descontextualizados de seus recortes espaço-temporais. A velocidade, por exemplo, com a qual uma ideia pode ser amplamente difundida, debatida, aceita ou criticada pode ser uma das principais marcas dos tempos atuais. O que há décadas requeria muito mais tempo para ser traduzido e incluído em variados espaços de debate, hoje a distância espaço-temporal muitas vezes se restringe a um clique. E não é à toa, portanto, que uma ideia/conceito como o Antropoceno possui tantos matizes capazes de fazer cientistas do mundo inteiro e de diferentes áreas do conhecimento debaterem e produzirem conhecimento. E consenso para esse tema está longe de ser alcançado e mesmo desejado, visto que é na complexidade do debate que se está pensando, analisando, reinterpretando e abrindo múltiplas possibilidades de compreensão da relação sociedade-natureza, que está no cerne da discussão do Antropoceno.

O que está em pauta?

Afinal, como falar de uma nova época geológica relativa à agência humana sem colocar em debate questões como por exemplo:

1) As modificações causadas pelo ser humano na Terra são capazes de justificar a definição de uma nova época geológica?

2) Se sim, qual seria o marco espaço-temporal desse novo “recorte” no tempo geológico?

3) Ao falar de “ser humano” não há a necessidade de especificar quem é esse humano (de qual classe social, de onde, com qual real capacidade de interferência nos processos naturais, com qual real intensão, etc.)?

4) O reconhecimento de uma nova época geológica é capaz de suscitar debate sobre a nossa própria sociabilidade e os possíveis rumos que a humanidade deverá trilhar?

5) Se sim, não é desejável discutir, também, as reais causas das alterações, digamos, negativas (porque negativas para alguém, talvez não para todos)? Essas são poucas das muitas questões postas.

Representação artística de edifícios modernos compondo uma coluna estratigráfica – A estratigrafia é o ramo da geologia que estuda os estratos ou camadas de rochas, com o objetivo de compreender sua formação. Uma coluna estratigráfica explicita a relação cronológica das rochas de uma região, evidênciando o empilhamento das diferentes unidades litológicas. Imagem: Diego F.T. Machado, com uso da ferramenta DALL-E2

O Antropoceno em foco

Em termos de uma nova época geológica, o trabalho do Anthropocene Working Group está, como se diz, a todo vapor. Veículos importantes de divulgação da ciência mundial, como a Science e a Nature têm possibilitado a divulgação dos trabalhos, e mesmo contrapontos a eles. Aqui apresentaremos algumas das principais linhas do debate posto em termos do Antropoceno pelo viés geológico.

Em publicação recente na Nature, McKenzie Prillaman (2022) [1] aborda o tema a partir de um texto de Waters e Turner (2022) [2] publicado na Science, além de apresentar, em contrapartida, a opinião de outros cientistas e pesquisadores que não acreditam na viabilidade da definição do Antropoceno como época geológica. Engloba, assim, vários dos principais argumentos utilizados pelo AWG (Anthropocene Working Group), do qual Colin Waters e Simon Turner são, respectivamente, presidente e secretário atuais, para ratificar o Antropoceno como nova época geológica, bem como alguns contrapontos. Esse debate está ocorrendo de forma intensa, visto que a intenção é a apresentação, em breve, de uma proposta formal, por parte do AWG, sobre o início do Antropoceno como época geológica e seu possível GSSPGlobal Boundary Stratotype Sections and Points (Seção e ponto de estratotipo de limite global).

Mas o que seria o GSSP?

Conforme o site da Comissão Internacional de Estratigrafia [3], os GSSPs, são pontos de referência em seções estratigráficas de rocha que definem os limites inferiores dos estágios da Tabela Cronoestratigráfica Internacional, e desde 1977 essa comissão mantém o registro internacional deles. Apenas por curiosidade, destaca-se que entre as regras estão a obrigação do limite ser definido por uma mudança observável e inequívoca nas propriedades físicas ou no conteúdo fóssil dos estratos, bem como deve apresentar outras manifestações físicas (marcadores secundários) que podem ser usadas para localizar o limite, como outros fósseis, mudanças químicas e reversão magnética. Além desses, outro fator importante é que os marcadores primários ou secundários devem apresentar manifestações regionais e globais, permitindo a correlação em afloramentos da mesma idade, além de apresentar camadas com minerais possíveis de serem datados radiometricamente.

A Escala de Tempo Geológico retrata a sequência temporal desde a formação da Terra até o presente. Essas divisões são baseadas nos principais eventos geológicos que ocorreram ao longo da história geológica do nosso planeta. As unidades cronoestratigráficas correspondem a conjuntos de rochas que se formaram durante um intervalo específico de tempo. Para padronizar essas unidades em nível internacional, temos a Tabela Cronoestratigráfica Internacional [4], um documento que estabelece os limites e as unidades de tempo geológico atualmente adotadas em todo o mundo.

