Trancos e Barrancos – o ensino de solos nos ciclos básicos da educação formal

por:

Amandha Araujo; Bárbara Gumiero; Beatriz Foleis; Diego F.T. Machado –

Nas últimas décadas, observamos a consolidação de diversas ações em prol da difusão e popularização do ensino em solos voltadas aos ciclos básicos do ensino formal, todavia, essa estrada ainda não está completamente pavimentada e seguimos firmes, aos trancos, entre os barrancos!


O solo é um importante recurso para o planeta, sendo uma mistura de minerais, material orgânico, gases, líquidos e uma diversidade de micro e macro-organismos, assim compondo a pedosfera (Tassinari et al, 2017). É um corpo natural que demora um longo período para ser formado dependendo da ação de cinco fatores específicos, sendo eles: clima, relevo, organismos, material de origem e tempo.

A pedosfera, que aloja os solos, está em comunhão com a biosfera, composta por todos os seres vivos que habitam a Terra; a litosfera que é a parte solida do planeta; a hidrosfera que contém a toda água existente e a atmosfera, composta pela fração gasosa que envolve o todo, inclusive os chamados “espaços vazios” do solo. Walter F. Molina Jr – Adaptado de UNESCO (2007).

Os obstáculos…

No Brasil, atualmente, o ensino de solos é pouco trabalhado no ensino básico, se voltando principalmente para o ensino superior. O obstáculo para tornar o ensino de solos mais efetivo nos ciclos básicos passa pela adequação dos materiais didáticos e uma mudança nos métodos atuais de ensino, visando o docente e sua formação.

Os livros didáticos e apostilas utilizados no ensino dos ciclos básicos apresentam pouco conteúdo sobre solos, em sua maioria voltados para agropecuária (Sousa, 2012) além de exibirem termos que são muitas vezes complexos e/ou defasados para o entendimento dos estudantes (como terra roxa e massapê). Vale ressaltar que não se espera extinguir regionalismos ou mesmo termos antigos que ainda são usados informalmente, todavia, sua correlação com as terminologias atuais é necessária.

Adaptações para uma comunicação mais efetiva

A linguagem para o ensino dos solos ainda é muito complexa e não é própria para o ensino básico. É necessário uma readaptação do vocabulário sobre o ensino de solos, de forma a chegar-se ao entendimento por parte do aluno, sem deixar de lado os termos técnicos que especificam sobre as ordens e subordens ou sobre as características dos solos. Deve-se portanto buscar, sem deixar de lado os rigores científicos, uma comunicação mais efetiva que pode se dar via analogias, ilustrações, e e diversos elementos lúdicos, por exemplo.

Exemplo de atividade lúdica aplicado ao ensino sobre as ordens de solos de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS) – Jogo das ordens dos solos do Brasil – Projeto Solo na Escola UFCS

A efetivação das ações passa pelo tripé Pesquisa-Ensino-Extensão

É importante que centros de pesquisa e instituições relacionadas à ciência do solo, produzam e divulguem material didático acessível às escolas. De acordo com Prates (2010), observa-se uma escassez e até ausência do conteúdo sobre solos nos livros didáticos, na qual o professor se apoia completamente como referência para as práticas de ensino. É preciso fazer adaptações importantes para os professores e escolas visando suas condições e necessidades, buscando ainda, adequar a realidade local.

Reportagem apresentada na e-Paraná TV sobre a Exposição Didática de Solos do Programa Solo na Escola/UFPR.

O mal na raiz – defasagem no processo de formação dos professores

Há uma dificuldade por parte de alguns docentes quanto ao domínio deste tema, em casos os quais os mesmos não dispunham da disciplina de pedologia em sua grade curricular e/ou não tiveram acesso a formação continuada. Outro aspecto se dá pelo distanciamento entre o teor dos conteúdos e as formas de avalição nas IES e como levar isso para as salas de aula. Essa carência de atividades didáticas faz com que os professores exerçam métodos menos eficientes, por vezes menos dinâmicos,  limitando o processo de aprendizagem dos alunos.

