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Além da Trincheira: uma experiência em sala de aula

Inúmeras são as possibilidades de se comunicar sobre ciência, e é essencial promover e praticar essa diversidade. Aqui, compartilhamos os desfechos de uma atividade educativa na disciplina de Pedologia, realizada por estudantes dos cursos de Geografia e Geologia do IG-UNICAMP.

por: Diego F. T. Machado


No Instituto de Geociências da UNICAMP, os cursos de Geografia (bacharelado e licenciatura) e Geologia foram criados no ano de 1997 e implementados no ano de 1998, quando receberam suas primeiras turmas, tanto no período diurno quanto no noturno.
A disciplina Pedologia (GF508) é obrigatória para todos estes cursos, tendo atualmente uma demanda básica de 50 alunos no período diurno e 30 alunos no noturno.

O oferecimento da mesma disciplina para os diferentes cursos(inclusive com a situação corriqueira dos alunos dos três cursos na mesma sala) provoca um desafio para o trabalho com os conteúdos, que devem ser tratados para um público com diferentes interesses. Desde o início da disciplina, temos enfrentado esse desafio, e isso tem influenciado os métodos de avaliação. Por isso, no ano de 2023, buscamos encorajar os alunos a demonstrarem os conhecimentos e habilidades adquiridos ao longo do semestre por meio de diferentes formas de comunicação.

Sobre a atividade

A inspiração surgiu, naturalmente, do efervescer das atuais formas de interações digitais, em um momento oportuno em que muito se discute sobrea importância de se extrapolar os limites da academia ao se discutir sobre os avanços científicos. Certamente, o debate é complexo e esses trabalhos não tem por objetivo aprofundar-se neste tema, no entanto é algo que demanda diferentes abordagens que vão além da escrita técnico científica. Nesse sentido, acreditamos ser valioso encorajar os alunos a explorarem diferentes fôrmas de transmitir o conhecimento.

Para tanto, foi orientado aos alunos matriculados na disciplina de Pedologia, que expressassem os conhecimentos adquiridos ao longo do semestre, com base em seus interesses particulares, sua percepção sobre os solos ou ainda sobre as relações que esses estabelecem com o meio.

Resultados obtidos

O material a seguir é um compilado dos resultados obtidos com a realização da atividade. Nos surpreendeu a diversidade de temas e as formas de comunicação apresentadas pelos alunos, aqui separados por: Tópicos em Ciência do Solo/Pedologia (11 trabalhos), Ilustrações (2 trabalhos), Poesia (1 trabalho), Entrevista (1trabalho), Fotos (10 trabalhos) e Panfletos (4 trabalhos).


Boa leitura!


Edição: Diego Fernandes Terra Machado

Arte da Capa: Diego Fernandes Terra Machado


Reunião anual do IGCP 732

Reunião anual do IGCP 732 – LANGUAGE of the Anthropocene (Lessons in anthropogenic impact: a knowledge network of geological signals to unite and assess global evidence of the Anthropocene): um espaço para trocas e aprendizado.

por: Érika C.N. Silva


A temática do Antropoceno tem sido debatida em diversos meios e por diferentes óticas, como já discutido em postagens anteriores nesse blog. Como pesquisadora interessada na temática, e que tem desenvolvido pesquisas referentes a deposições tecnogênicas/antropogênicas nos últimos anos, tive a oportunidade de participar, pelo terceiro ano consecutivo, da reunião científica do IGCP 732 – LANGUAGE of the Anthropocene. Participo das reuniões como colaboradora a convite do Professor Doutor Michael Wagreich, da Universidade de Viena. E neste ano, pela primeira vez, participei de forma presencial da reunião, apresentando trabalho na cidade de Xi’an, na China. Mas o que é um IGCP?

IGCP (International Geoscience Programme), conforme o site da UNESCO [1], é o carro-chefe da entidade referente ao apoio para investigações em geologia e geofísica. Em tradução livre, o IGCP serve como um centro de conhecimento da UNESCO para facilitar a cooperação científica internacional nas geociências, e a missão do IGCP inclui a promoção do uso sustentável dos recursos naturais, avançando em novas iniciativas como a geodiversidade e “geo-heritage”, além da mitigação dos “geohazards risks”. Ainda de acordo com o site, desde 1972 o IGCP estabeleceu uma parceria com a IUGS (União Internacional de Ciências Geológicas) com o intuito de reunir milhares de cientistas da Terra de todo o mundo, permitindo-lhes o benefício do espírito cooperativo gerado sob a égide da UNESCO. Ao todo são cinco temas do Programa, e o IGCP 732 está incluído no tema “Global Change and Evolution of Life – evidence from the geological record” [2].