Essas e outras regras devem, portanto, ser seguidas na proposição do Antropoceno para a finalidade de inclusão na Tabela Cronoestratigráfica Internacional. No entanto, o caminho até lá não é simples, e mesmo após a definição de um GSSP pelo AWG, ainda precisa passar por outras aprovações: da Subcomissão de Estratigrafia do Quaternário e Comissão Internacional de Estratigrafia, além da ratificação pelo Comitê Executivo da União Internacional de Ciências Geológicas. Em caso de aprovação, a alteração na Tabela Cronoestratigráfica Internacional mostrará, definitivamente, que saímos da época do Holoceno e entramos no Antropoceno.

Os locais em Estudo para os GSSPs do Antropoceno

Até o momento, 12 locais têm sido estudados como possibilidades para abrigar o GSSP do Antropoceno (Figura 1). Como é possível observar, há uma variedade de ambientes que são cogitados para abarcar o GSSP, e não são, necessariamente, em rochas, abarcando deposição antropogênica, corais, espeleotema, deposições em lagos e estuários, mantos de gelo, entre outros. Isto não é necessariamente novo, visto que para as idades do holoceno foram escolhidos testemunhos de gelo e espeleotemas (Greenlandiano no núcleo de gelo NGRIP2 da Groenlândia; Northgrippiano no núcleo de gelo NGRIP1 da Groenlândia; Megalayano em um espeleotema da Caverna Mawmluh, Meghalaya, nordeste da Índia) [5]. Esses locais estão sendo avaliados considerando suas evidências quanto à ação humana transformadora das características das paisagens.

Figura 1. Localização dos 12 candidatos e demais localidades de referência indicando o ambiente deposicional. Imagem de satélite: Terra visível da NASA. Fonte: Waters et al. (2023). Reproduzido com modificações de Head et al. (2022).

De acordo com o texto publicado na Science (WATERS; TURNER, 2022),

A definição precisará identificar propriedades físicas específicas em camadas de sedimentos, ou estratos, que capturem os efeitos de aumentos recentes na população humana; industrialização e globalização sem precedentes; e mudanças impostas na paisagem, clima e biosfera” (p. 706, tradução nossa).

Podemos levantar alguns questionamentos sobre esta afirmação, especialmente com relação ao aumento na população humana e os efeitos disso nos diferentes ambientes, ampliando o debate para questões como a desigualdade de acesso aos diferentes bens, exclusão social e capitalismo, diferentes tipos de impactos causados por determinados grupos sociais, classes sociais, etc. Ou seja, as mudanças nos diferentes ambientes e paisagens não são necessariamente relacionadas ao número de pessoas, mas sim a fatores muito mais complexos e que precisam ser estudados, visto que não são todos os seres humanos que causam efeitos no ambiente na mesma dimensão. No entanto, Waters e Truner (2022) assumem que encontrar um único GSSP, que represente uma referência global para o Antropoceno, é desafiador ao se ter em mente a diversidade de modificação geológica que tem ocorrido em diferentes ambientes.

Microplástico, alterações geoquímicas e partículas carbonosas – os marcadores do Antropoceno

Em termos de definição de uma época geológica relativa à humanidade, vários marcadores são mencionados nos trabalhos do AWG como amplamente difundidos em diferentes ambientes deposicionais. Dentre os quais os microplásticos, que se encontram bastante difundidos em diferentes ambientes da Terra, até mesmo dentro do próprio corpo humano [6] [7], e tem relação, entre muitos outros fatores, com processos industriais e globalização.

Contudo, grande atenção tem sido dada a outros marcadores como importantes na definição do GSSP. Estes incluem os relacionados às alterações geoquímicas (isótopos de Plutônio relativos aos testes com bombas nucleares, análise de isótopos de Carbono e Nitrogênio), aparecimento de partículas esferoidais carbonosas (Figura 2), resultantes da queima de combustíveis fósseis, e são considerados como marcadores estratigráficos importantes a nível mundial, apesar da consideração da importância, também, da presença de microplásticos, metais pesados e das modificações bióticas, como na introdução de espécies em um novo local (WATERS; TURNER, 2022).