A complexidade na abordagem de temas relacionados à pedosfera pode representar um desafio para os professores do Ensino Fundamental, dada a dificuldade de compreensão deste meio heterogêneo e ao mesmo tempo singular, especialmente no primeiro e segundo ciclos (Lima, 2005). Porém, Falconi (2004) destaca que os professores avaliam que a limitação em transmitir e ensinar o conteúdo solo pode não ser resultado da complexidade do assunto, mas da formação do docente, acentuada pela dificuldade em entender o conteúdo expresso nos livros didáticos. 

O papel das IES para a formação continuada de professores

Existe uma falta de atualização dos professores ao conteúdo mais recente, produzido principalmente nas universidades, e que não é levado para o ensino básico. O ensino continuado oferecido pelas universidades vem como uma alternativa para o ensino do solo ocorrer de melhor forma em sala de aula. Segundo Lima (2005), é necessário que as IES (Instituições do Ensino Superior) contribuam para melhorar o ensino de solos, qualificando a formação pedológica dos futuros professores, e propor atividades que auxiliem na melhoria da capacitação dos professores para compreender e ensinar sobre solos. 

Curso SNE - Programa Ponte-Solo na Escola
O curso oferecido pelo Programa Ponte-Solo na ESALQ-USP é uma de tantas iniciativas que visam fornecer atualizações voltadas ao ensino de solos.

Um esforço para atividades mais “ativas”

A forma tradicional de ensinar, onde o professor passa o conteúdo em uma lousa e os alunos copiam, tem ficado cada vez mais desatualizado. O estudo dos solos não é apenas teórico mas também prático, pedindo que as aulas também aconteçam de forma dinâmica, como por exemplo, explorando o solo em ambientes da escola ou do bairro, e quando isso não é possível, experimentos podem cumprir este papel. De acordo com Garcia et al (2016) deve-se tratar o ensino de maneira dinâmica e integrada, com novas metodologias, deixando o ensino fragmentado de lado. É necessário novas formas de abordar o ensino, fazendo com que o aluno entenda a totalidade mesmo estudando as partes.

Algumas considerações finais…

O solo é um importante recurso natural e deve ter maior destaque no ensino dadas suas múltiplas funções ecossistêmicas. Os livros didáticos precisam de uma reformulação, sua linguagem precisa ser atualizada levando em conta um vocabulário claro e objetivo, de acordo com seu referente grau de escolaridade. O conteúdo sobre solos produzido no ensino superior também deveria se estender para o ensino fundamental. Os professores devem se ater ao fato de que o ensino dos solos também é prático, e que atividades fora da sala de aula agregam para o aprendizado do estudante e para o maior entendimento sobre a importância dos solos. As universidades, Institutos de Agronomia e Institutos de Geociências poderiam desenvolver materiais para esses ciclos, assim como cartilhas e conteúdos relacionados, também podem ser desenvolvidos pelas escolas, com capacitação dos docentes, e um ensino continuado no assunto, fazendo com que o ensino de solos seja viável e acessível a todos os estudantes no ensino básico.


Bibliografia consultada

Falconi, S. 2004. Produção de material didático para o ensino de solos. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro-SP

Garcia, P. H. M.; Cavalcante, J. A. D.; Pereira, R. S.; Balieiro, A. B. 2016. O Ensino dos Solos: A Interdisciplinaridade na Sequência Didática. Revista Ensina: As diversas metodologias do ensino. UFMS, MS. v. 1, n. 1,  p. 9. Disponível em: <https://desafioonline.ufms.br/index.php/anacptl/article/view/1909> Acesso em 20/05/2021. 

Lima, M. R. de. 2005 O Solo No Ensino De Ciências No Nível Fundamental. Ciência e Educação, v.11, n.3, p.383- 395.

Prates, R. 2010  Análise das abordagens e discussões do conteúdo de pedologia nos livros didáticos de Geografia. Dissertação de Mestrado. Instituto de Agronomia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ. 85 p.