Um pouco sobre o IGCP 732

O IGCP 732 (LANGUAGE of the Anthropocene) refere-se, como o próprio nome já possibilita interpretar, às discussões em torno da temática do Antropoceno, com a participação de pesquisadores que se dedicam a diferentes aspectos que são abrangidos nos estudos do Antropoceno. O objetivo, conforme consta na página da UNESCO referente a esse IGCP, é o desenvolvimento de ideias e redes acerca do conceito do Antropoceno, através de um ambiente de cooperação global entre cientistas, focando especialmente nos países considerados em desenvolvimento ou menos desenvolvidos. Complementam, ainda, mencionando a união e avaliação de evidências globais do Antropoceno e o estabelecimento desse conceito enquanto estrutura fértil para as geociências, através da elaboração de uma rede global de especialistas e parceiros de projeto, realização de workshops em países considerados em desenvolvimento, e estabelecimento de um banco de dados aberto de informações e conhecimentos acerca do Antropoceno [3].  Este IGCP entrou em vigor em 2021, e estará em plena atividade até 2026, sob a liderança do Prof. Dr. Michael Wagreich, da Universidade de Viena. Tem como Principal Investigators (PIs) as pesquisadoras Doutoras Mehwish Bibi (Paquistão), Barbara Fiałkiewicz-Kozieł (Polônia), Juliana A. Ivar Do Sul (Brasil/Alemanha), Lydia Olaka (Quênia), Catherine Russell (Inglaterra), Maria Luisa Tejada (Filipinas), Luyuan Zhang (China) e Veronika Koukal (pesquisadora e secretária desse IGCP). Além dos PIs, o IGCP conta com a participação de diversos colaboradores, dentre os quais me incluo e, por isso, tenho participado das reuniões anuais com a finalidade de divulgação, a nível internacional, do trabalho que temos desenvolvido no Brasil nos últimos anos (parcerias entre profissionais da UNICAMP, UFR, UNESP e pesquisadores independentes), além das possibilidades de aprendizado de novas abordagens e estabelecimento de redes de cooperação.

Reunião em Xi’an

As principais reuniões relativas ao IGCP ocorrem anualmente, onde todos os participantes têm a oportunidade de apresentar seus trabalhos desenvolvidos na temática, com suas diferentes abordagens e áreas de investigação, como por exemplo análise de dados geoquímicos referentes a diversos tipos de ambientes sedimentares [4]. Esta reunião teve formato híbrido, com participantes em Xi’an e online. Somados à apresentação de trabalhos, sempre há palestrantes convidados, como por exemplo algum pesquisador diretamente envolvido no Anthropocene Working Group (este ano a fala foi proferida por Simon Turner, ocupante do cargo de secretário no AWG), que nos informa sobre o andamento de trabalhos relativos à proposta do Antropoceno enquanto época geológica [5].

Neste ano, no contexto do estágio que estou realizando aqui em Viena [6], tive a possibilidade de participar de forma presencial da reunião realizada em Xi’an, apresentando alguns resultados preliminares que temos alcançado na investigação de deposições antropogênicas/tecnogênicas. Nesta ocasião, focamos nos resultados de análises químicas e físicas e comparamos os resultados entre as deposições e solos na área investigada em Rondonópolis-MT. Foram destacadas, por exemplo, as evidências, em algumas camadas de deposições antropogênicas/tecnogênicas, relativas aos dados de campo e laboratório que sugerem pedogênese, ou seja, formação, mesmo que incipiente, de solo.

O trabalho apresentado, com o título “Comparisons of lab results of anthropogenic formation and “natural” soil: granulometry, sand fractioning and pedological chemical analyses” possui autoria minha, do Prof. Dr. Caio Augusto Marques dos Santos (UFR) e do Prof. Dr. Francisco Sérgio Bernardes Ladeira (UNICAMP). Além da apresentação, assistir presencialmente as apresentações de demais pesquisadores e ter a oportunidade de conversar nos demais momentos de interação, possibilitou que novas ideias surgissem para a continuação das pesquisas que temos desenvolvido no Brasil, além de divulgar possibilidades procedimentais e analíticas que os demais pesquisadores possam vir a utilizar em suas áreas de estudo. A pesquisa é supervisionada pelo Prof. Dr. Francisco Sérgio Bernardes Ladeira, com co-supervisão do Prof. Dr. João Osvaldo Rodrigues Nunes (UNESP), com parceria do Prof. Dr. Caio Augusto Marques dos Santos. Já o estágio em Viena é supervisionado no exterior pelo Prof. Dr. Michael Wagreich (Universidade de Viena).