Ao considerar esses marcadores, a década de 1950 tem sido apontada como possível data para o início do Antropoceno, visto que os trabalhos indicam o surgimento, ou mesmo intensificação, da presença deles em variados ambientes estudados. Idealmente, Waters e Turner (2002) comentam, também, que o local do GSSP deve possuir estratos datáveis com precisão, permitindo a fixação do Antropoceno em um ano específico, bem como apresentar um registro completo, sem lacunas ou distúrbios no intervalo de fronteira entre o Holoceno e o Antropoceno.

Uma imagem de microscopia eletrônica de varredura mostrando uma partícula esferoidal carbonosa (SCP) de aproximadamente 40 μm de diâmetro de Crawford Lake, Canadá. Fonte: Waters e Turner (2022).

Um debate persistente

Não há um único posicionamento na ciência a respeito do Antropoceno, como bem mostra Prillaman (2022). Uma das discussões é sobre a própria pesquisa e ciência Geológica conforme comenta Stanley Finney, presente na publicação de Prillaman (2022), ao afirmar que normalmente os geólogos encontram o estrato que deve entrar na escala do tempo geológico e, apenas depois, consideram a proposição do Golden Spike (Figura 3), rumo diferente do que a pesquisa do Antropoceno tem tomado.

Golden Spike é uma marcação física incluída no local escolhido para representar o limite entre um estágio e outro do tempo geológico

Este Golden Spike nas Cordilheiras Flinders da Austrália Meridional foi aprovado por geólogos em 2004, para marcar estratos que exemplificam o período Ediacarano. Crédito: James St. John (CC BY 2.0). Fonte: PRILLAMAN (2022).

Aqui no Brasil, o pesquisador Alex Peloggia [8] (2015) já havia realizado raciocínio semelhante, ao comentar que o conceito do Antropoceno surgiu a partir do reconhecimento de mudanças ambientais em nível planetário, e não no registro estratigráfico geológico, como de costume na Geologia, o que teria gerado problemas iniciais quanto à sustentação da ideia do Antropoceno a nível estratigráfico.

Já Lucy Edwards, como apresentado na publicação de Prillaman (2022), acredita que o estrato que pode definir o Antropoceno ainda não existe, devido a proposta época ser muito jovem. Em conjunto com outros pesquisadores, Edwards e Finney defendem a ideia do Antropoceno como “evento”, sendo este um termo mais flexível e que pode indicar extensão no tempo, a depender do impacto humano (PRILLAMAN, 2022). Cabe destacar que em 2014, Oliveira e Peloggia [9], no Brasil, haviam proposto uma definição de evento que dizia respeito ao caráter diacrônico das alterações causadas pelos seres humanos no planeta, o Evento Tecnogênico.

O debate parece estar longe de terminar, o que, por incrível que pareça, é positivo para a ciência!

Mesmo que o Antropoceno entre de vez na Tabela Cronoestratigráfica Internacional, ainda haverá muito a se discutir, como: 1) qual é o real impacto, em diferentes ciências, em se considerar o Antropoceno apenas pós 1950 e como se designar a todo o recorte temporal anterior, no qual as diferentes sociedades humanas também deixaram suas marcas nas paisagens? 2) O que esses marcadores considerados na definição do Antropoceno realmente nos dizem sobre a nossa sociabilidade? 3) O que se é definido, em grande parte, como alterações nas paisagens, e consequentes marcas nos estratos estratigráficos no Norte global pode ser correlacionado ao que se observa no Sul global? 4) Se as modificações nas paisagens e ambientes, em parte, são consideradas como “impactos”, quem são os atores sociais realmente responsáveis por eles? Como vemos, a questão do Antropoceno é muito mais ampla do que a sua definição em termos geológicos.


Para saber mais!

A ÉPOCA DO ANTROPOCENO: A EXPRESSÃO DO IMPACTO HUMANO AVASSALADOR NO PLANETA TERRA

Referências:

HEAD, M. J. et al. The Great Acceleration is real and provides a quantitative basis for the proposed Anthropocene Series/Epoch. Episodes Journal of International Geoscience, v. 45, n. 4, p. 359-376, 2022.

PELOGGIA, A. U. G. Os registros geológicos da ação humana e o Antropoceno-Tecnógeno: a estratigrafia da Arqueosfera. In: Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário. 2015. p. 12-13.

OLIVEIRA, A. M. S.; PELOGGIA, A. U. G. The Anthropocene and the Technogene: stratigraphic temporal implications of the geological action of humankind. Quaternary and Environmental Geosciences, v. 5, n. 2, 2014.

PRILLAMAN, M. Are we in the Anthropocene? Geologists could define new epoch for Earth. Nature, 2022.Waters e Turner.

WATERS, C. N. et al. Candidate sites and other reference sections for the Global boundary Stratotype Section and Point of the Anthropocene series. The Anthropocene Review, p. 1-22, 2023.