Sousa, H. F. T.; Matos, F. S. jul./ dez. 2012. O Ensino dos Solos no Ensino Médio: Desafios e Possibilidades na Perspectiva dos Docentes. GEOSABERES: Revista de Estudos Geoeducacionais,, Fortaleza, v. 3, n. 6, p. 71-78

Tassinari, D. ; Silva, S. H. G. ; Silva, E. ; Silva, E. A. ; Silva, B. M. 2017. Conhecendo a vida do solo: Volume 1. Editora UFLA, Minas Gerais. 32 p.

Molina Junior, Walter Francisco. Comportamento mecânico do solo em operações agrícolas [recurso
eletrônico] / Walter Francisco Molina Junior. – – Piracicaba : ESALQ/USP, 2017. 223 p. : il


Saiba mais

Experimentoteca de solos – Solos na Escola UFPR

Iniciativas de educação em Solos no Brasil – SBCS

Implantação de iniciativas em educação em solos – UFPR

Cinco cartilha para apoio didático no ensino sobre solos

Materiais didáticos – Projeto Solos na Escola – UFCG


Autoria: Amandha Araujo; Bárbara Gumiero; Beatriz Foleis; Diego F.T. Machado

Edição: Diego F. T. Machado

Este artigo foi realizado como parte das atividades previstas no projeto “Criação de uma Coleção de Macromonolitos de solos para o Instituto de Geociências da Unicamp” vinculadas ao programa Pibic Ensino Médio, coordenado pelo prof. Francisco S.B. Ladeira.


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De Santos a Pisa – É Puro Recalque

por Tainá N. de Almeida

Os solos exercem diversas funções, dentre elas, serve como base para estabelecimento da infraestrutura humana, e por isso, compreender o comportamento dos solos é fundamental para garantir nossa segurança e bem estar.


Santos é uma cidade costeira localizada no estado de São Paulo, a maior cidade do litoral paulista, cuja população estimada é de 433.656 habitantes. Conhecida pela extensa faixa de areia (são 7 km de praia) e por alocar um dos principais portos do país, o município também ficou famoso pelos ‘prédio tortos‘ ao longo de sua orla.

Por volta de 1940, com a expansão da cidade, a orla de Santos começou a ser rapidamente ocupada por edifícios entre 10 e 20 andares.

A partir dos anos 1970, os prédios começaram a afundar. O recalque¹ dos prédios atingiu até 120 cm e inclinações de até 2°, totalizando 65 prédios com estrutura comprometida.

¹Recalque (ou abatimento) – Movimento vertical de uma estrutura, provocado pelo próprio peso ou devido à deformação do subsolo por outro agente, tal como remoção do confinamento lateral, efeito de bombeamento de água e efeito do rebaixamento generalizado do lençol freático. (Glossário Geológico)

Imagem: Prédios inclinados devido ao deformação do subsolo na orla de Santos-SP
Reprodução Danilo Verpa – 4.jun.12/Folhapress

As causas? – Dois fatores combinados!

  • Os solos. O solo de santos é formado por uma camada de areia fina compacta, de 6 a 20 m de espessura. Logo abaixo, encontra-se uma camada de argila muito mole de até 40 m de espessura. As argilas muito moles têm alta compressibilidade e, por isso, as construções sobre esses solos precisam de muita atenção.
  • As fundações dos edifícios. Os edifícios construídos na época têm fundações diretas com sapatas². Como a camada superficial de areia é compacta, acreditava-se que uma fundação rasa seria suficiente. Com o tempo, percebeu-se que, devido ao solo mole abaixo da areia, os edifícios tinham grandes chances de sofrer recalque. Mesmo assim, as construtoras continuaram usando o mesmo tipo de fundação por julgarem as demais opções economicamente inviáveis.

²Sapata – Tipo de fundação rasa de uma construção, constituída por um maciço de alvenaria ou concreto armado. (Glossário Geológico)

O resultado foram os característicos prédios tortos da orla de Santos. A grande quantidade de edifícios muito próximos gerou altas tensões na camada de argila, que adensou, afundando e inclinando os prédios.