Os anfitriões na reunião desse ano foram: Institute of Earth Environment da Chinese Academy of Sciences, State Key Laboratory of Loess Science. E os co-anfitriões: IEECAS Group of Youth Innovation Promotion Association CAS, Anthropocene Research Branch da Geological Survey of China, Xi’an Institute for Innovative Earth Environment Research, Shaanxi Association for Science and Technology. A reunião ocorreu na semana do dia 14 de novembro de 2023, no Qujiang Huibinyuan Hotel.

Foto da apresentação em Xi’an (foto enviada por Luyuan Zhang)
Foto oficial da reunião – Fonte: https://news.sciencenet.cn/htmlnews/2023/11/512399.shtm

Os participantes que puderam estar de forma presencial em Xi’an fizeram, no primeiro dia, um passeio cultural que permitiu conhecer um pouco sobre os aspectos históricos dessa importante cidade na China. Esse passeio cultural incluiu conhecer a muralha da cidade e o Exército de Terracota, este último parte integrante do Mausoléu de Qin Shi Huang, fundador do primeiro império unificado da China durante o século III a.C, localizado no sopé norte da montanha Lishan, tendo sido descoberto em 1974 [7]. Conforme nos foi informado durante a visita, os trabalhos de escavações e reconstruções/restaurações continuam até os dias atuais, exigindo esforços de vários profissionais. As imagens a seguir apresentam um pouco do que esse passeio permitiu conhecer.

Outra visita interessante foi no Institute of Earth Environment da Chinese Academy of Sciences, que foram os anfitriões dessa reunião. Nesta ocasião pudemos visitar diferentes laboratórios e conhecer um pouco das diferentes pesquisas que têm sido desenvolvidas, com diferentes abordagens e metodologias, que podem ser relacionadas direta e indiretamente à perspectiva do Antropoceno em termos de mudanças ocasionadas nos diferentes ambientes. As fotos a seguir foram enviadas pela PI responsável por essa reunião na China (Luyuan Zhang), e apresentam registros da nossa visita em alguns dos diferentes laboratórios que conhecemos na instituição.

Último destaque é dado para o trabalho de campo realizado no Geoparque Nacional de Loess em Luochuan. A organização do evento preparou essa investigação de campo com o intuito de nos proporcionar conhecimento sobre esse tipo de formação superficial, denominada de Loess, que tem chamado a atenção dos cientistas no que diz respeito a investigações relativas à geoconservação, estudo de mudanças climáticas, entre outros focos. Em tradução livre do material de apoio preparado pelos anfitriões, a seguinte explicação sobre a área que visitamos é oferecida:

O Geoparque Nacional de Loess em Luochuan é um projeto de conservação ambiental na China que responde ao Programa Global de Geoparques da UNESCO com o objetivo de promoção do desenvolvimento sustentável para a sociedade. A construção do parque serve ao propósito de beneficiar a sociedade, protegendo o ambiente. O Geoparque Nacional de Loess em Luochuan é caracterizado por perfil clássico de Loess e por geomorfologia relativa a Loess. Também preserva fósseis de vertebrados e abundantes informações sobre paleoclima, paleoambiente, paleontologia e outros importantes eventos relativos ao período Quaternário.

Visitamos o geoparque e o museu referente ao geoparque, com diversas explicações sobre a instituição do geoparque e sobre os projetos e pesquisas em andamento, que abarcam simulações e observações referentes aos aspectos climáticos, biológicos (vegetação) e geomorfológicos. Dentre os objetivos estão a simulação da resposta do Loess em decorrência de mudanças de características ambientais, como o clima (intensificação-redução da pluviosidade, por exemplo). As fotografias a seguir são da área visitada. A alternância de cores, ora mais clara e ora mais avermelhada, é atribuída a mudanças ambientais que permitiram o desenvolvimento de solos (hoje paleossolos). As duas últimas fotos foram enviadas por Luyuan Zhang, o restante é do meu acervo pessoal.

A experiência de participação na reunião de forma presencial proporcionou muitos ganhos em termos de conhecimento, tanto durante as apresentações e palestras, quanto nos outros momentos do evento (nas visitas de campo, passeio cultural e visita aos laboratórios). A oportunidade de conhecer um país como a China, com suas culturas e paisagens, também foi muito gratificante, em particular por ser a minha primeira oportunidade de conhecer um país asiático, que recebeu esse grupo de pesquisadores de nacionalidades diversificadas de forma que nos fizeram nos sentir bem-vindos e de portas abertas para possibilidades futuras de pesquisa em parceria.