WATERS, C. N.; TURNER, S. D. Defining the onset of the Anthropocene. Science, v. 378, n. 6621, p. 706-708, 2022.


[1] https://www.nature.com/articles/d41586-022-04428-3

[2] https://www.science.org/doi/abs/10.1126/science.ade2310

[3] https://stratigraphy.org/gssps/

[4] https://stratigraphy.org/chart

[5] https://www.episodes.org/journal/view.html?doi=10.18814/epiiugs/2018/018016

[6] https://revistapesquisa.fapesp.br/a-ameaca-dos-microplasticos/

[7] https://revistapesquisa.fapesp.br/respirando-microplasticos/

[8] https://www.abequa.org.br/trabalhos/Anais_XV_ABEQUA.pdf

[9] https://revistas.ufpr.br/abequa/article/view/34828


Texto: Érika Cristina Nesta Silva e Caio Augusto Marques dos Santos

Edição: Diego Fernandes Terra Machado

Arte da Capa: Diego Fernandes Terra Machado


Leia também:

O que são os terrenos tecnogênicos e como eles se relacionam com a perspectiva do Antropoceno?

por: Érika Cristina Nesta Silva –

Um olhar sobre o impacto dos seres humanos a partir das formas destruídas, produzidas e/ou alteradas na superfície terrestre.


Nos últimos anos temos visto, em diversos meios, o quanto a sociedade tem alterado as características naturais de diferentes paisagens, no decorrer do processo de produção do espaço. Nesse sentido, incluem-se as modificações nos aspectos climáticos, da biodiversidade, dos solos, dos relevos, dos componentes geológicos, etc.

Com particular atenção à geomorfologia, geologia e pedologia, a perspectiva dos terrenos tecnogênicos surge como uma possibilidade de classificar e interpretar os resultados da ação da sociedade nos processos e elementos relativos à superfície terrestre.

Cabe observar que quando falamos de “sociedade” não estamos nos referindo a um humano genérico, mas sim, ao estudar essas e outras modificações na paisagem, precisamos sempre esclarecer de QUAL ser humano estamos falando, ou melhor, a qual classe e fração de classe social pertence, especificamente, esses seres humanos que estão causando as modificações e aqueles que estão se beneficiando ou sofrendo as consequências dessas ações.

Os Terrenos Tecnogênicos

A perspectiva de estudo considerando especificamente a terminologia “Terrenos Tecnogênicos” passa a ter destaque no Brasil em 2014 (PELOGGIA et al., 2014), a partir de um artigo publicado com o intuito de propor e discutir uma classificação geológica de terrenos artificiais, ou seja, daqueles terrenos formados e/ou alterados pela ação do ser humano, em situações que resultaram na intensificação de processos erosivos e deposicionais diversos, cortes e aterros originados por ação mecânica direta, além da própria alteração in situ, a exemplo de contaminações, compactações, etc.

Neste processo de discussão e classificação, os autores utilizaram diferentes referenciais, dentre os quais de origem britânica, estudos soviéticos e do leste europeu. Portanto, houve no decorrer da escrita desse artigo, a tentativa de abarcar as diversas situações de geotecnogênese, referente a alterações nos solos, nos sedimentos, nos aspectos geológicos, como cortes nas rochas e mineração, e no relevo. Essa classificação passou por algumas atualizações e hoje boa parte dos trabalhos utilizam a publicada em Peloggia (2017) (Quadro 1).

Geotecnogênese : conjunto da ação humana transformadora sobre o ambiente, envolvendo a alteração dos processos da dinâmica externa, sejam estes erosivos ou deposicionais, resultando na criação de formas de relevo (tecnogênico) e na formação dos depósitos tecnogênicos. (PELOGGIA; OLIVEIRA, 2005).

Classificação de Terrenos Tecnogênicos (Antropogênicos) para a mapeamento geológico e geomorfológico - Fonte: Peloggia (2017).
Quadro 1: Classificação de Terrenos Tecnogênicos (Antropogênicos) para a mapeamento geológico e geomorfológico – Fonte: Peloggia (2017).

O Antropoceno

Ao passo que não dá mais para negar que a sociedade, com suas diversas possibilidades técnicas, tem imprimindo sua marca nas paisagens, surge no início dos anos 2000 a ideia do Antropoceno (CRUTZEN; STOERMER, 2000; CRUTZEN, 2002).

Interpretações e proposições mais recentes, que vem sendo discutidas em diversas esferas, como dentro da Subcommission on Quaternary Stratigraphy (em particular os trabalhos de pesquisadores que fazem parte do Anthropocene Working Group) trabalham com a possibilidade do Antropoceno ser uma nova época geológica, ainda incluída no período Quaternário.