A inclinação dos prédios se dá pela sobreposição dos bulbos de tensão (área de influencia da pressão do edifício sobre o solo) dos prédios. Os prédio inclinam para o lado em que o solo concentra maior tensão.

Fonte: Milititsky; Consoli; Schnaid (2015)

Diversas técnicas foram usadas para estabilizar o recalque dos prédios, como injeções de argamassa para expandir o solo ou uso de estacas profundas que ultrapassam a camada de argila. O caso dos prédios de Santos deixa o alerta de como é extremamente importante conhecermos os solos sobre os quais vivemos e, no caso, construímos.       

Sabia que esse é o mesmo caso da Torre de Pisa?

A  torre, construída entre 1173 e 1372, foi erguida  sobre uma camada de areia que sobrepõe uma camada muito argilosa. A inclinação foi observada durante seus 199 anos de construção e, na tentativa de compensar a inclinação, seus últimos andares foram feitos mais altos de um lado.

Imagem: Reprodução Ray Harrington/Unsplash

Fontes consultadas:

DIAS, M. S. Análise do Comportamento de Edifícios Apoiados em Fundação Direta no Bairro da Ponta da Praia na Cidade de Santos. p. 145, 2010.

https://www.cimentoitambe.com.br/massa-cinzenta/predios-tortos-de-santos-como-eles-estao-hoje/

LEITÃO DIAS, L. K.; TELES ANDRADE, A. C. O.; DANTAS, E. S.; ARAÚJO, M. E. P.; SILVA, M. de J. Geotecnia: fundações e obras de terra. Caderno de Graduação – Ciências Exatas e Tecnológicas – UNIT – SERGIPE, [S. l.], v. 1, n. 2, p. 27–43, 2013. Disponível em: https://periodicos.set.edu.br/cadernoexatas/article/view/315. Acesso em: 14 jun. 2021.

MILITITSKY, J.: CONSOLI, C.; SCHNAID, F. Patologia das fundações. São Paulo: Oficina de Textos, 2015. Disponível em: <http://ofitexto.arquivos.s3.amazonaws.com/Patologia-das-fundacoes-2ed-DEG.pdf>. Acesso em: 14 jun. 2021.


Texto escrito por Tainá Nogueira de Almeida

Edição: Diego F.T. Machado

Fotografia da Capa: Reprodução https://www.maissantos.com.br/


Geografia, solos e paisagem

por Diego Machado

Perguntamos a Dra. Grace B. Alves (UFBA) e ao Dr. José João Lelis (UFV) quais as contribuições da geografia para os estudos sobre os solos, e qual a importância em compreender as relações entre solo e paisagem?


MUITO MAIS DO QUE O CHÃO QUE PISAMOS…

GA – Nosso alimento depende dos solos, assim como uso dos solos, seja em ambiente rural ou urbano, o solo possui ainda função de filtro e armazenamento de água (é mais importante nas rochas sedimentares, mas passa pelos solos), serve para a produção de fibras das roupas que vestimos, pode servir de matéria prima para extração de ferro e alumínio, por exemplo, de material de construção e para fabricação de cerâmica, entre outras coisas, para ficarmos dentro das funções mais básicas. Todos estes exemplos só ressaltam a importância dos solos e seu conhecimento.


Funções do Solo
As funções do solo – disponível em http://www.fao.org/3/ax374pt/ax374pt.pdf

PEDOLOGIA E GEOGRAFIA – ENTRE ESCALAS E FENÔMENOS

JJ – O solo é agente síntese da paisagem e o melhor estratificador de ambientes, portanto a Geografia precisa integrar o solo em suas análises para melhor compreender a dinâmica espacial.

GA – Se pegarmos o exemplo de uma represa hidrelétrica construída em Tocantins que alagou uma extensa área de Plintossolos (solos que apresentam acumulação de ferro) e depois passou a apresentar processos erosivos com o surgimento generalizado de pipes, feições erosivas que formam verdadeiros túneis com grande retirada de material, o entendimento do funcionamento destes solos na paisagem teria servido para indicar que esse seria o curso normal da evolução das vertentes e dos processos erosivos, frente a modificação do nível de base em um solo que possui um funcionamento específico.