Para saber mais!


Lista de links

[1] Site oficinal da UNESCO: https://www.unesco.org/en/iggp/igcp

[2] IGCP Projects – Global change and the evolution of life evidence from the geological record: https://www.unesco.org/en/iggp/igcp-projects?hub=67817#global-change-and-the-evolution-of-life

[3] IGCP Project 732 – Language of the Anthropocene: https://www.unesco.org/en/iggp/igcp-projects/732

[4] Para maiores informações sobre essa reunião e as anteriores, consultar o site do IGCP: https://igcp732.univie.ac.at/meetings/

[5] Para maior detalhamento sobre o Anthropocene Working Group, sugiro a leitura de outro texto desse blog (https://www.ige.unicamp.br/pedologia/2023/06/06/antropoceno-epoca-do-quaternario/).

[6] Tanto a pesquisa de pós-doutorado quanto o estágio relativo a ele, em desenvolvimento na Universidade de Viena, possuem apoio da FAPESP: Processo FAPESP no 2019/21885-7; Processo FAPESP no 2023/03963-6. Sem esse financiamento, as pesquisas que temos desenvolvido e a participação presencial em eventos como este não seriam possíveis.

[7] https://whc.unesco.org/en/list/441


Texto: Érika Cristina Nesta Silva

Edição: Diego Fernandes Terra Machado

Arte da Capa: Diego Fernandes Terra Machado


Artigo discute ocupação humana inicial e mudanças geomorfológicas no sudeste do Brasil.

A pesquisa apresenta uma integração entre a caracterização da geologia, relevo, solos, sedimentos e de 600 artefatos de rocha lascada encontradas adjacentes a planície do rio Mogi-Guaçu, no centro do estado de São Paulo. Ocupação humana local pode ter se iniciado mais de 17 mil anos atrás. 


O artigo publicado na revista Journal of Quaternary Science [1] traz resultados parciais da pesquisa que está sendo conduzida pelo doutorando em Geografia, Pedro Michelutti Cheliz, vinculado ao LABPED | IG-UNICAMP. Nele, caracterizou-se que a ocupação humana de antigos caçadores-coletores ocorreu em encostas truncadas por movimentos laterais (~1200 m) e verticais (~5 m) do Rio Mogi-Guaçu durante o Quaternário Tardio, em uma área onde afloramentos rochosos são incomuns. Este contexto geológico favoreceu o acesso simultâneo de grupos humanos aos recursos proporcionados pela planície aluvial e pelas encostas.

Apenas artefatos de quartzo foram encontrados nos pontos mais profundos das escavações, enquanto nos segmentos intermediário e superior foram encontrados também artefatos de sílexito e arenito, sugerindo que houve mudanças nos materiais geológicos usados por estas antigas populações em paralelo as mudanças ambientais locais.

Os pesquisadores Gabriela Sartori e Pedro Michelutti nas escavações do sítio arqueológico Rincão I

No artigo se descreve como centenas de artefatos rochosos estão associados a paleossolos originários de colúvios datados por LOE* entre 20,3 e 5,5 mil anos. Essas idades são consistentes com os contextos paleopedológicos e geomorfológicos locais de mudanças paisagísticas e, em parte, controversas do ponto de vista dos modelos para a dispersão humana do sudeste do Brasil, que usualmente caracterizam idades menos antigas (entre 10 e 12 mil anos atrás) para a ocupação antrópica inicial deste setor do território nacional. 

Luminescência Opticamente Estimulada (LOE)

A datação por luminescência opticamente estimulada (LOE) é um método científico utilizado para estimar a idade de sedimentos que estiveram expostos à determinados tipos de radiação que se dispersam facilmente quando expostos a luz do sol. Desta maneira, podemos estimar o último momento em que estes materiais foram alcançados pela luz solar, e portanto estimar o tempo de deposição dos sedimentos. Esse método se baseia na medição da quantidade de radiação acumulada por grãos de quartzo, e compara-la com a taxa de emissão de radiação presente nos sedimentos. Ao comparar a quantidade de radiação acumulada nos grãos de quartzo com as taxas de emissão natural de radiação de outros minerais ali presentes, os cientistas podem determinar há quanto tempo o material foi soterrado, o que proporciona informações importantes sobre sua idade e história.
Alguns dos artefatos resgatados nas escavações, imagens dos trabalhos de campo e, ao centro, vista dos solos locais tal como observados no microscópio petrográfico

O artigo foi dedicado à memória de Manoel Martins (1959-2023), professor da rede pública de geografia e sociologia, que encantou e incentivou vocações e vidas de incontáveis estudantes na região de Araraquara, onde a pesquisa foi feita.