Esta nova época Geológica teria  provável início na metade do século XX, momento a partir do qual intensificam as “assinaturas”, ou melhor, evidências das ações da sociedade nos solos, na elaboração de depósitos artificias, na presença de novos tipos de “minerais” em diversos ambientes, em “antroturbação” (interpretada como uma bioturbação de origem humana), em alterações relativas à elevação do nível do mar, nas alterações geoquímicas na criosfera e nos espeleotemas, além de contaminações nos solos e precipitações de radiogênicos, em particular os específicos dos bombardeios e testes nucleares (WATERS et al., 2014).

“New Awful Changes – the human geological stratum rediscovered”. Acrílico e colagem sobre tela, 100 x 70 cm, por Alex Peloggia, 2018 (obra e explicação sobre ela disponível em: https://ppegeo.igc.usp.br/index.php/rig/issue/view/1228).
Observação sobre a imagem: se, no futuro, o ser humano deixasse de existir e outros seres estudassem o estrato geológico humano, quais seriam as interpretações possíveis sobre as características da espécie humana e de suas diferentes culturas, a partir o registro material? Parte importante desses registros estaria relacionada ao que se está denominando de época do Antropoceno

Mas quais são as possíveis relações dos terrenos tecnogênicos com o Antropoceno?

Uma das principais relações que podemos destacar é que boa parte das evidências relativas ao Antropoceno podem ser encontradas em terrenos tecnogênicos de agradação, como a presença de novos materiais, especialmente plástico e concreto (este último não necessariamente novo, mas mais amplamente utilizado em construções pós Segunda Guerra Mundial, como em reconstruções em cidades europeias). Estes materiais são encontrados em diferentes ambientes (Figura 1), inclusive em aterros, bancos de sedimentos em áreas de planícies aluviais (isso só para destacar a relação com terrenos tecnogênicos, fora a presença, especialmente dos plásticos, em ambientes que teoricamente não possuem ocupação humana direta, mas que foram transportados pelos oceanos).

área com deposição tecnogênica
Figura 1: Exemplo de área com deposição tecnogênica (terreno tecnogênico de agradação) Fonte: Silva (2017).

De acordo como Peloggia (2017), do ponto de vista geológico-geomorfológico, os terrenos tecnogênicos podem ser classificados como em quatro classes:

Agradação – resultantes da acumulação de material

Degradação – remoção ou deslocamento de material

Modificados – derivados da transformação in situ do material

Complexos – terrenos com sobreposição de diferentes ações (agradação e/ou degradação).

Muitos desses materiais, cujo uso cresce vertiginosamente após a metade do século XX (Figura 2), permanecerão nos ambientes como testemunho, numa perspectiva futura arqueológica, das características das sociedades atuais. Ainda em relação a essas deposições, Waters et al. (2018) trabalham com a ideia de que essas áreas de deposições originadas pela ação humana podem ser consideradas entre os possíveis paleoambientes que abarcam marcadores estratigráficos relativos ao Antropoceno.

Figura 2: Crescimento da produção de plásticos desde 1950 – Fonte: Revista Fapesp (https://revistapesquisa.fapesp.br/a-era-humana)

Já no caso de terrenos que tiveram retirada de material em subsuperfície para instalação de infraestruturas como tubulações e linhas de metrô, em muito se conectam com a ideia da “antroturbação”.

Além disso, mesmo áreas teoricamente “naturais”, com pouca ou nenhuma mobilização de materiais, nas quais os terrenos tecnogênicos são classificados como “modificados”, podem ter sofrido processos de contaminações e modificações de suas características geoquímicas, como no caso da precipitação de radiogênicos relativos aos testes nucleares.

Há, portanto, diversas possibilidades de conexão dos estudos acerca dos terrenos tecnogênicos com a proposta do Antropoceno como nova época geológica, bem como essas possibilidades podem ser ampliadas conforme os estudos avancem nessa área, a partir do reconhecimento de novos tipos e níveis de interação da sociedade com os demais componentes e processos das paisagens.


Referências bibliográficas

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WATERS, C. N.; ZALASIEWICZ, J. A.; WILLIAMS, M.; ELLIS, M. A.; SNELLING, A. M. A stratigraphical basis for the Anthropocene? In: WATERS, C. N.; ZALASIEWICZ, J. A.; WILLIAMS, M.; ELLIS, M. A.; SNELLING, A. M. A Stratigraphical Basis for the Anthropocene. London: Geological Society; Special Publications, 2014.


Texto: Érika Cristina Nesta Silva

Edição: Diego Fernandes Terra Machado


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