Pipies – “vazios tubulares ou passagens no solo que podem variar em tamanho de conduítes estreitos com apenas alguns milímetros de diâmetro a túneis com pelo menos muitos centímetros de diâmetro” Na figura – B. Piping com desabamento recente do teto no horizonte C; D. Piping com teto relativamente preservado. Fonte: Sousa e Correchel 2015

JJ – [do ponto de vista da ocupação das terras] por exemplo, não há como descrever e interpretar a ocupação do cerrado por monoculturas e avanço do desmatamento sobre a Amazônica sem considerar o solo como elemento chave.

JJ – Como estudar a desertificação de terras semiáridas no Brasil sem considerar a perda de qualidade do solo? Da mesma forma, não há como explicar a diversidade de fitofisionominas dentro dos domínios morfoclimáticos sem considerar a disponibilidade de água e nutrientes no solo.

JJ – Grande parte da população mais carente no Brasil depende essencialmente do solo para sua subsistência. Todavia, não temos resultados satisfatórios que mensuram o percentual de terras degradadas no Brasil. É papel da Geografia contribuir com esses estudos e encontrar soluções.

SOLOS & PAISAGEM… & PLANEJAMENTO TERRITORIAL & EDUCAÇÃO & […]

GA – Acredito que a Geografia tem muito a ganhar com o aprofundamento do conhecimento sobre os solos, para além das questões sobre evolução da paisagem, que são minhas preferidas. Os solos são importantíssimos para discutir planejamento urbano e territorial, não basta só identificar as classes de solos presentes e as características de relevo, é necessário ter o entendimento do funcionamento, entendimento que se torna possível inclusive através da compreensão da evolução da paisagem. É preciso ainda popularizar o conhecimento dos solos no ensino básico e em espaços não formais, nossa vida é muito dependente dos solos para só sabermos que eles possuem horizontes A, B e C, ou que se subdividem em classes.

GA – Acabo de finalizar a orientação do trabalho de Izis Santiago que traz algumas destas questões relacionando os solos com susceptibilidade ambiental e vulnerabilidade social, para discutir no ensino básico os deslizamentos e alagamentos em Salvador. Verificamos um interesse muito grande no assunto e foi possível fomentar esta discussão correlacionando diferentes elementos, sem fechar a discussão na Pedologia. Acho que esse é o nosso principal interesse na Rede, não queremos fechar a discussão somente na Pedologia, ou na Geografia Física, queremos discutir com profissionais de diferentes áreas, ver o que mais podemos aprender, como podemos cooperar e quais conhecimentos podemos fornecer neste processo.


Movimento de massa ocorrido na localidade do Barro Branco, Salvador – BA.
Fonte: Manu Dias/ Governo da Bahia/Divulgação.

SOBRE AS CONTRIBUIÇÕES DA GEOGRAFIA PARA OS ESTUDOS EM SOLOS

JJ – Em geral, geógrafxs possuem uma formação mais profunda em geomorfologia, arqueologia, geoprocessamento e até mesmo geologia do que outros profissionais que contribuem com a Pedologia. Isso nos confere um olhar diferenciado sobre a gênese do solo. Tais conhecimentos nos permitem entender como os processos pedogenéticos ocorrem em diferentes escalas do tempo e espaço, bem como avaliar a como os fatores de formação do solo interagem de forma diferente considerando essas escalas. Um dos exemplos práticos de como a Geografia pode contribuir com a Pedologia é no estudo de solos urbanos. Por tradição essa não é uma área de interesse da Agronomia e são escassos os estudos dessa temática no Brasil.

GA – Acredito que é mais fácil para profissionais de Geografia trabalharem em equipes multidisciplinares devido as características próprias da nossa formação, isso facilita fazer a ponte com outras áreas, mas isso também é observado em especialistas em solos formados em diferentes áreas, porque o entendimento dos solos também nos leva a interagir com diferentes campos da ciência. Neste contexto, a compreensão das relações entre solo e paisagem é importantíssima para o entendimento da evolução da própria paisagem, para o planejamento territorial e para projeções futuras, frente as alterações climáticas que estamos observando.