Artigo: Early anthropic occupation and geomorphological changes in South America: human–environment interactions and OSL data from the Rincão I site, southeastern Brazil

Leia mais aqui: [1] https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/jqs.3505


Edição: Diego Fernandes Terra Machado


O que são os terrenos tecnogênicos e como eles se relacionam com a perspectiva do Antropoceno?

por: Érika Cristina Nesta Silva –

Um olhar sobre o impacto dos seres humanos a partir das formas destruídas, produzidas e/ou alteradas na superfície terrestre.


Nos últimos anos temos visto, em diversos meios, o quanto a sociedade tem alterado as características naturais de diferentes paisagens, no decorrer do processo de produção do espaço. Nesse sentido, incluem-se as modificações nos aspectos climáticos, da biodiversidade, dos solos, dos relevos, dos componentes geológicos, etc.

Com particular atenção à geomorfologia, geologia e pedologia, a perspectiva dos terrenos tecnogênicos surge como uma possibilidade de classificar e interpretar os resultados da ação da sociedade nos processos e elementos relativos à superfície terrestre.

Cabe observar que quando falamos de “sociedade” não estamos nos referindo a um humano genérico, mas sim, ao estudar essas e outras modificações na paisagem, precisamos sempre esclarecer de QUAL ser humano estamos falando, ou melhor, a qual classe e fração de classe social pertence, especificamente, esses seres humanos que estão causando as modificações e aqueles que estão se beneficiando ou sofrendo as consequências dessas ações.

Os Terrenos Tecnogênicos

A perspectiva de estudo considerando especificamente a terminologia “Terrenos Tecnogênicos” passa a ter destaque no Brasil em 2014 (PELOGGIA et al., 2014), a partir de um artigo publicado com o intuito de propor e discutir uma classificação geológica de terrenos artificiais, ou seja, daqueles terrenos formados e/ou alterados pela ação do ser humano, em situações que resultaram na intensificação de processos erosivos e deposicionais diversos, cortes e aterros originados por ação mecânica direta, além da própria alteração in situ, a exemplo de contaminações, compactações, etc.

Neste processo de discussão e classificação, os autores utilizaram diferentes referenciais, dentre os quais de origem britânica, estudos soviéticos e do leste europeu. Portanto, houve no decorrer da escrita desse artigo, a tentativa de abarcar as diversas situações de geotecnogênese, referente a alterações nos solos, nos sedimentos, nos aspectos geológicos, como cortes nas rochas e mineração, e no relevo. Essa classificação passou por algumas atualizações e hoje boa parte dos trabalhos utilizam a publicada em Peloggia (2017) (Quadro 1).

Geotecnogênese : conjunto da ação humana transformadora sobre o ambiente, envolvendo a alteração dos processos da dinâmica externa, sejam estes erosivos ou deposicionais, resultando na criação de formas de relevo (tecnogênico) e na formação dos depósitos tecnogênicos. (PELOGGIA; OLIVEIRA, 2005).

Classificação de Terrenos Tecnogênicos (Antropogênicos) para a mapeamento geológico e geomorfológico - Fonte: Peloggia (2017).
Quadro 1: Classificação de Terrenos Tecnogênicos (Antropogênicos) para a mapeamento geológico e geomorfológico – Fonte: Peloggia (2017).

O Antropoceno

Ao passo que não dá mais para negar que a sociedade, com suas diversas possibilidades técnicas, tem imprimindo sua marca nas paisagens, surge no início dos anos 2000 a ideia do Antropoceno (CRUTZEN; STOERMER, 2000; CRUTZEN, 2002).

Interpretações e proposições mais recentes, que vem sendo discutidas em diversas esferas, como dentro da Subcommission on Quaternary Stratigraphy (em particular os trabalhos de pesquisadores que fazem parte do Anthropocene Working Group) trabalham com a possibilidade do Antropoceno ser uma nova época geológica, ainda incluída no período Quaternário.

Esta nova época Geológica teria  provável início na metade do século XX, momento a partir do qual intensificam as “assinaturas”, ou melhor, evidências das ações da sociedade nos solos, na elaboração de depósitos artificias, na presença de novos tipos de “minerais” em diversos ambientes, em “antroturbação” (interpretada como uma bioturbação de origem humana), em alterações relativas à elevação do nível do mar, nas alterações geoquímicas na criosfera e nos espeleotemas, além de contaminações nos solos e precipitações de radiogênicos, em particular os específicos dos bombardeios e testes nucleares (WATERS et al., 2014).