LP – Atualmente, estamos passando por um período de retomada dos estudos relacionados a geografia dos solos. Neste contexto, no Brasil, quais as contribuições da geografia para os estudos sobre a distribuição espacial dos solos na paisagem?

GA – Não sei se Geografia dos Solos dá conta de explicar tudo o que tem sido feito no Brasil, em termos de estudos de solo e paisagem. Quando comparamos os trabalhos realizados no exterior com os daqui, é possível perceber que os nossos se mostram mais amplos e com uma discussão evolutiva mais destacada, não restringindo à distribuição dos solos, ou mesmo o seu funcionamento, dependendo a definição de Geografia dos solos adotada, acho que isso ficou bem evidente dentro das apresentações das “Trajetórias dos solos à paisagem” (TSP).

Então, há muitas coisas a serem consideradas para responder sobre a Geografia dos solos. Diante do que temos discutido e levantado, acredito que no Brasil ultrapassamos e não delimitamos nossas discussões ao que é entendido como Geografia dos Solos, embora essa área tenha ganhado certo destaque nas últimas décadas, o que é feito no Brasil tem um foco maior nas características de relevo, podemos até retomar as colocações de Volkoff (1984), de que no Brasil o clima não é suficiente para entender a distribuição dos solos, é preciso considerar a evolução do relevo, que por vezes pode até ressaltar o papel da litologia ao revelá-la pelos processos de denudação.

Assim, me parece que as relações expostas através da observação dos solos na paisagem, indicam que o seu entendimento não pode ser separado da compreensão da evolução do relevo e até mesmo dos grandes conjuntos de vegetação, como exposto para as paisagens sertanejas (Alves, 2019), compreendendo inclusive que durante o tempo geológico todos os elementos da paisagem se diferenciaram, impulsionados sobretudo pelo clima existente. Dessa forma, não dá para entender os solos com base apenas nos processos e elementos da paisagem atuais.

No segundo semestre do ano passados várias pessoas do núcleo inicial [da Rede de Estudos Avançados sobre Solo e Relevo – SOPA] participaram da disciplina “Solos e Paisagem: Escalas, Relações e Métodos de Estudo” ofertada pela professora Selma Simões de Castro, na pós-graduação em Solos e nutrição de plantas, da ESALQ-USP. Passamos o semestre discutindo o assunto na disciplina e nas lives TSP. Desta disciplina construímos um artigo que discute Topossequências e Catenas, juntando Fábio, Valdomiro e Eu, e juntamente com as contribuições da professora Selma, deveremos enviar para publicação em breve. Motivados por esta discussão e por convite da professora Selma, Fábio e eu participamos de uma discussão sobre Geografia dos Solos e Solo e Paisagem, numa publicação* que deverá sair em breve, e que trará uma contribuição mais detalhada do que estou pincelando aqui. 

*CASTRO, S.S.;  ALVES, G.B.; OLIVEIRA, F.S. 2021. Solo e Paisagem: principais abordagens no estudo das interrelações.  In: Perez Filho et al. Geografia: teorias, métodos e aplicações na perspectiva ambiental. Geografia IGEO/UNICAMP, Ed. Consequência. (Cap.no prelo).


SAIBA MAIS – TSP Ep.1 – Solo e Paisagem da Geografia do Solo à Pedogeomorfologia


Edição: Diego F. T. Machado

Foto da Capa: Divulgação projeto Radam Brasil


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O Que é Permafrost e por que se importar?

por Thaís N. Fioravanti –

À medida que o solo congelado derrete de modo acelerado, ele altera a paisagem, libera gases do efeito estufa e pode revelar perigos ainda desconhecidos.


PERMAFROST termo em inglês que poderia ser traduzido livremente como “permanentemente congelado“. Uma conceituação mais formal, como a apresentada pela API (International Permafrost Association), define permafrost como uma superfície que permanece a temperaturas abaixo de 0º por pelo menos 2 anos consecutivos e que pode ser constituída tanto por solo, como rochas, gelo, sedimentos e matéria orgânica. Sua ocorrência está ligada com ambientes periglaciais1

1Periglaciais: Condição ou ambiente que ocorre junto às áreas glaciais, nas regiões de degelo e circunvizinhas… (Glossário Geológico)

Com base na descrição apontada pelo  Glossário Geológico Ilustrado (2021) permafrost ocupam cerca de 20% da superfície terrestre e aproximadamente 1/3 de sua totalidade está para degelar e em alguns lugares já encontram-se em pleno degelo2.


Degelo do permafrost perto do Lago Wolverine, Alaska

Derretimento do permafrost no litoral ártico

2Degelo: fenômeno causado pelo derretimento paulatino das massas de gelo e de neve existentes na superfície da Terra, provocado pelo aumento da temperatura ambiente


Mas por que isso é tão preocupante?

– Primeiro, o degelo dos permafrost em níveis relativamente rápidos é um indício das constantes mudanças climáticas que estão ocorrendo nos últimos tempos. O permafrost é coberto por alguns metros de terra e detritos vegetais, camada essa que sempre congela no inverno e derrete no verão. No entanto, em 2018, essa camada não havia congelado no inverno ártico. A degradação do permafrost já afeta fatores hidrológicos do platô tibetano.

– Segundo que, por se tratarem de solos antigos eles contem uma grande quantidade de vestígios da vida antiga que por sua vez, preservam no seu interior também grandes quantidades de gases como o dióxido de carbono e o metano.

De acordo com uma reportagem da National Geographic (2020):

“pesquisadores agora suspeitam que, para cada aumento de um grau Celsius na temperatura média da Terra, o permafrost possa liberar o equivalente a quatro a seis anos de emissão de carvão, petróleo e gás natural”.

Uma outra questão, tratada em uma reportagem pela BBC (2017), é que por estarem congelados por milhares de anos, esses solos podem liberar antigos vírus e bactérias antes presentes nos restos animais e humanos preservados nesse ambiente.

Para Boris Revich e Marina Podolnaya, pesquisadores da Academia Russa de Ciências (Moscow):

“Como consequência do derretimento do permafrost, os vetores de infecções mortais dos séculos 18 e 19 podem voltar, especialmente perto dos cemitérios onde as vítimas dessas infecções foram enterradas.”

Dessa forma, os permafrost tem ganhado grande destaque nas discussões em relação ao aquecimento global. Se tornando um tema de grande preocupação para os próximos anos, fazendo com que fiquemos mais alertas em relação às nossas próprias emissões de gases na atmosfera.


Tipos de solos na Antártica

Antártica ou Antártida? Como inserir o tema Antártica no currículo escolar. Este é um curso introdutório sobre o continente antártico e pretende apresentar temas gerais para que você possa trabalhar nas salas de aula do Ensino. Disponível em http://moodlecmcc.ufabc.edu.br/ Mais informações: convergenciaxxi@gmail.com https://www.interantar.com


Para saber mais

Conheça um pouco mais sobre o continente gelado com as contribuições do prof. Dr. Alessandro Batezelli (IG UNICAMP) no episódio 01 da segunda temporada do Magmacat – Podcast de Divulgação das Geociências.

MATERIAL CONSULTADO

Dobinski, W. (2011). Permafrost. Earth-Science Reviews, 108(3-4), 158-169.

Revich, B. A.; Podolnaya, M.A. (2011). Thawing of permafrost may distrub historic cattle burial grounds in East Siberia. Global Health Action, vol. 4, n.1.

NATIONAL GEOGRAPHIC (2020). Permafrost do Ártico está descongelando em ritmo acelerado, e consequências são para todos. acessado em 12 de maio de 2021.

BBC (2017). There are diseases hidden in ice, and they are waking up. acessado em 12 de maio de 2021.


Texto escrito por Thaís N. Fioravanti

Edição: Diego F.T. Machado

Fotografia da Capa: Public Co por Pixabay


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