“New Awful Changes – the human geological stratum rediscovered”. Acrílico e colagem sobre tela, 100 x 70 cm, por Alex Peloggia, 2018 (obra e explicação sobre ela disponível em: https://ppegeo.igc.usp.br/index.php/rig/issue/view/1228).
Observação sobre a imagem: se, no futuro, o ser humano deixasse de existir e outros seres estudassem o estrato geológico humano, quais seriam as interpretações possíveis sobre as características da espécie humana e de suas diferentes culturas, a partir o registro material? Parte importante desses registros estaria relacionada ao que se está denominando de época do Antropoceno

Mas quais são as possíveis relações dos terrenos tecnogênicos com o Antropoceno?

Uma das principais relações que podemos destacar é que boa parte das evidências relativas ao Antropoceno podem ser encontradas em terrenos tecnogênicos de agradação, como a presença de novos materiais, especialmente plástico e concreto (este último não necessariamente novo, mas mais amplamente utilizado em construções pós Segunda Guerra Mundial, como em reconstruções em cidades europeias). Estes materiais são encontrados em diferentes ambientes (Figura 1), inclusive em aterros, bancos de sedimentos em áreas de planícies aluviais (isso só para destacar a relação com terrenos tecnogênicos, fora a presença, especialmente dos plásticos, em ambientes que teoricamente não possuem ocupação humana direta, mas que foram transportados pelos oceanos).

área com deposição tecnogênica
Figura 1: Exemplo de área com deposição tecnogênica (terreno tecnogênico de agradação) Fonte: Silva (2017).

De acordo como Peloggia (2017), do ponto de vista geológico-geomorfológico, os terrenos tecnogênicos podem ser classificados como em quatro classes:

Agradação – resultantes da acumulação de material

Degradação – remoção ou deslocamento de material

Modificados – derivados da transformação in situ do material

Complexos – terrenos com sobreposição de diferentes ações (agradação e/ou degradação).

Muitos desses materiais, cujo uso cresce vertiginosamente após a metade do século XX (Figura 2), permanecerão nos ambientes como testemunho, numa perspectiva futura arqueológica, das características das sociedades atuais. Ainda em relação a essas deposições, Waters et al. (2018) trabalham com a ideia de que essas áreas de deposições originadas pela ação humana podem ser consideradas entre os possíveis paleoambientes que abarcam marcadores estratigráficos relativos ao Antropoceno.

Figura 2: Crescimento da produção de plásticos desde 1950 – Fonte: Revista Fapesp (https://revistapesquisa.fapesp.br/a-era-humana)

Já no caso de terrenos que tiveram retirada de material em subsuperfície para instalação de infraestruturas como tubulações e linhas de metrô, em muito se conectam com a ideia da “antroturbação”.

Além disso, mesmo áreas teoricamente “naturais”, com pouca ou nenhuma mobilização de materiais, nas quais os terrenos tecnogênicos são classificados como “modificados”, podem ter sofrido processos de contaminações e modificações de suas características geoquímicas, como no caso da precipitação de radiogênicos relativos aos testes nucleares.

Há, portanto, diversas possibilidades de conexão dos estudos acerca dos terrenos tecnogênicos com a proposta do Antropoceno como nova época geológica, bem como essas possibilidades podem ser ampliadas conforme os estudos avancem nessa área, a partir do reconhecimento de novos tipos e níveis de interação da sociedade com os demais componentes e processos das paisagens.


Referências bibliográficas

CRUTZEN, P. J. Geology of mankind: the Anthropocene. Nature 415, 23, 2002.

CRUTZEN, P. J. & STOERMER, E. F. The Anthropocene. Global Change Newsl. 41, p. 17–18, 2000.

PELOGGIA, Alex Ubiratan Goossens. O que produzimos sob nossos pés? Uma revisão comparativa dos conceitos fundamentais referentes a solos e terrenos antropogênicos. Revista Geociências-UNG-Ser, v. 16, n. 1, p. 102-127, 2017.

PELOGGIA, A. U. G.; OLIVEIRA, A. M. S. Tecnógeno: um novo campo de estudos das geociências. I Encontro de Tecnólogos. ABEQUA, 2005

PELOGGIA, A. U. G.; OLIVEIRA, A. M. S.; OLIVEIRA, A. A.; SILVA, E. C. N., NUNES, J. O. R.  Technogenic geodiversity: a proposal on the classification of artificial ground. Revista Quaternary and Environmental Geosciences, Curitiba, v.5, n.1, p. 28-40, 2014.

SILVA, E.C.N. Reconstituição Geomorfológica do Relevo Tecnogênico em Presidente Prudente-SP. 2017, 246f. Tese (Doutorado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista.

WATERS, C. N.; ZALASIEWICZ, J.; SUMMERHAYES, C.; FAIRCHILD, I. J.; ROSE, N. L.; LOADER, N. J.; SHOTYK, W.; CEARRETA, A.; HEAD, M. J.; SYVITSKI, J. P. M.; WILLIAMS, M.; WAGREICH, M.; BARNOSKY, A. D.; ZHISHENG, A.; LEINFELDER, R.; JEANDEL, C.; GAŁUSZKA, A.; IVAR DO SUL, J. A.; GRADSTEIN, F.; STEFFEN, W.; MCNEILLS, J. R.; WING, S.; POIRIER, C.; EDGEWORTH, M. Global Boundary Stratotype Section and Point (GSSP) for the Anthropocene Series: Where and how to look for potential candidates. Earth-Science Reviews, v.178, p. 379–429, 2018.

WATERS, C. N.; ZALASIEWICZ, J. A.; WILLIAMS, M.; ELLIS, M. A.; SNELLING, A. M. A stratigraphical basis for the Anthropocene? In: WATERS, C. N.; ZALASIEWICZ, J. A.; WILLIAMS, M.; ELLIS, M. A.; SNELLING, A. M. A Stratigraphical Basis for the Anthropocene. London: Geological Society; Special Publications, 2014.


Texto: Érika Cristina Nesta Silva

Edição: Diego Fernandes Terra Machado


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Novo observatório para trazer o “solo das profundezas”

por: Francisco Ladeira.

Ecotron moverá núcleos de 3 metros de solo para o laboratório para experimentos de mudanças climáticas globais


No dia 12 de outubro, a revista Science publicou uma interessante reportagem sobre solos . Trata-se de um projeto em início de desenvolvimento na Universidade de Idaho, denominado Deep Soil Ecotron. A ideia central é trazer, para o laboratório, colunas completas de solo de até 3 metros e aí, sob condições controladas, acompanhar seu desenvolvimento, tanto em suas características bióticas quanto abióticas.

Um Ecotron é um tipo de experimento criado para estudar o impacto do clima nos ecossistemas e nos processos de biodiversidade. Geralmente é composto por várias unidades experimentais idênticas, que permitem a contenção do ecossistema, o controle das condições ambientais e a medição online dos processos ecofisiológicos.

Imagem: Laboratório com esferas ecossistêmicas para pesquisa climática no Parque Nacional Hoge Kempen. Reprodução Universidade de Hasselt

Ecotron CNRS

Os motivos para realizar este acompanhamento são diversos. Parcela significativa dos estudos sobre solos se concentra especialmente em seus primeiros 30 centímetros, pois aí está o principal nível com interesse para o desenvolvimento das diferentes atividades agrícolas. Abaixo disso, o solo é, comparativamente, muito menos conhecido.

O solo, além da sua porção superficial, é crítico para alterações climáticas, para a qualidade da água, manutenção dos ecossistemas e até para a produção mineral. Mas o perfil de solo, como um todo, é incrivelmente difícil de estudar. Escavar uma trincheira sem perturbar sua estrutura e habitantes é praticamente impossível. Quanto mais fundo se vai, mais difícil é. 

Para tentar solucionar estes problemas. A U.S. National Science Foundation irá financiar o Ecotron com um valor total de US$ 19 milhões. O novo laboratório permitirá aos pesquisadores manipular uma série de fatores em colunas hermeticamente fechadas e controladas, incluindo temperatura, umidade e concentrações de dióxido de carbono (que influenciam o desgaste das rochas e a formação do solo). Eles serão capazes de simular a ressurgência das águas subterrâneas e talvez até mesmo os ciclos de congelamento e descongelamento que podem acelerar o desenvolvimento do solo. Também poderão acompanhar os organismos vivos presentes na coluna.

Renderização artística da instalação de Deep Soil Ecotron financiada pela NSF. Até 24 ecounits serão alojados na Universidade de Idaho, equipados com analisadores de última geração para quantificar o fluxo de gases do efeito estufa, a química da água do solo, o crescimento das raízes e a micro e mesofauna do solo. Imagem: Reprodução deepsoilecotron.org

Para Emma Aronson da Universidade da Califórnia, Riverside, um dos pontos chaves é a possibilidade de estudar como o carbono no solo pode responder às mudanças climáticas futuras, simulando condições de mudança com um grau de controle que nunca visto antes. Os proponentes do projeto acreditam que os solos profundos aqueçam com o aquecimento da Terra, e experimentos de campo sugerem que isso pode fazer com que o solo libere carbono na atmosfera 30% a 50% mais rápido do que hoje, afetando diretamente o ciclo de carbono.

O laboratório estará pronto em 5 anos e terá capacidade para 24 colunas de solo, incluindo a vegetação de cobertura. Uma empresa já está testando alternativas para a coleta em campo das colunas de até 3 metros, desafio significativo pois esta terá que ser a menos perturbada possível. Mesmo assim haverá perturbações, pois, raízes serão cortadas e porções inferiores do solo serão expostas na superfície. E claro, uma coluna em um laboratório não “funcionará” exatamente como um solo posicionado na paisagem. De qualquer forma os avanços científicos para o conhecimento do funcionamento do solo serão significativos.


Sobre o autor

Francisco Sergio Bernardes Ladeira

Graduou-se bacharel em Geografia pela Universidade Estadual Paulista – Júlio de Mesquita Filho (1989), mestre em Geografia (Geografia Física) pela Universidade de São Paulo (1995) e doutor em Geografia (Geografia Física) pela Universidade de São Paulo (2001). Atualmente é MS-3.2 da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Paleopedologia, Superfícies Geomorfológicas e Relação Solo-Relevo.


Texto: Francisco S. B. Ladeira

Edição: Diego F. T. Machado

Artigo discute a influências de mudanças climáticas e hidrológicas na transformação das paisagens nos últimos 115 ka

por Pedro Cheliz –

O trabalho assinado por Pedro M. Cheliz e colaboradores aponta alternâncias entre climas úmidos e secos desde o Eemiano e questiona algumas relações estabelecidas entre altitudes de terraços, idades de depósitos e tipos de solos.


Acaba de ser disponibilizado na revista Quaternary International um novo artigo que discute as relações entre relevo, solos e depósitos em planícies fluviais, a partir de um estudo de caso na planície do rio Jacaré-Guaçu. O artigo aborda evidências de transformações ambientais e climáticas dos últimos 110 mil anos registradas nesta planície aluvial. Igualmente, ele caracteriza como mudanças na paisagem ao longo do tempo contribuíram para criar no local uma dissociação entre formas de relevo e materiais associados.



Ali, os terraços fluviais mais elevados vinculam-se a depósitos mais recentes (12-8 mil anos atrás) e paleosolos formados em condições de má drenagem (onde a água penetra e circula com dificuldade pelo perfil de solo).

Os terraços mais baixos e próximos a várzea, por sua vez, encontram-se associados a depósitos mais antigos (115-110 mil anos atrás) e  a paleosolos formados em condições de boa drenagem (onde a água penetra e circula com facilidade pelo perfil de solo), ainda que atualmente predominem neste local condições de má drenagem.

A área de estudo está localizada no Estado de São Paulo (Brasil), próximo à divisa entre os municípios de Boa Esperança do Sul e Araraquara

Estes padrões de conexões entre formas de relevo e materiais associados são diferentes dos usualmente registrados em planícies aluviais do sudeste do Brasil, onde os terraços fluviais são geralmente interpretados como vinculados a depósitos tão mais antigos e solos tão melhor drenados quanto mais elevados em relação ao nível do rio atual. De maneira que fortalece-se incertezas em relação a extrapolações frequentemente feitas entre altitudes de terraços, idades de depósitos e tipos de solos. Reforçando, assim, a necessidade de estudos geomorfológicos, pedológicos e cronológicos de detalhe em áreas pequenas em adição a pesquisas voltadas a caracterizar tendências dominantes de sistemas fluviais ao longo de áreas mais vastas.

Leia o artigo na íntegra: DOI: 10.1016/j.quaint.2021.06.016


Sobre o autor correspondente

Pedro M. Cheliz é graduado em Geografia e Geologia, e mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com cursos de formação complementar na área de arqueologia. Tem experiência profissional em consultoria e licenciamento ambiental, bem como como educador no ensino básico nas áreas de geografia, história e ciências, e no ensino superior nas áreas de geologia e geografia. Desenvolve atividades de pesquisa na área de Geociências e Geografia, atuando principalmente nos seguintes temas: geomorfologia, pedologia, planejamento ambiental e geoarqueologia. Vincula-se aos grupos de pesquisa do LabPed (Laboratório de Pedologia), NEAL (Nucleo de Estudos Ambientais e Litorâneos), IPEC (Instituto de Pesquisas Cananéia) e GEA (Grupo de Estudos de Arqueologia). Atualmente é bolsista de doutorado do CNPQ.

ResearchGateLattes – email: pedro.michelutti@gmail.com


Texto: Pedro M. Cheliz

Edição: Diego F. T. Machado


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